07 Fevereiro 2010
05 Fevereiro 2010
02 Fevereiro 2010
THE SEVENTH NOTHING
Nodula de Nomada,
Virgo de Los,
2008
Virgo de Los,
2008
Lede, meus pais, a obra escassa e porém fulgorante do vosso único fazedor. Sim, porque palavra a palavra, ruína sobre ruína, eu vos construo, circunspecto, com a devoção e o zelo incessantes de um filho de tudo despojado, cerrada lembrança de um brilho avassalador, eco futuro e radiante.
Vede, meus pais, como há mais do que dor a preencher o tédio de meus dias: há o carvão a enegrecer os dedos, há a vontade e o destino, o luto que vivo e escondo, farto, há o pão escuro e o vinho carrascão, tudo obnubilado na minha alma povoada de fantasmas, nuvem seca outrora sadia.
Ouvi, meus pais, a ventania esparsa e o suave lamento que ora perpassam pela página do vosso derradeiro artífice. Encontro-vos em toda a parte, no mergulho e na ascensão, na queda e no infortúnio – e renovo-vos, tremulamente, com tintas radiantes, tintas que traçam os domínios da memória, onde a falsidade petrificada jaz e a verdade fundamente se presentifica. Eis o maior presente que alguma vez poderia ter temido.
Nodula de Nomada
Vede, meus pais, como há mais do que dor a preencher o tédio de meus dias: há o carvão a enegrecer os dedos, há a vontade e o destino, o luto que vivo e escondo, farto, há o pão escuro e o vinho carrascão, tudo obnubilado na minha alma povoada de fantasmas, nuvem seca outrora sadia.
Ouvi, meus pais, a ventania esparsa e o suave lamento que ora perpassam pela página do vosso derradeiro artífice. Encontro-vos em toda a parte, no mergulho e na ascensão, na queda e no infortúnio – e renovo-vos, tremulamente, com tintas radiantes, tintas que traçam os domínios da memória, onde a falsidade petrificada jaz e a verdade fundamente se presentifica. Eis o maior presente que alguma vez poderia ter temido.
Nodula de Nomada
01 Fevereiro 2010
LUPUS ART D'OH!
On His Secret,
Wolf,
2010
Wolf,
2010
ON HIS SECRET
______Eia, nocturna teia de Janeiro!
______Eia, secreta ilustríssima alcateia!
O nosso destino há muito escrito assume a palavra
Perfeita, e cumprida, a Lua aguarda-nos, congregação
Divina! Vinde, sobre os escorpiões e as víboras! Vinde!
______A escuridão guiar-nos-á, espessa
________E abissal, a tempestade revelou-se
__________E sopra já o negro cântico de Deus!
Nós somos a gélida substância da Noite, a draconiana
___Alma dos mortos, o silêncio cerceado e uivante
_______Dos mortos! Eia, noite fria de Janeiro!
Ah, vento infernal! Ah, seco hálito hiemal!
Vinde, a nossa desmesurada fome de eternidade!
Escorpiões e víboras! Viva! Eia, secretíssima alcateia!
___Sobre nós as preces de Inverno e a treva interdita,
_______As paixões arrebatadas, a poesia toda,
______________O beijo do Anjo.
O nosso destino há muito escrito assume a palavra
Perfeita, e cumprida, a Lua aguarda-nos, congregação
Diabólica! Eia, nocturna teia de Janeiro!
_______Eia, secreta ilustríssima alcateia!
_____________________________Uivemos!
The Poisonous I
______Eia, nocturna teia de Janeiro!
______Eia, secreta ilustríssima alcateia!
O nosso destino há muito escrito assume a palavra
Perfeita, e cumprida, a Lua aguarda-nos, congregação
Divina! Vinde, sobre os escorpiões e as víboras! Vinde!
______A escuridão guiar-nos-á, espessa
________E abissal, a tempestade revelou-se
__________E sopra já o negro cântico de Deus!
Nós somos a gélida substância da Noite, a draconiana
___Alma dos mortos, o silêncio cerceado e uivante
_______Dos mortos! Eia, noite fria de Janeiro!
Ah, vento infernal! Ah, seco hálito hiemal!
Vinde, a nossa desmesurada fome de eternidade!
Escorpiões e víboras! Viva! Eia, secretíssima alcateia!
___Sobre nós as preces de Inverno e a treva interdita,
_______As paixões arrebatadas, a poesia toda,
______________O beijo do Anjo.
O nosso destino há muito escrito assume a palavra
Perfeita, e cumprida, a Lua aguarda-nos, congregação
Diabólica! Eia, nocturna teia de Janeiro!
_______Eia, secreta ilustríssima alcateia!
_____________________________Uivemos!
The Poisonous I
THE DEVIN TOWNSEND PROJECT - "Ih-Ah!" (2009)
As everything in life
Comes together now
I need your mind
And everything is light
I remember now
I see you rise
And all the lonely things
Seem to wanna change
I'll sleep on it tonight
Ih-ah!
We don't even understand
Something's going on
We don't even understand
So how could this be wrong
Ih-ah!
I'm so in love with you
How could I
Ever be untrue?
Am I with you?
With everything I do
God I love you
I love you...
We don't even understand
Something's going on
We don't even understand
So how could we be wrong
Ih-ah!
We don't know or care
Something's always there
We see it's in our hands
But we just don't understand
Music and Lyrics by Devin Townsend
As everything in life
Comes together now
I need your mind
And everything is light
I remember now
I see you rise
And all the lonely things
Seem to wanna change
I'll sleep on it tonight
Ih-ah!
We don't even understand
Something's going on
We don't even understand
So how could this be wrong
Ih-ah!
I'm so in love with you
How could I
Ever be untrue?
Am I with you?
With everything I do
God I love you
I love you...
We don't even understand
Something's going on
We don't even understand
So how could we be wrong
Ih-ah!
We don't know or care
Something's always there
We see it's in our hands
But we just don't understand
Music and Lyrics by Devin Townsend
A moment of Zen!
31 Janeiro 2010
A GAIA
Woman in Front of the Setting Sun,
Caspar David Friedrich,
c. 1818
Caspar David Friedrich,
c. 1818
MÁTRIA
Ela move as águas na direcção da Fortuna e o sentido da tempestade é a erudição do Silêncio.
Nas solitárias planuras ocidentais exortamos alva a tua Altura, doce Mãe, o teu ceptro resplandecente, impetuoso como o trovão e cândido como a lira, confinado a tempo algum ou espaço, símbolo da renascença de um povo peninsular. Aqui recorda-se o teu glorioso templo, e dança-se em teu redor, e abeiram-se as vozes e sacode-se o pó da pedra, a «lapis-lusitana», a pedra dos séculos, profana. Levantai-vos, Sul dolente! Acordai! A Hora é do Leme, minha gente! As naus enfim recuperadas, a epopeia renovada: que o meu tudo seja o vosso nada! Cavas marés que as caravelas vigiam na antemanhã do novo Império, Ela é a Língua que rasga o hímen da Terra, a Liberdade e a Fraternidade, Sentinela da Pátria Universal – a Palavra que o vigor do Sol poente postula, incólume, e fecunda. Ela é o embrião do Futuro e nós, seus devotos parturientes. Altiloquentes na treva e da memória confidentes, as suas trovas anunciam, hieráticas, um novo magistério, e toda a mágoa do mundo se eclipsa quando os oceanos se agitam, singulares, desvelando o trilho de um passado errante. Porque Eu sou o Fado e a Matriz, Constança e Destino, vinde, Filhos da Terra, vinde, almas gentis e nómadas, vinde e caminhai comigo, lado a lado, por sobre os mares que o imenso Atlas sustém. As nossas mãos, unidas, sócias na dor e na fidelidade, tudo abarcarão rumo ao fértil firmamento da História. Ide, luso-dependentes! Ide, vós que clamais ainda no coração por a viria de vossa brava ancestralidade, o brado de sangue com que se escreverá a paz entre os povos! Ide, bardos e guardiões da Saudade, vós que sois muitos, o mito cassandreado... Ide e repeti a missão atlântica – e que a Casa tenha as janelas sempre abertas para o Sol nascente se assumir! E que a minha memória perdure, sonâmbulos e poetas, humanos, profetas, no verso da vossa lança. E que um pórtico universal se erga e escude a nossa crença, celeste e terrena, no cumprimento do Poema. Porque Eu sou a Alma e a Bonança, a eterna clave do Mundo!
