«Evidenciar-se-ão assim, sagazes, as fecundas raízes do nosso berço babilónico.»
The Nihillusionary Project
Live by the Word, die by the Word!
Dead Poet’s Sobriety
THEE K OBLIGE
«O mito é o nada que é tudo», escreveu Fernando Pessoa, provavelmente num dia em que o ensopado de borrego lhe caiu mal. São assim, os génios. Quanto a mim, não te sei dizer por que carga de sangue a Grande Mãe me arregaçou a vida com o ofício da poesia, o labor da palavra e do sonho; sei, contudo, que o meu primeiro contacto com esta arte se deu quando, ao folhear ao acaso um dos milhares de livros que a minha preciosa ascendência me legou – na circunstância, a Mensagem – me deparei com aquele verso grandíloquo e sublime que dá o mote à obra. Ora, quando um puto, ainda mal iniciado na impiedosa adolescência, mas já imberbido da ameaça de estupidificação que paira em redor de si, começa a interessar-se pelo «fazer» verbal e apanha logo de chapa com uma sentença daquelas, compreenderás que dificilmente volta a dormir sossegado. Seguro. Encontrara ali, pois, o verso que serviria na perfeição a minha concepção de poesia. Ponto. Dois: algo que então desconhecia era o abismo imenso que iria certo encontrar: espaço de pesadelo e maginação, veneno e cura, o que é facto é que não é impunemente que alguém se dedica a fazer da sua morte um poema. Em todo o caso, misticismos à parte, sou um gajo que, ainda assim, se rege pelas leis do livre-arbítrio, o que, como é natural, já me custou uma avalanche de problemas, fora os dilemas, que, como se sabe... Mas adiante, que não era este o desígnio das palavras que queria hoje deixar-te. Dizia eu há pouco, portanto divagar, que a minha incursão primeira nos terríveis meandros da poesia passou por Fernando Pessoa e por esse pequeno grande livro que, ainda hoje, considero o mais singular fio de Ariadne a envolver o glorioso manto de retalhos dourados que é a Literatura Portuguesa. Porém, foi com a Ode Marítima primeiro, e com Ricardo Reis e Bernardo Soares depois (o Livro do Desassossego, aliás, inspirou a escrita d'Os Funerários), que concluí: «Ok, isto há-de ser a morte de mim.» Fiquei, como calcularás, extasiado. Comecei a ler toda a poesia que apanhava lá em casa – o Cesário, o Cesariny, Sá-Carneiro, Lisboa, o Gomes Ferreira, a Natália Correia, Gomes Leal, o Antero, o Al Berto, o Herberto, o Herbert, o Wordsworth, Eliot, Yeats, William Blake, Emily Dickinson, Verlaine e demais franceses chanfrados, o Rimbaud, Baudelaire, eu sei lá, Homero, Safo... até a desgraçada da Florbela Espanca li, vê lá! – era uma loucura; dispus-me, depois, a estudar diversas gramáticas (algumas bem chatas, por sinal) do ofício; e desatei, por fim, quiçá inadvertidamente, também eu a escrever qualquer coisinha. Passou-se que, certo dia, bêbado que nem um ataúde (quando me movia já como um batráquio num pântano de cerveja, diria o Herberto), peguei no meu entulho literário, já uma quantidade considerável, e não fiz mais nada: queimada púdica. Arrependo-me vivamente, claro está, mas, enfim, sou um tipo ensandecido e bastante impulsivo. Já em 2005, depois de meses e meses de estímulo por parte de um amigo e companheiro da palavra, o Black Rider, para que escrevesse um blogue, que talvez houvesse gente interessada, súbito passeou-se-me uma nefasta apreensão pela bruma encefálica: «Isto é que ele vai para aí uma cambada de necrófagos esfomeados, hein?» Pois bem, conceito para aqui, conversas wolferinas ali, e eis que nascia este meu apertado covil. Não sem antes, como quem me conhece o corroborará (corroborará?!... a língua portuguesa é muito... pois), ter estado um par de meses a ponderar se devia, se não devia prosseguir. Receios de um espírito macambúzio, julgo eu. Todavia, parece-me que terei deixado aqui o melhor (melhor, o melhor possível) da minha poesia de adolescência, mais ou menos trabalhada, claro-escuro, mas nem por isso pouco ingénua.