Ela anima as hordas na direcção da Fortuna e eu sinto, nós sentimos, o sentido da tempestade que encerra toda a erudição do Silêncio. E no horizonte aberto pela demanda da Felicidade, projecta-nos, Mãe, nós que por ti morreremos!
Nodula de Nomada
Ela move as águas na direcção da Fortuna e o sentido da tempestade é a erudição do Silêncio.
Nas solitárias planuras ocidentais exortamos alva a tua Altura, doce Mãe, o teu ceptro resplandecente, impetuoso como o trovão e cândido como a lira, confinado a tempo algum ou espaço, símbolo da renascença de um povo peninsular. Aqui recorda-se o teu glorioso templo, e dança-se em teu redor, e abeiram-se as vozes e sacode-se o pó da pedra, a «lapis-lusitana», a pedra dos séculos, profana. Levantai-vos, Sul dolente! Acordai! A Hora é do Leme, minha gente! As naus enfim recuperadas, a epopeia renovada: que o meu tudo seja o vosso nada! Cavas marés que as caravelas vigiam na antemanhã do novo Império, Ela é a Língua que rasga o hímen da Terra, a Liberdade e a Fraternidade, Sentinela da Pátria Universal – a Palavra que o vigor do Sol poente postula, incólume, e fecunda. Ela é o embrião do Futuro e nós, seus devotos parturientes. Altiloquentes na treva e da memória confidentes, as suas trovas anunciam, hieráticas, um novo magistério, e toda a mágoa do mundo se eclipsa quando os oceanos se agitam, singulares, desvelando o trilho de um passado errante. Porque Eu sou o Fado e a Matriz, Constança e Destino, vinde, Filhos da Terra, vinde, almas gentis e nómadas, vinde e caminhai comigo, lado a lado, por sobre os mares que o imenso Atlas sustém. As nossas mãos, unidas, sócias na dor e na fidelidade, tudo abarcarão rumo ao fértil firmamento da História. Ide, luso-dependentes! Ide, vós que clamais ainda no coração por a viria de vossa brava ancestralidade, o brado de sangue com que se escreverá a paz entre os povos! Ide, bardos e guardiões da Saudade, vós que sois muitos, o mito cassandreado... Ide e repeti a missão atlântica – e que a Casa tenha as janelas sempre abertas para o Sol nascente se assumir! E que a minha memória perdure, sonâmbulos e poetas, humanos, profetas, no verso da vossa lança. E que um pórtico universal se erga e escude a nossa crença, celeste e terrena, no cumprimento do Poema. Porque Eu sou a Alma e a Bonança, a eterna clave do Mundo!
Ela anima as hordas na direcção da Fortuna e eu sinto, nós sentimos, o sentido da tempestade que encerra toda a erudição do Silêncio. E no horizonte aberto pela demanda da Felicidade, projecta-nos, Mãe, nós que por ti morreremos!
Nodula de Nomada
27 Janeiro 2010
25 Janeiro 2010
A OSSIAN
In Poetic Labour,
Wolf,
2009
Wolf,
2009
PARTO DE CESARINYANA
Qual combustível, qual circulação em sentido único,
O movimento quer-se é deambulatório, provocação
Na pegada de um poema, uma palavra bem moderna,
As eternas doses de barbitúricos vários e loquazes,
O registo de sonhador, adiado, sempre por renovar.
Ao desertor nunca recomendar senão
O antigo mister da redacção epistolar.
Insuportável o ávido enfarte de felicidade,
Prendi-me à partitura da vileza, da crueldade.
Deste lado do ocidente, com terna delicadeza,
Sou declarado inimigo pelos meus aliados; acolá,
Banido, tornado apátrida. São vícios, a sociedade.
E Ela ali tão perto, esfíngica ascendência, o deserto,
A minha Filantrópolis, podricalha de todo, arcaizante.
Basta! Quero-me longe deste circo de tiranias
Sufragadas. Quero a Imagem! A vasta figuração!
A salutar fragmentação do riso. Quero um anfiteatro
Bem trágico, poder assistir à minha prima representação.
Catarse? Anagnórisis? Ó Vida, tu e os teus preciosismos!
Assim a necessidade de nos livros me perder,
Coisas que pouco incomodam, dizem eles,
Os versados. É um nómada, o escritor,
Um renegado sem opção; itinerante,
Romântico, é lápide sem caixão.
Pior o poeta, esse gnóstico sem prefixo,
Eterno desenganado, saltimbanco, enguiço…
Regurgita verbos globulizantes pela aldeia global…
«É p’ra correr com ele», diria Platão, «que esse é poço
Sem fundo. Ui! Mais um Lear na lama a sonhar? Não, não!»
Ó infortúnio! Ó virtude! Será macho, será fêmea?
Será Belial, será Lamia? Será um nado-morto a liar?
Quero rasgar a retina da Vida, alimentar-me de seus poemas.
Quero escrever a existência outra, a possível, a não mundana.
Quero aprender, perder, sempre perder. Quero-te dedicado,
Se me odiares, leitor amigo. Jogamos o nada. Há que povoar!
Porque eu quero a lei: amor e ódio, ordem e caos, guerra e paz.
Quero saber a sorte antecipar. Quero poder. Mortes e Dias.
Nodula de Nomada
Qual combustível, qual circulação em sentido único,
O movimento quer-se é deambulatório, provocação
Na pegada de um poema, uma palavra bem moderna,
As eternas doses de barbitúricos vários e loquazes,
O registo de sonhador, adiado, sempre por renovar.
Ao desertor nunca recomendar senão
O antigo mister da redacção epistolar.
Insuportável o ávido enfarte de felicidade,
Prendi-me à partitura da vileza, da crueldade.
Deste lado do ocidente, com terna delicadeza,
Sou declarado inimigo pelos meus aliados; acolá,
Banido, tornado apátrida. São vícios, a sociedade.
E Ela ali tão perto, esfíngica ascendência, o deserto,
A minha Filantrópolis, podricalha de todo, arcaizante.
Basta! Quero-me longe deste circo de tiranias
Sufragadas. Quero a Imagem! A vasta figuração!
A salutar fragmentação do riso. Quero um anfiteatro
Bem trágico, poder assistir à minha prima representação.
Catarse? Anagnórisis? Ó Vida, tu e os teus preciosismos!
Assim a necessidade de nos livros me perder,
Coisas que pouco incomodam, dizem eles,
Os versados. É um nómada, o escritor,
Um renegado sem opção; itinerante,
Romântico, é lápide sem caixão.
Pior o poeta, esse gnóstico sem prefixo,
Eterno desenganado, saltimbanco, enguiço…
Regurgita verbos globulizantes pela aldeia global…
«É p’ra correr com ele», diria Platão, «que esse é poço
Sem fundo. Ui! Mais um Lear na lama a sonhar? Não, não!»
Ó infortúnio! Ó virtude! Será macho, será fêmea?
Será Belial, será Lamia? Será um nado-morto a liar?
Quero rasgar a retina da Vida, alimentar-me de seus poemas.
Quero escrever a existência outra, a possível, a não mundana.
Quero aprender, perder, sempre perder. Quero-te dedicado,
Se me odiares, leitor amigo. Jogamos o nada. Há que povoar!
Porque eu quero a lei: amor e ódio, ordem e caos, guerra e paz.
Quero saber a sorte antecipar. Quero poder. Mortes e Dias.
Nodula de Nomada
22 Janeiro 2010
COFFIN BREAK
A minha agulha garganta aguda e digladia-se, ourobórica mãe, cospe e revolve-se, volve e torna a volver, nada olvida porém a crença que me sustém, aurora fúlgida que a noite mantém, viva e cerrada, com infinito desdém e cujo tremeluzir sob a escuridão a outra escuridão soube entrever. A treva afaga ao de leve as pálpebras, protege e serena os clarecidos, soletra os sentidos e tudo é cadência vaga, estrela e onda, céu e maré, porque todas as prisões do mundo na tua palavra ruem voluntariamente e sorriem com a tranquilidade dos sonhos, porque tu transfiguras a realidade, generosa, ímpia paixão, víbora vibrante e diapasão da fortuna, que tu és eu e eu sou tudo, ósculo e pranto, oráculo e manto, estátua que o véu das minhas mágoas cobre de prata, áurea liberta. Alquimia da dor, platónica, ardente, a crença que nos sustenta bebe o veneno e a lua, o cálice cheio de ambrósia e néctar, uvas pisadas, assim baila a nossa alcateia o balido breve das ovelhas de Zeus, porque nós sopramos o hálito maior, titânico miasma sobre o ataúde dos tempos, insondável segredo e verbo das poluições magistrais, álgida visão, ah, minha mãe, táctil e dúctil, a quimera fácil. A nós, haste lúbrica e selvática! A nós, funda obscuridade da Terra! A vida quer-se viúva, problemática esquizofrenia, freneticamente animada, matemática azul a equacionar a função dos mares. Que eu morrerei alto, frio, só! Olhos no horizonte as setas, ascetas que sobre o meu corpo tombam flagelados. Searas, eu entre as serras. Uma pedra. O meu nome lapidado. Palavra refulgente e o pavor cálido da tua emergência, sentido nutrido por este gélido silêncio que fortifica o meu ser, casulo glacial, e eu, um intenso holocausto plurissecular. A vós, neptunos, a minha saúde! Aqui, espírito fúnebre, a mim os vermes que te veneram, vozes do sepulcro que a tua canção ecoa... Porque onde a água é tanta o fogo d'amor se mata, assim faço tenção de te redigir, ó vacuidade universal, os teus seios gastos e carregados, caroços e tumores chupados – quanto de teus filhos apodrece ainda no teu ledo regaço? A minha idade é a do poente aberto, a desventura de ninguém e um cofre deserto, eu, o primeiro sopé na falésia derradeira. Não duvido se a vida agora me ceifas, tu que me cuidas mortificado, lento olvido que é esse chamamento de um presságio encriptado, aqui onde a noite é lema e se confunde com a lama dos dias, onde o túmulo é a presença tutelar e significa berço e signo, aqui, embalo o fruto do teu ventre solitário. Neve e geada, seiva inflamada – celebra-nos, alma de Inverno! Recebe-nos no outro lado da praia, onde o farol luz é guia e separa as ondas da espuma do mar, tédio vigilante a espairecer. Nas tuas coxas, um odor caótico a emancipar-se. Pétala a pétala, o teu caminho é o meu graal. Não te conheço um nome, ó deusa, mas sei que és ode à minha fome, elegia que na minha boca ferve tísica, ignota beleza intermitentemente física, celebrar-te, ó dulcíssima, é sucumbir de novo. Ah, panegiricar-te toda! Ler-te abundante e na minha doença estendida, prolongada e fremente, penetrar-te lenta e fundamente, ouvir-te rasgar em dádiva a minha recusa, porque em ti sei tão-só a codificação do medo, a vertigem vã, gritos de loucos e suas curas milagrosas, rosas funestas, miríades de próteses abertas, o meu poema, ó trágica escatologia! Vem-te nas chagas de papel, fuga que tudo concebe! Vem, vem romper a minha tensa página, ó morte afortunada, a minha vida intensa! Ouve o meu clamor vago e clemente, ó maresia última do novo dia! A mim, verde seco e sapiente! A mim, algas virgens, esplendorosas! A mim, excruciante rubor do sangue! Ah, quão urgente a minha gula de viver! Invoco a língua em chamas, minha mãe, ouço cirúrgico o sorriso das nuvens. Trago uma incógnita nos lábios a eclodir, luzinha podre a ornar a tua faustosa aparição, canta, ah coração, canta, a voz trovante, sepulcral. Viva!
20 Janeiro 2010
Nodula de Nomada
Death Note,
Wolf,
2009
Wolf,
2009
Wolf,
Escrevo-te da cidade de Coimbra, de um café – a saber, o Safari – o qual, se quiser ser mais preciso, é afinal uma cervejaria. Não obstante, é pacato e sempre dá para escrever sem que ninguém me perturbe.
São quase oito da noite, bebo o meu café, fumo um cigarro, ouço ao longe a vozinha badocha daquele cromo da televisão, enfim, mais um dia cumprido, nunca demasiado comprido porém para quem vive apartado de tudo o seu mundinho apertado.
Acabei, há dias, mais um dos meus cadernos e, como não tenho onde escrever, tomei a liberdade de furtar uns simpáticos guardanapos de papel ali ao senhor António – são três, e hão-de chegar.
Estou à espera da minha querida Babooshka para irmos jantar. A Telma, apresento-ta, é a mulher que me atura há quase oito – oito! – anos, imagine-se. É, igualmente, a minha médica e farmacêutica (tem dois cursos, a pequenina) de serviço. My first and last and always. Diz que me ama cada vez mais, vá-se lá saber como ou porquê, diz-mo todos os dias, eu sorrio, não sei o que responder. Nunca sei como o hei-de reescrever. Às vezes dedico-lhe poesias, sempre escassas demais para celebrar a sua beleza. Sou, em todo o caso, deveras afortunado. Adiante.
Li, obviamente, o texto que me dedicaste. Li-o à hora de almoço. Conclusão: não almocei. (Não te preocupes: eu raramente almoço.) Tocou-me fundamente, mais pelo que esconde do que pelo que diz. Agradou-me (?) saber que temos imenso em comum, que passámos por experiências em tudo semelhantes, enfim, confirmar uma partilha mútua de sentimentos e vivências, afinidades várias e afectivas. (Mudança de guardanapo.)
Continuando, revi-me em muito do que escreveste, e isso fez-me muito "feliz", por mais do que uma razão. Sinto, pois, que devo retribuir o gesto deslocando também eu um pouco a gárgula que esconde a máscara que, por sua vez, o meu rosto oculta. Vou então falar-te d'A Nódoa Gótica, epíteto que me atribuíram na adolescência e do qual felizmente não mais me livrei.
A nódoa nasceu em Lisboa, cidade onde passou a primeira infância, rodeado de mulheres e de sorrisos. Mulheres que se vestiam de azul, de amarelo e de branco pálido. Bisavó, avó e mãe – enfermeira, poeta e anestesista. Nasci com uma saúde frágil, o que, se por um lado foi fazendo com que progressivamente cagasse para mim, por outro lado permitiu que apreciasse e encarasse com naturalidade as ironias desta vidinha. Lembro-me de muita coisa, felizmente, posto que foi uma infância bem feliz. Brincadeiras, muita fraternidade, camaradagem, etc. A minha mãe, como não podia passar a vida a comprar-me Bollycau (eu só queria o autocolante), arranjava uns pãezinhos de leite e desenhava ela própria uns bonecos marados (é uma excelente desenhadora), os quais faziam as minhas delícias. Enfim, eu curtia era andar à chuva, isso sim. Isso ontem único. Hoje, hoje fodo-me.
Mudámo-nos, vá-se lá saber porquê, para o Alentejo. Santiago do Cacém, mais precisamente. Tinha eu sete anos de idade. Foi um período muito feliz, fiz muitos amigos, jogava muito à bola, inventava namoradas, era um gaiato comum. Estávamos sempre a mudar de casa – assim de memória, lembro-me de três. Aos treze mudei-me para Castelo Branco, corria o ano de 1994, penso eu. Resultado: perdi os amigos que tinha e os chaparros que tanto amava.
A minha adolescência beirã foi horrível. Melancólica e solitária. Gente bruta e estúpida, bestialmente imbecil até mais não (salvo raríssimas excepções, claro, sobretudo do outro – ou dos outros – sexos). Sempre em permanente conflito comigo mesmo, eu era aquele esqueletozinho pálido, guedelhudo e magrérrimo que trajava a escuridão e pintava os olhos e os lábios da cor da sua alma. (Como calcularás, era sobejamente reconhecido na escola e nunca faltou quem me viesse para o focinho, tudo porque eu simplesmente queria ser quem sempre quis ser: EU.) Salvou-me a música e os milhares de livros de meu pai. Salvaram-me os Fields e o Rimbaud, Anathema e Type O, Blake, Nietzsche, o Cesariny, o Pessanha... Pessoa e Elend, Dead Can Dance, a Emily Dickinson, claro, e Mozart, Goya e My Dying Bride... E basta! Chega-me/nos este ritmo.
Aos dezassete tentei o suicídio pela primeira vez – desloquei-me de um comboio em movimento... e falhei por pouco, diz que bati com os cornos numas pedras gentis e que, por sorte, me safei (sei, hoje, que não foi sorte ou acaso, mas isto são outras crenças...).