Paragrafeando, para certas alminhas não virem acusar mim de não saber o que é um parágrafo. Pouco tempo depois de ter criado este blogue, que nunca consegui gerir como deveria ser, já andava a pensar em erguer um outro, mais interessante, desejava eu, sobre algo que sempre quis escrever mas para o qual ainda não me sentia devidamente preparado. Sou um amante fervoroso de poesia medieval galaico-portuguesa; daqui resulta que foi criado, em Junho ou Julho passado (há um ano, portanto; repito, capitalmente: HÁ UM ANO!!! Pena capital, sim, mas com adoçante, por favor...), um blogue assim baptizado: TROVAS/TREVAS. (Aliás, se consultares o perfil do The Poisonous I, verás que não sou assim tão mentiroso. Dissimulado, sim; mentiroso... olha, whatever.) Dizia-te que havia criado outro blogue, leia-se antes, criou-o o Wolf, tal como este, que eu não percebo nada destas modernices, templates e merdas do género. (Eu é mais escrever, lembrando o outro.) Ora acontece que em Outubro último apareceu para aí um blogue – se sentires dificuldades umbilicais, o blogue chama-se O BAR DO OSSIAN – que me anda a tirar o sono e a desejar nunca ter abandonado o fórum da «auto-estima deplorável». É que quando leio textos com a qualidade, por exemplo, dos de um Jesus Carlos ou de um Vítor Mácula (já para não falar na classe da Antígona, ou da Bia); quando me delicio com os assombrosos trabalhos do Ruela ou com o supremo bom gosto da She... enfim, toda uma galeria de vultos ilustres –, dou por mim a questionar-me sobre a pertinência e a validade do TROVAS. Mais, tenho uma dívida tremenda para com o Klatuu, que não só é um notável escritor que me pôs (finalmente!) a ler Fialho de Almeida, como me tem incentivado sobremaneira a não deixar de publicar em blogues. É que já nem sei quantas vezes me terá ele convidado a publicar no Bar, e eu, que tanto quero ir para lá morar, junto de outras almas oceânicas, nada. Simplesmente, o que havia pensado por lá fazer já está a ser feito, pelo Horned Wolf, e para mais, sendo ele bem mais talentoso, tudo resulta lindíssimo. Refiro-me, como se entenderá, ao trabalho sobre as lendas portuguesas que ele tão devotamente tem erguido na sua rubrica LENDAS E FOLCLORE LUSITANOS. De modo que é assim, aquela gente vira-me do avesso com a sua arte – e eu não sei que faça. Ainda por cima eu, que tanto sonhei este encontro. Quanto ao blogue da Serpente, basta de irresponsabilidade e de preguiça editorial. É que se visses o estado em que tenho esta merda... tudo drafteado, pá. (Tenho mesmo de quitar o álcool e os drunfos, não se vá dar o descaso de quinar antes de obrar o que estrago em mim.) Isto posto, vampiro, vampira amiga, se te apetecer sugar qualquer coisita aqui do nómada, caso precises de algum plasma verbal e na eventualidade de ainda não teres recebido o teu – o sangue está caro, diz que é a crise –, deixo-te respeitosamente algum do meu labor funéreo. Nele encontrarás a escrita barroca (e bacoca) do costume, bem como o humor depressivo que tanto me apraz salutar. Chamemos-lhe «bolor fresquinho». Não te agrada a formulação? Buh! Ghosts não se discutem! Por conseguinte, e na impossibilidade de partilhar contigo palavras mais enlevadas, resta-me deixar-te um abraço ossudo e, pronto, despedir-me não já sem alguma saudade. Gostava de te poder ofertar uma fotografia do meu admirável focinho. Acontece que em todas elas surjo a fazer corninhos a mim próprio, e depois de há uns tempos ter assistido a mais um irrepreensível capítulo de Cenas da Vida Política Portuguesa, episódio 666 (como diria o Nuno Artur Silva), protagonizado por um digníssimo representante da escumalha que por aí prolifera, envergonhei-me de tal performance que fui ao ponto de deitar fora algumas fotografias minhas, guardando somente aquelas em que estou mais feio, para me lembrar de que a literatura salvou a minha vida. Mas, enfim, dou uns ares ao simpático amigo aqui de baixo. HUHUHUHUHUHUHU!!! Stay negative, brothers and sisters of pride. Galoremente vosso,
Nodula de Nomada
VIDA E OBRA DE UM POETA
Não descuido a minha obra. Deve-se velar por aquilo que conseguiu ascender, entre riscos e ameaças, às condições da realidade. Mas serão os meus poemas uma realidade concreta no meio das paisagens interiores e exteriores? Não possuo um só dos papéis que enchi; interessa-me a forma acabada das minhas experiências, e suas significações, mantida numa espécie de memória tensa e límpida. Os papéis, esses, estão em França (Paris ou Marselha), na Holanda, na África do Sul. Encontram-se nas mãos de conhecidos, desconhecidos, amigos, inimigos – e cada qual saberá usar deles de modo particular e, suponho, exemplar. Tirarão daí indeclináveis razões para a moralidade dos seus pensamentos com relação a mim e a eles mesmos. Não, não sei de cor as pequenas composições de palavras. Retenho a fantasia, a objectividade delas – ponto onde me apoio para saber que sou sólido, e tenho (ou sou) uma obra. Avancei muito no conhecimento da divindade, desde o dia em que escrevi um dístico na parede de um urinol de Lisboa até à minha obra-prima (um poema dramático), oferecida com maliciosa ingenuidade a uma prostituta nas docas de Amesterdão (ela não sabia português). Um poema desesperadamente religioso que falava do corpo e da sua magnificência e perenidade.
Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) – e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.
Foi assim que me pus a escrever – enquanto esperava a oportunidade de entrar numa casa (numa retrete, digo) ou quando, já nela, começava a pensar, a investigar, a decifrar, entregue e defendido na retrete, na profundidade que eu mesmo transportara ao longo dos anos, mal aflorada por instantes e agora enfim oferecida. O mundo não me tocara e fecundara em vão. Eu apurara a experiência, encontrara os meus centros. Levava tudo para a retrete: o amor, o terror, a grande cidade, o anjo da guarda com quem atravessara o bairro atulhado de putas. A minha obra nascia. Às vezes, no meio dos perigos, medos e vertigens destas experiências, olhava a cara num pequeno espelho de bolso, para ver se eu próprio me transformava por fora, ao sabor do sensível movimento do espírito, este conhecimento que ia ganhando da vida e da poesia. Vi que sim. O rosto anunciava com antecedência a chegada súbita de um sentimento muito agudo e quase doloroso das coisas, sua concordância e relações, a chegada da iluminação. Num dos poemas que deixei em Paris falo disto explicitamente, falo do homem vendo nos próprios olhos a nascente e brilhante imagem do mundo. É um bom poema em que trabalhei quinze noites seguidas, sempre sentado numa retrete da rue des Abbesses.
Outro princípio fulcral da minha poesia – o da Fêmea-Mãe – foi descoberto, imaginado, organizado e assumido na mesma retrete. Devo muito a essa retrete. Certas noites dava uma volta por Pigalle e estudava miudamente os cartazes nas casas de strip-tease. Absorvia a nudez retratada das actrizes como se absorve um plasma forte. Elas eram intérpretes de Deus. Via nesses corpos uma declaração divina, e o jogo espectacular do que chamam vícios era uma espécie de escrita manifesta, uma alusiva visibilização de Deus. E tudo isso me era dado como um caminho de conhecimento, uma complexa viabilidade. Todas as putas de Pigalle eram minhas mães; a carne fotografada, tornada viva em mim pelo enredo da comoção, era a carne-mãe, a matéria fundamental da terra. Deus instigava-me e amparava-me na descoberta e, posteriormente, na magnificação e glorificação do mundo.
Hoje, nada sei de quem me amou ou ama. Nada me reparte no tempo. Abro-me à unidade da vida – e amo o passado e o futuro com um só fervor: completo. A geografia não existe. Quem está em Joanesburgo e me ama ou possui um breve poema rabiscado nas costas de um envelope, ou quem me odeia em Roterdão e apenas tem algumas palavras sem destinatário, nada poderá supor da minha lenta maturidade. Esses papéis pouco valem, e esses sentimentos (de amor e ódio). Vale quem sou. Ultrapasso as palavras escritas aos trinta anos. O poema que agora escrevesse diria como estou pronto para morrer, referiria enfim a excelência do meu corpo urdido nas aventuras da solidão e da comunhão, e falaria de tudo quanto auxilia um homem no seu ofício – a ferocidade dos outros, o apartamento, ou o seu amor que, ferido pela ignorância, se inclina para ele, para o seu trabalho, o desejo, a expectativa. Morrerei como se fosse numa retrete de Paris – só, com a minha visão, o pressentido segredo das coisas.
E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.
Herberto Helder
Georg Friedrich Kersting,
Man Reading by Lamplight,
1814
Pergunta-me se os seus versos são bons. Pergunta-me a mim. Já antes perguntou a outros. Envia-os a revistas. Compara-os com outros poemas, apoquenta-se quando algumas redacções rejeitam os seus esforços. Pois bem, e já que me permite aconselhá-lo, peço-lhe que desista de tudo isso. Está a olhar para fora de si, e é sobretudo isso que não deve fazer agora. Ninguém o pode aconselhar, ninguém o pode ajudar, ninguém. Há uma única via. Entre dentro de si. Investigue a razão que o leva a escrever, veja se ela lançou raízes no lugar mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade; a sua vida, mesmo nas horas mais indiferentes e pequenas, terá de ser um sinal e um testemunho deste ímpeto. Aproxime-se então da Natureza. Tente então dizer, como o primeiro homem, o que vê e o que vive e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite por ora as formas mais comuns e correntes: são elas as mais difíceis, pois só uma grande força, já amadurecida, conseguirá criar uma coisa própria por entre a abundância de boas e por vezes brilhantes prestações. Evite por isso os motivos gerais e prefira aqueles que o seu quotidiano lhe oferece; descreva as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a fé numa qualquer beleza – descreva tudo isso com sinceridade íntima, tranquila, modesta, e para lhes dar expressão sirva-se das coisas que o rodeiam, das imagens dos seus sonhos e dos objectos das suas recordações. Se o seu dia-a-dia lhe parecer pobre, não o acuse de pobreza; acuse-se a si próprio, reconheça que não é ainda poeta o bastante para conseguir invocar as suas riquezas; pois para um criador não há pobreza e nenhum lugar é indiferente e pobre. E mesmo que estivesse numa prisão, cujas paredes separassem os ruídos do mundo dos seus sentidos, teria ainda e sempre a sua infância, essa riqueza preciosa e imperial, a câmara do tesouro da lembrança. Dirija a ela a sua atenção. Tente levantar as sensações submersas desse passado longínquo; a sua personalidade fortalecer-se-á, a sua solidão estender-se-á até se tornar uma casa à luz do cair da tarde ou do amanhecer, por onde o ruído dos outros passa à distância. E se, depois deste movimento de introspecção, depois deste mergulho no seu próprio mundo, se depois nascerem versos, já não lhe ocorrerá perguntar a alguém se eles são bons. Também não tentará despertar o interesse das revistas por estes trabalhos, pois vê-los-á como propriedade sua, natural e preciosa, como uma parte e uma voz da sua vida. A boa obra de arte nasce da necessidade. É esta origem, e nada mais, que determina o juízo do seu valor. Por esta razão, caro Senhor, não posso dar-lhe outro conselho para além deste: entre dentro de si e sonde as profundezas donde brota a sua vida; é nesta fonte que encontrará a resposta à pergunta: tenho de criar? Admita a resposta, qualquer que ela seja, sem a interpretar. Talvez venha a descobrir que nasceu para ser artista. Nesse caso, aceite o seu destino, carregue o seu peso e grandeza, sem perguntar por proveitos que possam vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo, tem de encontrar tudo dentro de si e na Natureza a que se uniu.
Talvez aconteça que, depois desta descida dentro de si e da sua solidão, tenha que renunciar a ser poeta; (como disse, basta sentir que se consegue viver sem escrever para não dever sequer tentá-lo). Mas mesmo então este exame de consciência que o insto a fazer não terá sido em vão. A sua vida encontrará em todo o caso os seus próprios caminhos, e que eles sejam bons, ricos e longos é o que eu lhe desejo mais do que consigo dizer.
Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta (Primeira Carta)
Há um cio vegetal na voz do artista.
Ele vai ter que envesgar seu idioma ao ponto de alcançar o murmúrio das águas nas folhas das árvores.
Não terá mais o condão de refletir sobre as coisas.
Mas terá o condão de sê-las.
Não terá mais idéias: terá chuvas, tardes, ventos, passarinhos…
Nos restos de comida onde as moscas governam ele achará solidão.
Será arrancado de dentro dele pelas palavras a torquês.
Sairá entorpecido de haver-se.
Sairá entorpecido e escuro.
Ver sambixuga entorpecida gorda pregada na barriga do cavalo –
Vai o menino e fura de canivete a sambixuga:
Escorre sangue escuro do cavalo.
Palavra de um artista tem que escorrer substantivo escuro dele.
Tem que chegar enferma de suas dores, de seus limites, de suas derrotas.
Ele terá que envesgar seu idioma ao ponto de enxergar no olho de uma garça os perfumes do sol.
Manoel de Barros, Retrato do Artista Quando Coisa
Ours is the will of midnight shadows...
Enter usurper to the phantom throne! Alas!
Behold how broke 'n' lone you have become,
So far, so dead, so cold, the bottomless hole
Of the earth, the throat of life. Swallowed in,
A deep ray of light lurks mad amidst the dark,
As tribes of vitreous 'n' ghastly eyes lead you
Into the shadows' trance. So then you dance,
Mute and wanderer, the week is over, no way
You are sober... 'Tis Friday the 13th, a night
So cool, so old. To remember the dawn of the
Earth and tomorrow the throne will be yours!
Ars is the veil of mist-like shadows...
Dance!
The Hangar 80's Movement, "Anthem"
Leonardo da Vinci,
Vitruvian Man,
c. 1487
Ao Klatuu e ao Erewhon, a crença
«A figura mais admirável é aquela que, pelas suas acções, melhor expressa a paixão que a anima.»