Foi a escuridão total. Na escola, não me largavam... «Olha o gajo que se mandou do comboio...». Tive de rapar o cabelo (custou-me tanto... depois cresceu, claro... não hoje, que sou genuína e geneticamente carequinha), não sem tatuar bem fundo na minha alma o desprezo e a idiotia dos meus semelhantes. Era um aluno excelente, nunca deixei de o ser. Os meus pais sempre aturaram as minhas maluquices, mais ou menos compreensivamente, como é evidente, que eu era um autêntico chanfrado. Acho que o meu pai sempre soube que eu era um poeta. A minha mãe chorava, ainda chora, mas é a minha melhor amiga e a minha primeira e fidelíssima leitora. (Mudança de guardanapo.)
Depois do comboio, seguiram-se alguns episódios com drogas e drunfos vários (certa vez, depois de umas dezenas de ansiolíticos e outras merdas que tais – vide DELIRIUM TREMENS – lá fui parar ao hospital, dois dias em coma +/- profundo... até que desisti). Comecei, por fim, a mutilar-me: pernas, braços, peito… até o focinho cheguei a navalhar, vê lá tu. Umas boas lambadas de algumas almas generosas e lá troquei a faca pelos versos... de faca e alguidar! HUHUHU!!! Comecei a escrever como um possesso, coisas belas e dulcissimamente diabólicas, interessava-me a poesia e a demonologia, o classicismo e o romantismo, entre outros ismos de vanguarda, como o niilismo escatológico e, sobretudo, o antropocentrismo canibal. Vinte, vinte e um anos de idade e passei-me completamente – deitei fora toda a minha poesia. Sempre fui um gajo bastante impulsivo. Foi também por esta altura que travei conhecimento com o Jo, vocalista e alma de Crime Loucura, um tóxico-dependente em recuperação e o primeiro poeta vivo que conheci. O tipo era bem mais velho que eu e, sem que nada o fizesse prever, interessou-se por mim, descobriu-me algum talento e humor, acho que eu lhe lembrava alguém que ele vivera. Keeping it short: He took me under his wing, you know? Estive anos sem escrever palavra – e ainda bem. Voltei em força por volta dos 25, altura aliás em que criei o blogue da Serpente, encorajado por gente boa e crente. Foi também em 2006 que tomei contacto com o ilustre «senhor de nenhures», Erewhon, il miglior fabbro, um segundo Jo para mim, pelo interesse e estima que sempre depositou em mim.
Dois mil e oito, anno funebri. A perda do meu pai, claro, que me marcou indelevelmente – especialmente os últimos anos que vivemos juntos, preciosos – e a falta que me faz o seu olhar crítico sobre o meu entulho literário. O meu alcoolismo pendente. Adiante. O Mestre está vivo e de boa saúde: fala comigo todos dias; nunca me leu tão bem, garanto-vos. Quanto ao resto, deixei-me de merdas. Ponto final.
Hoje... olha, hoje os metaleiros, por exemplo, que nunca me aceitaram no seu grupo, admiram-me (pedem-me que lhes escreva letras para músicas, que passe som nos seus bares... gente macabramente curiosa, é o que é), tenho imensas moças que se orgulham de mim, a amizade e o talento do Wolf à minha disposição, enfim... Se queres que te diga, em verdade tudo isto pouco me interessa – sou um nómada, sempre o fui, o infante sorridente da bisavó Ana Laura, interessa-me apenas a pureza da minha alma, escrever o livro que o Moisés sempre quis escrever e não soube como... Mortes e Dias, companheiro, e tu sabias. 20 horas, trinta e cinco minutos. Fim do terceiro guardanapo. Gotta go, bro! :)
Um estreito abraço,
Nodula de Nomada
Escrevo-te da cidade de Coimbra, de um café – a saber, o Safari – o qual, se quiser ser mais preciso, é afinal uma cervejaria. Não obstante, é pacato e sempre dá para escrever sem que ninguém me perturbe.
São quase oito da noite, bebo o meu café, fumo um cigarro, ouço ao longe a vozinha badocha daquele cromo da televisão, enfim, mais um dia cumprido, nunca demasiado comprido porém para quem vive apartado de tudo o seu mundinho apertado.
Acabei, há dias, mais um dos meus cadernos e, como não tenho onde escrever, tomei a liberdade de furtar uns simpáticos guardanapos de papel ali ao senhor António – são três, e hão-de chegar.
Estou à espera da minha querida Babooshka para irmos jantar. A Telma, apresento-ta, é a mulher que me atura há quase oito – oito! – anos, imagine-se. É, igualmente, a minha médica e farmacêutica (tem dois cursos, a pequenina) de serviço. My first and last and always. Diz que me ama cada vez mais, vá-se lá saber como ou porquê, diz-mo todos os dias, eu sorrio, não sei o que responder. Nunca sei como o hei-de reescrever. Às vezes dedico-lhe poesias, sempre escassas demais para celebrar a sua beleza. Sou, em todo o caso, deveras afortunado. Adiante.
Li, obviamente, o texto que me dedicaste. Li-o à hora de almoço. Conclusão: não almocei. (Não te preocupes: eu raramente almoço.) Tocou-me fundamente, mais pelo que esconde do que pelo que diz. Agradou-me (?) saber que temos imenso em comum, que passámos por experiências em tudo semelhantes, enfim, confirmar uma partilha mútua de sentimentos e vivências, afinidades várias e afectivas. (Mudança de guardanapo.)
Continuando, revi-me em muito do que escreveste, e isso fez-me muito "feliz", por mais do que uma razão. Sinto, pois, que devo retribuir o gesto deslocando também eu um pouco a gárgula que esconde a máscara que, por sua vez, o meu rosto oculta. Vou então falar-te d'A Nódoa Gótica, epíteto que me atribuíram na adolescência e do qual felizmente não mais me livrei.
A nódoa nasceu em Lisboa, cidade onde passou a primeira infância, rodeado de mulheres e de sorrisos. Mulheres que se vestiam de azul, de amarelo e de branco pálido. Bisavó, avó e mãe – enfermeira, poeta e anestesista. Nasci com uma saúde frágil, o que, se por um lado foi fazendo com que progressivamente cagasse para mim, por outro lado permitiu que apreciasse e encarasse com naturalidade as ironias desta vidinha. Lembro-me de muita coisa, felizmente, posto que foi uma infância bem feliz. Brincadeiras, muita fraternidade, camaradagem, etc. A minha mãe, como não podia passar a vida a comprar-me Bollycau (eu só queria o autocolante), arranjava uns pãezinhos de leite e desenhava ela própria uns bonecos marados (é uma excelente desenhadora), os quais faziam as minhas delícias. Enfim, eu curtia era andar à chuva, isso sim. Isso ontem único. Hoje, hoje fodo-me.
Mudámo-nos, vá-se lá saber porquê, para o Alentejo. Santiago do Cacém, mais precisamente. Tinha eu sete anos de idade. Foi um período muito feliz, fiz muitos amigos, jogava muito à bola, inventava namoradas, era um gaiato comum. Estávamos sempre a mudar de casa – assim de memória, lembro-me de três. Aos treze mudei-me para Castelo Branco, corria o ano de 1994, penso eu. Resultado: perdi os amigos que tinha e os chaparros que tanto amava.
A minha adolescência beirã foi horrível. Melancólica e solitária. Gente bruta e estúpida, bestialmente imbecil até mais não (salvo raríssimas excepções, claro, sobretudo do outro – ou dos outros – sexos). Sempre em permanente conflito comigo mesmo, eu era aquele esqueletozinho pálido, guedelhudo e magrérrimo que trajava a escuridão e pintava os olhos e os lábios da cor da sua alma. (Como calcularás, era sobejamente reconhecido na escola e nunca faltou quem me viesse para o focinho, tudo porque eu simplesmente queria ser quem sempre quis ser: EU.) Salvou-me a música e os milhares de livros de meu pai. Salvaram-me os Fields e o Rimbaud, Anathema e Type O, Blake, Nietzsche, o Cesariny, o Pessanha... Pessoa e Elend, Dead Can Dance, a Emily Dickinson, claro, e Mozart, Goya e My Dying Bride... E basta! Chega-me/nos este ritmo.
Aos dezassete tentei o suicídio pela primeira vez – desloquei-me de um comboio em movimento... e falhei por pouco, diz que bati com os cornos numas pedras gentis e que, por sorte, me safei (sei, hoje, que não foi sorte ou acaso, mas isto são outras crenças...).