Leonardo da Vinci
THE VIPERUVIAN CAN
Encher o bandulho e defecar – eis a minha aliança com a vida, raison d'être de sentar o cu na retrete e obrar qualquer coisita, às vezes poesia... Poemas à insuficiência do espírito e à escassez de carne, odes à fealdade do corpo humano. Mens sana in corpore sano, my fucking ass! Eis a síntese do meu síndrome tumular. Morrer intensa e lentamente, escatologicamente; sobreviver como um parasita apátrida, dedicado apenas à grande casa fúnebre, ao mundo imundo, eterno vagabundo – violentamente insignificante nos seus atropelos sorumbáticos. Tudo é perdição: a náusea do tempo, o imperfeito e gemebundo universo... Abandonai toda a esperança, pois, se escrever quereis o paraíso invertido. Acometido de cogitações sombrias, também o poema nasce tonitruante – um acto selvático contínuo da putrefacção rarefeita e tensa, o belo e o sublime, (fatídico mas promissor,) o perpetuum continuum da merda e do sonho. Súmula do fingimento, agrada-me a metafísica simples da contemplação das fezes; saber-me doente, saber que da obsessão pela tristeza e da comédia compulsiva são feitos os verdadeiros filhos da Vida. Ah, quão sinistra é a chamada da Natureza. Sei, enfim, tudo é matéria de Poesia. Sim, deifiquei-me pérfido e vicioso na renascença de um verso desmedido, deixei-me de comedições trágico-românticas; generosamente cago alguma beleza literária, deixo qualquer coisa entupida de vitalidade, very anal, três magnifique, o uno indivisível: nada se perde, tudo se transtorna. Criatura essencialmente desprovida de espiritualidade, não se encontram em mim os mais leves vestígios de harmonia e proporção – ardi nos indícios de qualquer coisa; fui um suicida exemplar. Corrompido, habitei uma crença na profanação de preces e desejos, habituei-me à fantasmagoria das sensações, teorizei a premonição das cores, a pintura do negro deserto que é a minha alma. Comovido, adaptei o sofrimento à vã ternura de uma paisagem de poente; e lamento imenso toda a representação sofrível, a cegueira da manhã que assoma à janela e a escuridão vislumbra, a expressão acromática, o rosto taciturno, etc., etc. Eternal twilight rains upon my soul... Here I live again. Here I something. Leave us a Reign for the Broken, My Crimson Queen! A outra face do signo monocromático, o significante sem significado. A Escuridão. A devoção a tudo o que me assiste morrer. Saber que «isto» não é somente aquilo que nunca poderia ser, que a beleza existe e que o tempo tudo se permitirá destruir. Que o veneno cura, implacável. O texto da memória, purpúreo e ruminante, torna a casa e estrangula o apertado músculo da alma, a divindade lida e decorada, o nascimento sem morte, o poema essencial, o regressar ao jogo do sempre errar, nódoas de nómadas a riscar o monopólio perdido, o tribalismo original, a sinonímia antorísmica, o on and on and on... Hail to The Whatever People, Neanderthals of the mind, for centuries graced with death... May you enter The Great Alone – all for one, the way they fall. Já na infância me sentia outroramente envelhecido; cria na transmigração das almas, que todo um manancial de recordações se apossava de mim, justificando assim a minha solidão precoce. E a noite era espessa, e eu tinha muita pressa de saber quão graciosa me invadia. Não, não me arrependo de ter desenvolvido o laço, solenemente reconheço. Cresci, mais em espaço que em reconhecimento; estranhei-me; sentia como se alimentasse a alma uma corrente eléctrica – entre ti e eu, tive-me. Sei que nunca soube escolher, qui-lo todo e tudo levou-me a 21 gramas fundamentais. Desgostoso, entretive-me. Hoje, não há poema que possa reivindicar de todo; chamei belo ao que nunca compreendi. Abusei de Ti, minha musa. Vivo desamussado. Mea culpa ou má sorte? Acho que sim, talvez dormir. Também o Sol se há-de voltar a erguer. Lights out, vipers in... I know You can.
Transladado d'Os Funerários.
I. PSICOTRAMA
Pour ye black souls of nay... Que o vómito universal flui ad infinitum magnânimo, ininterrupto, permiti, anjos d'esgoto, que vos interrompa e contribua, também eu, orgulhoso e gotista, para a vossa respiração graciosa e suja cumprir, no circo litúrgico da humanidade, a comunhão do negro Amor petrificado. Basta de bosta fiada! Suguei todo o sofrimento que pude e soube, em choldra alheia, entrever os perigos e as ameaças que semelhantes representavam. Saciei todos os meus desejos; imaginei-me mil deuses, classicamente sorrindo, brincando às sumérias olímpicas; per caritat, caramba, que eu hospedei a diversidade mais maligna e infiel que se possa conceber! Vagueei sempre in cognito; cedo preferi a sombra às gritantes e plásticas luzes dos ecrãs humanos, yet random’s never enough, is it? So in hunger, sehnsuchtado de todo e qualquer consolo, fiz-me à Palavra – ruí.