Foi a escuridão total. Na escola, não me largavam... «Olha o gajo que se mandou do comboio...». Tive de rapar o cabelo (custou-me tanto... depois cresceu, claro... não hoje, que sou genuína e geneticamente carequinha), não sem tatuar bem fundo na minha alma o desprezo e a idiotia dos meus semelhantes. Era um aluno excelente, nunca deixei de o ser. Os meus pais sempre aturaram as minhas maluquices, mais ou menos compreensivamente, como é evidente, que eu era um autêntico chanfrado. Acho que o meu pai sempre soube que eu era um poeta. A minha mãe chorava, ainda chora, mas é a minha melhor amiga e a minha primeira e fidelíssima leitora. (Mudança de guardanapo.)
Depois do comboio, seguiram-se alguns episódios com drogas e drunfos vários (certa vez, depois de umas dezenas de ansiolíticos e outras merdas que tais – vide DELIRIUM TREMENS – lá fui parar ao hospital, dois dias em coma +/- profundo... até que desisti). Comecei, por fim, a mutilar-me: pernas, braços, peito… até o focinho cheguei a navalhar, vê lá tu. Umas boas lambadas de algumas almas generosas e lá troquei a faca pelos versos... de faca e alguidar! HUHUHU!!! Comecei a escrever como um possesso, coisas belas e dulcissimamente diabólicas, interessava-me a poesia e a demonologia, o classicismo e o romantismo, entre outros ismos de vanguarda, como o niilismo escatológico e, sobretudo, o antropocentrismo canibal. Vinte, vinte e um anos de idade e passei-me completamente – deitei fora toda a minha poesia. Sempre fui um gajo bastante impulsivo. Foi também por esta altura que travei conhecimento com o Jo, vocalista e alma de Crime Loucura, um tóxico-dependente em recuperação e o primeiro poeta vivo que conheci. O tipo era bem mais velho que eu e, sem que nada o fizesse prever, interessou-se por mim, descobriu-me algum talento e humor, acho que eu lhe lembrava alguém que ele vivera. Keeping it short: He took me under his wing, you know? Estive anos sem escrever palavra – e ainda bem. Voltei em força por volta dos 25, altura aliás em que criei o blogue da Serpente, encorajado por gente boa e crente. Foi também em 2006 que tomei contacto com o ilustre «senhor de nenhures», Erewhon, il miglior fabbro, um segundo Jo para mim, pelo interesse e estima que sempre depositou em mim.
Dois mil e oito, anno funebri. A perda do meu pai, claro, que me marcou indelevelmente – especialmente os últimos anos que vivemos juntos, preciosos – e a falta que me faz o seu olhar crítico sobre o meu entulho literário. O meu alcoolismo pendente. Adiante. O Mestre está vivo e de boa saúde: fala comigo todos dias; nunca me leu tão bem, garanto-vos. Quanto ao resto, deixei-me de merdas. Ponto final.
Hoje... olha, hoje os metaleiros, por exemplo, que nunca me aceitaram no seu grupo, admiram-me (pedem-me que lhes escreva letras para músicas, que passe som nos seus bares... gente macabramente curiosa, é o que é), tenho imensas moças que se orgulham de mim, a amizade e o talento do Wolf à minha disposição, enfim... Se queres que te diga, em verdade tudo isto pouco me interessa – sou um nómada, sempre o fui, o infante sorridente da bisavó Ana Laura, interessa-me apenas a pureza da minha alma, escrever o livro que o Moisés sempre quis escrever e não soube como... Mortes e Dias, companheiro, e tu sabias. 20 horas, trinta e cinco minutos. Fim do terceiro guardanapo. Gotta go, bro! :)
Um estreito abraço,
Nodula de Nomada
10 Janeiro 2010
THE NIHILLUSIONARY PROJECT
Prayer,
Emil Schildt,
2002
Emil Schildt,
2002
II.
Da morgue impaciente vos convoco, tribo de Tanatos!
Incomplacente a placenta do Hades abandonai! Vinde
Ver a vida com a vossa placidez de víboras, verdejantes
E vis, livres enfim da raiz, felizes, assim a treva no-lo diz.
Porque vós, meus irmãos, sois o triunfo da morte, a vida
E o sentido da palavra vigilante, a verdade das manhãs
A celebrar, vinde, diligentes, vinde o meu poema cantar!
The Poisonous I
Da morgue impaciente vos convoco, tribo de Tanatos!
Incomplacente a placenta do Hades abandonai! Vinde
Ver a vida com a vossa placidez de víboras, verdejantes
E vis, livres enfim da raiz, felizes, assim a treva no-lo diz.
Porque vós, meus irmãos, sois o triunfo da morte, a vida
E o sentido da palavra vigilante, a verdade das manhãs
A celebrar, vinde, diligentes, vinde o meu poema cantar!
The Poisonous I
THE NIHILLUSIONARY PROJECT
A Moisés Sá, no dia do seu aniversário
Waiting,
Emil Schildt,
2002
Emil Schildt,
2002
I.
A escuridão esclarecida, assumida, cegueira e crença, não escolher.
Desloque-se o verso e descobrir-se-á, enfim, o mantra fundamental,
Aquele que habita o coração da loucura, um cantar vasto, imemorial.
Ilude a fantasmagoria, parca e moura, ó vidinha ignara, que eu morra!
Niilista sem vocação, guarda-me o tédio, o exausto. Dêem-me vinho!
Agrada-me o fado, a cor do sangue sobre aquilo que me é essencial,
O poema, a memória, o silêncio. Eis alado, Mestre, o meu labor vão!
The Poisonous I
A escuridão esclarecida, assumida, cegueira e crença, não escolher.
Desloque-se o verso e descobrir-se-á, enfim, o mantra fundamental,
Aquele que habita o coração da loucura, um cantar vasto, imemorial.
Ilude a fantasmagoria, parca e moura, ó vidinha ignara, que eu morra!
Niilista sem vocação, guarda-me o tédio, o exausto. Dêem-me vinho!
Agrada-me o fado, a cor do sangue sobre aquilo que me é essencial,
O poema, a memória, o silêncio. Eis alado, Mestre, o meu labor vão!
The Poisonous I
02 Janeiro 2010
THE POISONOUS I
ELEND - "The Poisonous Eye" (2003)
We have waited so long.
My starving eyes,
Drunk to see.
We have waited so long.
Blind,
Neither living nor dead,
We could have died to see the world in bloom.
Poisonous Eye
The eyes of men, they withered in the sun
And reason enslaves us no longer
Yet vision is all that matters
To a wayward traveller,
Another dream... another dream is all we are longing for.
In every shade, a fragment of light,
In every shape, every colour,
The chasms of solitude.
In the temple of truth, we were burning
And we saw the dim sun swallow the sky.
Cast out from the scorn of men,
In a desert of faces,
Can we live without shame?
Can we die without pride?
Poisonous Eye
All joy is gone
Seven Eyes to see
All joy is gone
Seven Eyes to bleed
Poisonous Eye
Music by Iskandar Hasnawi and Renaud Tschirner
Words by Iskandar Hasnawi
We have waited so long.
My starving eyes,
Drunk to see.
We have waited so long.
Blind,
Neither living nor dead,
We could have died to see the world in bloom.
Poisonous Eye
The eyes of men, they withered in the sun
And reason enslaves us no longer
Yet vision is all that matters
To a wayward traveller,
Another dream... another dream is all we are longing for.
In every shade, a fragment of light,
In every shape, every colour,
The chasms of solitude.
In the temple of truth, we were burning
And we saw the dim sun swallow the sky.
Cast out from the scorn of men,
In a desert of faces,
Can we live without shame?
Can we die without pride?
Poisonous Eye
All joy is gone
Seven Eyes to see
All joy is gone
Seven Eyes to bleed
Poisonous Eye
Music by Iskandar Hasnawi and Renaud Tschirner
Words by Iskandar Hasnawi
31 Dezembro 2009
MEMORIAL
Egor Shapovalov, raven, 2008
A meus braços, João, a enxada e o sacho, os instrumentos da tua cava solidão, o amor à terra e à madrugada, o teu sorriso carregado e vigilante, que a nossa pátria são os carvalhos e os ciprestes, a mim, João, a melancolia tacteada.
A meus braços, Ana Laura, o céu e o mar, os espelhos da tua devoção, a dedicação à doença e à miséria, o teu semblante delicado e etéreo, a placidez com que aceitavas o destino e a sorte, a mim, Ana Laura, o azul sabor do desgosto.