Quero, assim, na vossa conspiração conspurcada de pureza tomar parte, o imenso pó da eternidade reunir, incinerar o sedentário segredo do silêncio. That the sorrowful one lives on – and I will stress Her verse. Perdi-me de mim; renunciava a minha obscuridade aos paúis mais cristalinos, claro falava às águas escuras, estudava-lhes as vozes, a sua solidão entardecida, a sua linguagem encardida. Abandonei a demanda de mim, evadi-me algures pelo caminho; aborrecia-me o tédio, a vida light: a minha alma travessa não se coaduna com a rígida travessia da vida.
Hoje, definho; porfio a infância partida e o cordão perdido, o paraíso umbilical à distância de um nó; contrariando a criança que aprende a esticar o nylon dos sons e a pendurar no estendal das sílabas as suas palavras dilectas, coso os meus vocábulos desanimado, grão a grão, linho a linho, adivinho-me definhado, enfim. Escravo do Tempo, não amo, escavo ainda qualquer coisa intangível, uma preciosidade quiçá, a pérola da felicidade. Ela diz que eu ardo qualquer luzinha... que no fogo enfarto, bruxuleante. Ai, minha amiga, se tudo é belo e impreciso, improviso: deixa-me entrar dentro de ti, esconder-me de ti, deles, de mim. Avestruz? Truz! Truz! Can I come in? Manda-me, meu amor, que cante docemente o meu, o nosso tormento... Chega-te a mim, minha tão certa enfermeira das doenças que ando escondendo... Porque eu tive um sonho, meu bom velho ressentimento. Eu tive um sonho – e sem rancores, entretive-me a despedaçá-lo... for some fucking clarity, aye! Nas margens do erro da Liberdade, sangrei a minha palavra ansiosa. Porque eu fui Aquele que ousou mergulhar no silêncio alto do Vesúvio.
Virgo de Los, psyche, 2009
«O dia mais infeliz da minha vida foi quando ela, vendo-me chorar copiosamente, disse assim: 'Não chores, meu filho, tens toda uma vida à tua frente.'»
II. PSICOTRAMPA (Umbra et Cancro)
Nasci em 18 de Setembro de 1980, contavam-me três horas e trinta minutos da manhã. Foi um parto normal, anormal apenas porque moroso, duas horas de esforços hercúleos para ver se me arrancavam do útero original. Fodido. Note-se, ao menos, a determinação com que quis não partir, indeciso, para outra, prenunciando já as desilusões e os fracassos que aí vinham. A noite fez-me destro, a madrasta. Sei-o pois, assim que vim ao mundo, fiz questão de me masturbar, ainda agarrado ao nylon umbilical. O obstetra que fez o obséquio de me retirar da Nave tinha os modos de uma besta, o bruto. Tratou o leito que me embalava com o mesmo decoro com que devia tratar o cu da sua desprezável concubina. Foi assim que, recebida a ordem de despejo, indignado e ainda aquoso, a minha primeira atitude foi a de ejacular a meita simbólica para cima do magrefe. Toma lá disto, seu filho de um cristo! Ri-me desalmadamente. Depois chorei; choro sempre, principalmente quando recordo o momento em que uma imbecil criatura me violentou pela primeira vez. Tinha apenas um mês de morte. A hipocrática lição, essa, não mais a esqueci: aversão à humana condição. Era um juramento selado na escuridão, em segredo, evidente, que eu era ingénuo, não estúpido. Sabia que isto da vida mais não seria senão um predatório esquema ardiloso.
Passei, pois, a infância a problematizar o riso. Diletava-me com os filmes dos Marx, do Charlie Chaplin, elaborava listas de aforismos com muitas das apreensões desse genial boneco desanimado que é o Homer Simpson, lia as aventuras do Mark Twain (lembro-me de me sonhar um Huckleberry Finn...), depois o Cesariny, o Henrique-Leiria, depois o Faulkner e o Michaux, enfim, cedo compreendi que a palavra escrita seria o meio para, também eu, me tornar um comediante. Faltava-me apenas possuir aquilo que melhor os caracterizava: os vícios, as mulheres, a sabedoria e um imenso amor à vida e à arte. Procurei adquirir tudo isso, excepto a sabedoria, que não se procura – procura-nos. Conclusão: tive uma infância excessivamente feliz, poema esse que, porque sublime, me não permito macular.