A meus braços, Glória, a lavoura e a colheita, os sacrifícios da tua perpétua gestação, augusto o seio que alimentou a nossa raça, que o meu ofício tenebroso temo e tremo de ofuscar o teu templo interior, essa ignota claridade que a nossa treva habita, a mim, Glória, a tua singular visão telúrica.
A meus braços, Moisés, a sabedoria e a sombra, as páginas da tua sóbria existência, a crença na humanidade e na fraternidade, a astúcia com que declinavas a fama e a celebridade, porque é do português mover-se a insatisfação, o teu nome em cada verso meu revolto, infinda dialéctica, a mim, Moisés, o prazer de te ouvir escrever.
A meus braços, Artemísia, a música e a dança, os movimentos da tua agitada meditação, a xamânica entrega ao corpo e ao silêncio, o intenso marulhar que a minha fantasia enfeitiça, imensidão e praia, chama eterna, enigma, aurora e assombro, a mim, Artemísia, o teu beijo na minha fronte seca, aroma de jasmim.
A meus braços, Maria Manuela, a loucura e a poesia, as tuas preces consagradas à escuridão, o tudo querer e nada desejar, o teu sofrimento redivivo no meu, ofício transladatório, a desilusão e a dor, alucinação, as mortes e os dias, a mim, Maria Manuela, o sentido que toda a palavra encerra.
E a mim, 'sfíngica ascendência, o sol e a terra, a lua e o mar, o pó sobre a pedra, a seiva, o sangue, a nossa história celebremos, ancestrais, com alma grande e voluntariosa, que a vida é breve, jamais a memória.
Nodula de Nomada
Também publicado nos blogues Mortes e Dias e O Bar do Ossian.
A meus braços, Ana Laura, o céu e o mar, os espelhos da tua devoção, a dedicação à doença e à miséria, o teu semblante delicado e etéreo, a placidez com que aceitavas o destino e a sorte, a mim, Ana Laura, o azul sabor do desgosto.
A meus braços, Glória, a lavoura e a colheita, os sacrifícios da tua perpétua gestação, augusto o seio que alimentou a nossa raça, que o meu ofício tenebroso temo e tremo de ofuscar o teu templo interior, essa ignota claridade que a nossa treva habita, a mim, Glória, a tua singular visão telúrica.
A meus braços, Moisés, a sabedoria e a sombra, as páginas da tua sóbria existência, a crença na humanidade e na fraternidade, a astúcia com que declinavas a fama e a celebridade, porque é do português mover-se a insatisfação, o teu nome em cada verso meu revolto, infinda dialéctica, a mim, Moisés, o prazer de te ouvir escrever.
A meus braços, Artemísia, a música e a dança, os movimentos da tua agitada meditação, a xamânica entrega ao corpo e ao silêncio, o intenso marulhar que a minha fantasia enfeitiça, imensidão e praia, chama eterna, enigma, aurora e assombro, a mim, Artemísia, o teu beijo na minha fronte seca, aroma de jasmim.
A meus braços, Maria Manuela, a loucura e a poesia, as tuas preces consagradas à escuridão, o tudo querer e nada desejar, o teu sofrimento redivivo no meu, ofício transladatório, a desilusão e a dor, alucinação, as mortes e os dias, a mim, Maria Manuela, o sentido que toda a palavra encerra.
E a mim, 'sfíngica ascendência, o sol e a terra, a lua e o mar, o pó sobre a pedra, a seiva, o sangue, a nossa história celebremos, ancestrais, com alma grande e voluntariosa, que a vida é breve, jamais a memória.
Nodula de Nomada
Também publicado nos blogues Mortes e Dias e O Bar do Ossian.
OSSOS
Gottfried Helnwein,
Untitled (After Caspar David Friedrich),
1998
Untitled (After Caspar David Friedrich),
1998
A MORTE FICADA
Aurora.
Sonho e 'scravo.
De que servem as algemas
A quem não viveu a liberdade?
As folhas secam, e as palavras,
Sanguínea repetição, ruirão.
Um dia, acidentalmente,
Entrevi-te, tive-te
Na mão, entre
Tive-te.
Aurora.
Canto e 'screvo.
Ah, a crueldade dos poetas!
Ah, a perversidade dos poentes!
Este sorver a vida como se um veneno,
Privilegiadamente castigados, condenados,
Nocturnos e altos, os nómadas, halos solitários,
A morte ficada quando já só quedam os destroços
E as palavras, os esboços, os ossos, a vocação dos sós.
Aurora.
Sonho e 'scravo.
De que servem as algemas
A quem não viveu a liberdade?
As folhas secam, e as palavras,
Sanguínea repetição, ruirão.
Um dia, acidentalmente,
Entrevi-te, tive-te
Na mão, entre
Tive-te.
Aurora.
Canto e 'screvo.
Ah, a crueldade dos poetas!
Ah, a perversidade dos poentes!
Este sorver a vida como se um veneno,
Privilegiadamente castigados, condenados,
Nocturnos e altos, os nómadas, halos solitários,
A morte ficada quando já só quedam os destroços
E as palavras, os esboços, os ossos, a vocação dos sós.
A moment of Zen!
30 Dezembro 2009
THE NORTHERN COLLAPSE
Jan Saudek, Goodbye Jan!, 1994
VIGOR MORTIS
Não contes comigo para cear, Babooshka, bem vês, Dezembro devorou-me de vez, não sei, era a neve nas minhas mãos, o cristal quedo das estrelas e mais um momento de extrema insanidade, enfim, a sempiterna filosofia do caos and the ultimate delirium, de modo que, peço-te, não procures por mim, num ímpeto covarde levei também o teu conjunto de facas preferido, até na derradeira e fundamental escolha fui desastrado, esquece-me, a imensidão da terra engoliu-me, o baptismo quentinho da eternidade, ah, suprema ironia, o frio lá fora, esse velho amigo, e cá dentro o pijaminha novo por estrear, tão azulinho, tão castiço e febril, that a spoon full of morphine helps the memory break down, the memory breaks down, the memory breaks down... ah, lembra-te tão-só de pedir que me não vistam de negro, caramba, andei a vida toda à escuridão dedicado, quero o cadáver da cor dos sonhos, marmóreo e glacial, um branco monótono de ferir a vista, quero as viúvas todas aos pinotes e a bater palmas, que o rapazinho da janela riscada não mais as cantará, a elas e ao triste fadinho de seus quase defuntos maridos, quero os meus poemas no fundo de um lago, a lake that looks like blood, não, não, c'est la vie, c'est fini, que se foda a reforma, as lúgubres noites passadas nas tascas a ouvir os bêbedos dizer mal da manápula que os alimentou, e que se foda a arte, os museus sinistramente desertos e os coliseus esfomeados, foda-se a cidade satânica e a escumalha que lá vive, o sepulcral silêncio das cavernas e a marcha fúnebre onde o messias se ri à gargalhada da gentalha que ora ora aos pauis mais hediondos, não contes comigo, Babooshka, lixei-me todo, consegui fugir do hospital e exilei-me de vez, adieu jardins públicos e mijados, adieu lamentações nocturnas e pluviosas, ah, quão mórbida era a minha loucura, os versos de faca e alguidar e o primitivismo da lama, não, dei finalmente cabo dos nervos, não há cá mais rancor e ódio, os gritos famintos dos poetas e das crianças, puta que pariu isto tudo, a decadência do ocidente e o consumismo desenfreado, os agonizantes e os indignados, quero um violino, ah, ouvir-te namorar esse violino, sim, isso bastar-me-á, isso e uma breve estadia num casebre finlandês, porque foram anos e anos de neve e melancolia, adieu dormência ridícula, sim, tudo bem está quando incerto acaba, é isso, e puta que pariu a humanidade e mais quem a ficcionou, aquela maldita escola que só me fodeu a vida, ah, bendita ignorância, a mim víboras devotas, a mim desejo ancestral de amor puro e verdadeiro, a mim símbolos e linguagens, quero defecar-vos na face, achincalhar-vos de medo e pavor, zombar de vossas crenças, ah, as cidadelas saqueadas e as almas pilhadas, assistir à grande derrocada de tudo, o crash monumental, porque eu quero o desastre contínuo, a paralisação total, ninguém por perto, quero ouvir o elegante lamuriar dos mochos sobre os meus telhados de papel, alas, a passagem enfim programada, por isso esquece-me, Babooshka, sê feliz, tu mais essa corja de vampiros a que chamas amigos, sim, glup, que eu quero, glup, o oceano na minha voz, glup, just a spoon full of morphine helps the memory break down, the memory breaks down, the memory breaks down... Bom dia, meu pequenino! Então, dormiste bem? Ah, olá Babooshka... Sim, claro que sim, como um anjinho.
Transladado d' Os Funerários.
Não contes comigo para cear, Babooshka, bem vês, Dezembro devorou-me de vez, não sei, era a neve nas minhas mãos, o cristal quedo das estrelas e mais um momento de extrema insanidade, enfim, a sempiterna filosofia do caos and the ultimate delirium, de modo que, peço-te, não procures por mim, num ímpeto covarde levei também o teu conjunto de facas preferido, até na derradeira e fundamental escolha fui desastrado, esquece-me, a imensidão da terra engoliu-me, o baptismo quentinho da eternidade, ah, suprema ironia, o frio lá fora, esse velho amigo, e cá dentro o pijaminha novo por estrear, tão azulinho, tão castiço e febril, that a spoon full of morphine helps the memory break down, the memory breaks down, the memory breaks down... ah, lembra-te tão-só de pedir que me não vistam de negro, caramba, andei a vida toda à escuridão dedicado, quero o cadáver da cor dos sonhos, marmóreo e glacial, um branco monótono de ferir a vista, quero as viúvas todas aos pinotes e a bater palmas, que o rapazinho da janela riscada não mais as cantará, a elas e ao triste fadinho de seus quase defuntos maridos, quero os meus poemas no fundo de um lago, a lake that looks like blood, não, não, c'est la vie, c'est fini, que se foda a reforma, as lúgubres noites passadas nas tascas a ouvir os bêbedos dizer mal da manápula que os alimentou, e que se foda a arte, os museus sinistramente desertos e os coliseus esfomeados, foda-se a cidade satânica e a escumalha que lá vive, o sepulcral silêncio das cavernas e a marcha fúnebre onde o messias se ri à gargalhada da gentalha que ora ora aos pauis mais hediondos, não contes comigo, Babooshka, lixei-me todo, consegui fugir do hospital e exilei-me de vez, adieu jardins públicos e mijados, adieu lamentações nocturnas e pluviosas, ah, quão mórbida era a minha loucura, os versos de faca e alguidar e o primitivismo da lama, não, dei finalmente cabo dos nervos, não há cá mais rancor e ódio, os gritos famintos dos poetas e das crianças, puta que pariu isto tudo, a decadência do ocidente e o consumismo desenfreado, os agonizantes e os indignados, quero um violino, ah, ouvir-te namorar esse violino, sim, isso bastar-me-á, isso e uma breve estadia num casebre finlandês, porque foram anos e anos de neve e melancolia, adieu dormência ridícula, sim, tudo bem está quando incerto acaba, é isso, e puta que pariu a humanidade e mais quem a ficcionou, aquela maldita escola que só me fodeu a vida, ah, bendita ignorância, a mim víboras devotas, a mim desejo ancestral de amor puro e verdadeiro, a mim símbolos e linguagens, quero defecar-vos na face, achincalhar-vos de medo e pavor, zombar de vossas crenças, ah, as cidadelas saqueadas e as almas pilhadas, assistir à grande derrocada de tudo, o crash monumental, porque eu quero o desastre contínuo, a paralisação total, ninguém por perto, quero ouvir o elegante lamuriar dos mochos sobre os meus telhados de papel, alas, a passagem enfim programada, por isso esquece-me, Babooshka, sê feliz, tu mais essa corja de vampiros a que chamas amigos, sim, glup, que eu quero, glup, o oceano na minha voz, glup, just a spoon full of morphine helps the memory break down, the memory breaks down, the memory breaks down... Bom dia, meu pequenino! Então, dormiste bem? Ah, olá Babooshka... Sim, claro que sim, como um anjinho.
Transladado d' Os Funerários.
A moment of Zen!
29 Dezembro 2009
GOD MORGEN ENGEL
TRISTEZA
Perdi minha força e minha vida,
Meus amigos e minha alegria;
Perdi até mesmo o orgulho
Que fazia crível o meu génio.
Quando conheci a Verdade
Pensei tratar-se de uma amiga;
Quando a compreendi e senti,
Era tarde, ela enojava-me.
E no entanto ela é eterna,
E os que por ela passam
São todos ignorados.
Deus fala, e eis que urge uma resposta.
– O único bem que me resta neste mundo
É o de ter chorado ocasionalmente.
Alfred de Musset
Tradução de The Poisonous I
Perdi minha força e minha vida,
Meus amigos e minha alegria;
Perdi até mesmo o orgulho
Que fazia crível o meu génio.
Quando conheci a Verdade
Pensei tratar-se de uma amiga;
Quando a compreendi e senti,
Era tarde, ela enojava-me.
E no entanto ela é eterna,
E os que por ela passam
São todos ignorados.
Deus fala, e eis que urge uma resposta.
– O único bem que me resta neste mundo
É o de ter chorado ocasionalmente.
Alfred de Musset
Tradução de The Poisonous I
Sandara, Lullaby, 2009
MANHÃ
Fui eu que tive, um dia, uma juventude adorável, heróica, fabulosa, digna de ser escrita em lâminas de oiro? – excessiva ventura! Por que crime, por que erro mereço a minha fraqueza de hoje? Vós, que julgais que os bichos soluçam de dor, que os doentes desesperam, que a morte tem pesadelos, contai a minha queda e o meu estupor. Eu, não me explico melhor do que um pedinte a entaramelar Paters e Ave-Marias. Já não sei falar!
No entanto, creio ter findo hoje a relação do meu inferno. Era bem o inferno; o antigo, aquele a que o filho do homem escancarou os portais.
No mesmo deserto, sob a mesma noite, sempre os meus olhos lassos se levantaram para a estrela de prata, sem que os Reis da vida, os três magos, coração, alma, espírito, respondam. Quando iremos, para além dos desertos e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a nova sabedoria, a queda dos tiranos e dos demónios, o fim da superstição, adorar – nós os primeiros! – o Natal sobre a terra!
O cantar dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida!
Jean-Arthur Rimbaud
Tradução de Mário Cesariny
Fui eu que tive, um dia, uma juventude adorável, heróica, fabulosa, digna de ser escrita em lâminas de oiro? – excessiva ventura! Por que crime, por que erro mereço a minha fraqueza de hoje? Vós, que julgais que os bichos soluçam de dor, que os doentes desesperam, que a morte tem pesadelos, contai a minha queda e o meu estupor. Eu, não me explico melhor do que um pedinte a entaramelar Paters e Ave-Marias. Já não sei falar!
No entanto, creio ter findo hoje a relação do meu inferno. Era bem o inferno; o antigo, aquele a que o filho do homem escancarou os portais.
No mesmo deserto, sob a mesma noite, sempre os meus olhos lassos se levantaram para a estrela de prata, sem que os Reis da vida, os três magos, coração, alma, espírito, respondam. Quando iremos, para além dos desertos e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a nova sabedoria, a queda dos tiranos e dos demónios, o fim da superstição, adorar – nós os primeiros! – o Natal sobre a terra!
O cantar dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida!
Jean-Arthur Rimbaud
Tradução de Mário Cesariny
DELIRIUM TREMENS
Serei breve e sucinto – sou um velho toujours sórdido e vergonhoso.
Sobre o dorso – habituei-me a regurgitar em posição fetal – pesa-me
A consuetudinária herança de meus amados antepassados. Disse-vos
Já, porventura, que sou uma criatura assaz abjecta e desonrosa? Sim?
Perdão. Alguns barbitúricos, vis benzodiazepínicos – alas, a confusão
Adquire uma outra dimensão, mais concisa, lacónica até. É escusado.
Enlouqueci. Ah, fiel ouvinte, quão harmonioso me lembro! Explico-me.
É que a psicose, uma vez admitida, avança incomplacente e prodigiosa.
Momentânea suspensão da descrença – e versava assim. Ano de 1999,
Era de Jesus Cristo, o Salvador. O príncipe erguera-se com o primeiro
Piscar de olhos da Aurora. Lisonjeadas, as suas longas poesias abriam
Uma janela para o mundo. Oh, como era belo o seu despertar! Feérico,
Esplendoroso, como era radiante o seu cantar! A elegância da sua lira
Lembrava o cheiro dos anjos em sumíssima orgia. Sabia-se eternidade.