A estúpida adolescência dediquei-a às leituras e aos desapontamentos; à inventariação de palavras, também, sobretudo as proparoxítonas (vide energúmeno, acéfalo, etc.), que me deixavam os tímpanos em pantanas. Deu no que deu, o meu humor «gallowso». Comecei assim a escrita d’Os Funerários. O projecto era simples: num texto denso, prolixo e tendencialmente compacto (quer isto dizer que o recurso ao parágrafo seria raro), tentar descer o mais humanamente possível à comiseração ridícula, ao melodrama, ao patético. Em suma, recuperar o método dos grandes mestres: Ésquilo, Sófocles, Anaximandro e Eurípides, entre outros, que agora não me ocorrem. A estes adicionem-se duas outras influências inegáveis: por um lado, O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa (de onde provém a minha naturalidade) e proto-heterónimo de Fernando Pessoa – o melhor dos melhores livros escritos em Língua Portuguesa (a par de alguns do Eça, do Raul Brandão, e do Fialho de Almeida, que descobri recentemente); por outro lado, já mais tardiamente – e decisivo para voltar a escrever estes textos, depois de vários anos de hiato –, o meu contacto com Os Cantos de Maldoror, de Isidore Ducasse, um ilustre desconhecido.
De resto, chegado à idade adulta, pouco há a dizer. Vivo, sobrevivo, redivivo, convivo, revivo, sou amado, sou obsessivo-compulsivo, sou alcoólico (de momento, sob penitência), uso entorpecedores vários: anfetaminas, benzodiazepinas, antidepressores e antipsicóticos; gosto de literatura, de música e de fotografias velhas, e tenho uma vida simples e pouco interessante. O que, aliás, me agrada, já que tenho muito que escrever.
Deixo-te um poema, composto há pouco, um bocado em cima da almofada, bem sei, mas enfim. No caso, em Inglês, pois ultimamente ando muito ansioso, e só escrevo textos na minha língua materna quando na «plena» posse das minhas faculdades encefálicas. Rock on!
DREAM SORROW (WITH YOU ALL)
There is a gloomy scent of sorrow
In the eyes of the Morning Son, –
A morbid sense of beauty, the Call...
And I am at the end of the cemetery.
The world is a grey, dark hollow... Swallow
The days, the killing sun, follow not in fear.
You ought to be playing a funeral song, –
And I am waiting for you at the cemetery.
There is a time to dream, o sorrow,
And there is a great light at the end
Of the world's never ending hollow.
And I am waiting for the night to come
At the gates of a glittering cemetery, –
Dreaming of life, I am with you all.
Transladado d'Os Funerários.
Fotografia gentilmente cedida por Eye of Horus
Aos mestres Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
ALMA ROTA DE AÇUCENA
Olha que alma mais rota
Mais cheia de traça
É ela sibila na sombra da praça
Seu rosto aquilino
Caminho do mal
Psique de espectro, farrapo
Trapo de açucena
O seu mau-olhado é mais que um enfisema
É a alma mais baça que eu já vi praçar
Ah, dá-me um pouco de vinho
Sim, talvez antes um whisky
Que penso, logo desisto
E a beleza é uma quimera, um quisto
Dilata toda a merda que existe
Ah, se ela soubesse
Que quando ela praça
Coimbra inteirinha se enche de traça
Há lá coisa pública sem seu bolor
JULIGHT (AFTER DARK)
«Is there a living soul out there?»
Slowly they rot. Rapidly. I know
You lie to me. For Julight I see.
A subtle, sudden corpse sweats
In dismay; and some flowers too,
Fall in a dried, dully web of decay.
The Fall... O how I yearn for thee.
«There is no living soul out there.»
I know you lie to me when you say
The day is done, the heat is gone,
Night will soon be here. Lovely be.
Six hours of darkness! Hardly can
We call that a night. I smell its scent,
The sweating corpses, their putrid
Flesh. Softly we rot. True, you see?
It is Julight. Indeed, quite a cemetery.
Vincent van Gogh,
Old Man in Sorrow
(On the Threshold of Eternity),
1890
LITANIA
Amo-te, imperfeita e original,
Com tuas canduras douradas,
Com tuas auroras cruzadas
Fantasiando mandrágoras
Num crepúsculo de magnólias.
Princípio e fim, a espera dual.
Amo-te, no alvor dos dias
E na ressurreição das noites;
Nas manhãs frias de Verão
E nas ardentes noites de Inverno.
Meu sopro de trigo hiemal...
Meu girassol de luas...
Dona das minhas dunas desertas.
Vem, epifania de eternidade!
Vem, sofredora sem idade!
Nos teus românticos afãs matinais,
Na vacuidade dos teus véus vespertinos,
Vem e leva-me, inelutável Mãe!
Por entre a bruma brilhante, o nada
E o distante. Quero-te, Vida. Amor-te.
Wolf, blueargh, 2006
Para a Sandra, que tem uma alma azul.
(YOU BLUE US ALL) THE WAY
Tonight we are lonely
By the sea, divided only
By an argh length away:
Deepest tides of thee.
May storm still ye calm
Our troubled dreams;
Come make us drown
Thy schismatic streams.
For there is a void –
And that is the light;
For there is a dark –
And that we call home.
Yet some feel so nude
(The bluest lonely few),
Their desperate dreams –
Come make them drown.
For all this could have been
As blank as a notions' spleen...
(We are but a vomit written in blue)
For all could this have been
As silent as an ocean's scream...
(They are but a written vomit of blue)
Aye, tonight we are lovely
By the sea, the blue loners,
Asking each other: "How come are we
So far from the deepest tides of thee?"
"An Ocean Song" was mistaken from The Serpent Songs. Love it or Hate it!
Full Moon Madness
We are as one and congregate
Full Moon Madness
We rise again to procreate
Moonspell, "Full Moon Madness"
The poet's eye, in a fine frenzy rolling,
Doth glance from heaven to earth, from earth to heaven;
And as imagination bodies forth
The forms of things unknown, the poet's pen
Turns them to shapes, and gives to airy nothing
A local habitation and a name.
William Shakespeare, A Midsummer Night's Dream (V, I, 12-17)
Wolf, the ever-seeing eye, 2006
Para o Fernando, Ricardo, Pedro e Mike, aka MOONSPELL
LUNARIS
É ferida já carcomida a nossa orfandade, lunares, se rendemos o tempo à cicatrização da eternidade.
É a cálida lama dos dias, a esquálida alma das noites. É a nossa cama sobre as lâminas do mundo. A terra prometida, para todo o sempre jamais abandonada. Porque a perenidade da beleza é dos mistérios mais horrorosos que a desilusão humana pode entrever, selámos o nosso destino, visionários, ao contemplar o olho lunar com a nossa solidão alta e terrena, esclarecida. Somos a diversidade na unidade. O multiforme poema noctâmbulo.
Compreendemos, então, os intervalos da magia, quando o espírito reclamava a sanidade dos instrumentos e nós, nómadas e loucos, ensaiávamos cânticos ao desconsolo da lira. A Lua geme nas alturas, matriarca sofredora, e no seu presídio de escuridão antevemos enfim a nossa fealdade. Ficamos assim, cadáveres boquiabertos, cobertos de salva e mirra, olhando a treva num torpor de espelhos que reflectem os nossos corpos embalsamados de remorso. Ante o vácuo da existência, a poesia afigura-se-nos, pois, a única salvação, a possibilidade de erguer uma casa celestial, um lar crepuscular, um que albergue, disforme e uno, o caos que sempre soímos perscrutar. Esperemos, sim, que se nos abra a Porta, a Palavra que nos importa na vida: a distância. A certeza de que existe o Encontro. E a Lua, lá no alto, alada e sombria, reminiscência da Vida que há-de ser vivida, tudo vê, o céu e a terra, o falcão e o cisne, o verme e o vírus, o divino e o humano. Ela é a guia de Gaia. E por Ela, e só por Ela, nós morreríamos, imortais.
Virgo de Los, manus vitae, 2008
Ao Camané e à Aquilária, com profunda admiração
Sweet Aurora Suite
É como um sopro sem ar
O órgão entorpecido
Na pauta pulmonar
Das minhas notas diárias
No caderno de música sempre
O desapontamento sujo
A Voz!
O fracasso lamento
Se te não sei cantar
(Um verso branco:
A escuridão.)
Que nascemos cegos
E falecemos febris
Mas no berço abismo
Cava a manhã tudo jaz
Iluminar
Aurora suite coroada
Na partitura coronária
De um caderno diário
Escrito no teu poema eterno
Eis alado o meu inferno
Se por ser d’Ar
O sopro...
Arde!
Fotografia de Virgo de Los
Janela
Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.
Adélia Prado
Bonjour Cyprès
Vive a sombra no meu coração
Um cipreste, a solidão gretada
E agreste. Todas as manhãs,
Cedinho, escuto o seu gemido
No grande festim verminal. Há
Parasitas de muito feitio: ele é
Os minúsculos, insignificantes;
Ele há mastodontes, tratantes.
É lama, é pus, é mijo e sémen,
É jarro de vinho, cerveja ao sol.
Vivo a cipreste no meu coração,
Gretada, agreste a solidão. Do
Mundo protegido, ali guardado.
Emma Florence Harrison,
The Ghost’s Petition,
circa 1910
O AMANTE DE EMILY DICKINSON
O meu primeiro poema, o jamais funéreo, lego-te
Em paz, eterna sonâmbula, e feneço ao despertar.
Nele, em ruínas, a solidão que soube uivar a Vida
Sempre alta, majestosa e bela: «Leva-me, Deusa!»
Ledas enfermeridades entregues, sei reconhecer,
Nas roídas mãos, quase familiares, desconhecida,
Alba 'inda a tua memória. Vinde breve, doce Mãe,
Sêde misericordiosa neste inexorável julgamento.
I sing your soul, you seal my coffin...