Frequentava a Escola da Noite, a verdadeira, a impúdica; e lá aprendia
Música e Poesia, artes maiores, como é sabido. Certo dia, porém, faltou
Às aulas – um crepúsculo imenso e escarlate seduzira-o com seus laivos
De aventura e embriaguez. Esteve dias sem se mover. A família, aflita,
Não dormia, O nosso menino! O nosso menino! O príncipe sumira-se.
Começou assim o meu inebriamento. Caminhei; como nómada, errei
Por bosques e sombras. Estive anos sem ver vivalma. Deixara de falar.
Tornara-me conviva das pedras e dos animais, e, com eles, descobrira
Uma nova linguagem, translúcida. Julgo que me tomavam por pássaro.
Ria-me de tudo, as flores mendigavam a minha atenção e eu, alucinado
Perante tamanha beleza, tremia. Ouviam-se, na orla do bosque, risadas.
À noitinha, todavia, algo sobre mim se abatia – uma melancolia aguda,
Enfim, sentia-me estranho. O coração fraquejava-me. Chegara a hora
De regressar. Dias e dias vagabundeei, por ermos e clareiras, a chuva
E a geada como únicas companheiras; esquecera-me do nome de tudo.
Alimentava-me apenas com o que um saco velho e roto me oferecia,
Alguma poesia, que deixara de conhecer, e drunfos vários – lorazepam,
Paraldeído, haloperidol – que me mantinham são, devidamente sedado.
Manhã chegou em que avistei ao longe um amontoado de corpos. Sorri.
Corri, corri, horas a fio corri. A minha família, desconsolada, jaz. Cinza.
A minha abstinência de viver cumprida. Tremo. Nas mãos leio a morte.
The Poisonous I
Serei breve e sucinto – sou um velho toujours sórdido e vergonhoso.
Sobre o dorso – habituei-me a regurgitar em posição fetal – pesa-me
A consuetudinária herança de meus amados antepassados. Disse-vos
Já, porventura, que sou uma criatura assaz abjecta e desonrosa? Sim?
Perdão. Alguns barbitúricos, vis benzodiazepínicos – alas, a confusão
Adquire uma outra dimensão, mais concisa, lacónica até. É escusado.
Enlouqueci. Ah, fiel ouvinte, quão harmonioso me lembro! Explico-me.
É que a psicose, uma vez admitida, avança incomplacente e prodigiosa.
Momentânea suspensão da descrença – e versava assim. Ano de 1999,
Era de Jesus Cristo, o Salvador. O príncipe erguera-se com o primeiro
Piscar de olhos da Aurora. Lisonjeadas, as suas longas poesias abriam
Uma janela para o mundo. Oh, como era belo o seu despertar! Feérico,
Esplendoroso, como era radiante o seu cantar! A elegância da sua lira
Lembrava o cheiro dos anjos em sumíssima orgia. Sabia-se eternidade.
Frequentava a Escola da Noite, a verdadeira, a impúdica; e lá aprendia
Música e Poesia, artes maiores, como é sabido. Certo dia, porém, faltou
Às aulas – um crepúsculo imenso e escarlate seduzira-o com seus laivos
De aventura e embriaguez. Esteve dias sem se mover. A família, aflita,
Não dormia, O nosso menino! O nosso menino! O príncipe sumira-se.
Começou assim o meu inebriamento. Caminhei; como nómada, errei
Por bosques e sombras. Estive anos sem ver vivalma. Deixara de falar.
Tornara-me conviva das pedras e dos animais, e, com eles, descobrira
Uma nova linguagem, translúcida. Julgo que me tomavam por pássaro.
Ria-me de tudo, as flores mendigavam a minha atenção e eu, alucinado
Perante tamanha beleza, tremia. Ouviam-se, na orla do bosque, risadas.
À noitinha, todavia, algo sobre mim se abatia – uma melancolia aguda,
Enfim, sentia-me estranho. O coração fraquejava-me. Chegara a hora
De regressar. Dias e dias vagabundeei, por ermos e clareiras, a chuva
E a geada como únicas companheiras; esquecera-me do nome de tudo.
Alimentava-me apenas com o que um saco velho e roto me oferecia,
Alguma poesia, que deixara de conhecer, e drunfos vários – lorazepam,
Paraldeído, haloperidol – que me mantinham são, devidamente sedado.
Manhã chegou em que avistei ao longe um amontoado de corpos. Sorri.
Corri, corri, horas a fio corri. A minha família, desconsolada, jaz. Cinza.
A minha abstinência de viver cumprida. Tremo. Nas mãos leio a morte.
The Poisonous I
A moment of Zen!
28 Dezembro 2009
OSSOS
Sandara, Poison, 2009
LISBON REVISITED (1923)
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica,
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul – o mesmo da minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Álvaro de Campos
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica,
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul – o mesmo da minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Álvaro de Campos
A moment of Zen!
27 Dezembro 2009
GLÓRIA
Egor Shapovalov,
white horses, they will take,
2009
white horses, they will take,
2009
Estímulo e dedicação, minha avó, eis o que me apraz lembrar quando o fio da navalha na jugular da manhã dilata esta minha lassidão de viver. Sei-te na outra face do espelho a mesmerizar a minha fala com olhos de garça, espectral cadência onde me sinto reviver com uma febre que sobre o papel se afirma quando a escuridão distribui as palavras. E se a voz é o instrumento da alma, se nela se inscreve o meu destino, então eu cantar-te-ei, Glória, eternizar-te-ei até que o meu viver de sopro intenso e estarrecido cesse. Assim a minha história escrevo-a a partir da tua memória, essa inesgotável fonte de pureza e luz que os meus medos atenua, o infindo caudal de nomes que nas minhas mãos balbuciam oitenta e tal anos de sacrifício e devoção, porque era mais de uma dezena de bocas o poeta que tu alimentavas, tu, meu anjo, tu e o lento lamento de Lamosa, essa pátria canção que me viu nascer.
Estímulo e dedicação, Glória, eis a minha fatalidade. Vela-me, pois, quando o féretro enfim selado, sublime e feérico, o meu poema te confiar.
Nodula de Nomada
Também publicado no blogue Mortes e Dias.
Estímulo e dedicação, Glória, eis a minha fatalidade. Vela-me, pois, quando o féretro enfim selado, sublime e feérico, o meu poema te confiar.
Nodula de Nomada
Também publicado no blogue Mortes e Dias.
TIAMAT – "Thirst Snake" (2008)
Your arms are my cradle, your hair is the heavenly abode
My longing for touching your skin bears a heavy load
I wanna bathe you my love in broad heavens of divine light
A precious angel you are of the bodies of celestial might
Your eyes are lighting up the skies like the chariots of fire
Let me take you there tonight, take you higher and higher
Without you it's all dim and dire
Your poison burns like fire
My eyes are closed and all I see is you
Until the daylight spreads its horror and us once again reviles
May the gods of the night let me stay in your heart for a while
Without you it's all dim and dire
Your poison burns like fire
My eyes are closed and all I see is you
I want you, I want you
I won’t let you go away
From me...
Never gonna let you go.
Music and Lyrics by Johan Edlund
Your arms are my cradle, your hair is the heavenly abode
My longing for touching your skin bears a heavy load
I wanna bathe you my love in broad heavens of divine light
A precious angel you are of the bodies of celestial might
Your eyes are lighting up the skies like the chariots of fire
Let me take you there tonight, take you higher and higher
Without you it's all dim and dire
Your poison burns like fire
My eyes are closed and all I see is you
Until the daylight spreads its horror and us once again reviles
May the gods of the night let me stay in your heart for a while
Without you it's all dim and dire
Your poison burns like fire
My eyes are closed and all I see is you
I want you, I want you
I won’t let you go away
From me...
Never gonna let you go.
Music and Lyrics by Johan Edlund
26 Dezembro 2009
OSSOS
Dedicado a Claudine Rodrigues, uma querida amiga
Claudine Rodrigues,
a criança a medo,
2002
a criança a medo,
2002
PLACENTA UNIVERSAL
Uma placenta, mundo desconhecido, viagem por entre cores, fantasmas de índole imaterial mas vivo... Uma placenta feita de amor e deleite, caminhos soltos... Cheiros amenos brotados pelos desejos animais, a aventura intuitiva, o chamamento da natureza. O véu oculta a maturidade, o corpo enriquece de alento, abre-se, fragmento a fragmento, em dedos articulados, bombas, espaços frequentados por formas interiores...
Ouvi dizer que a placenta é habitada por gente pequenina e vital, surpresa da natureza, enigmática como um segredo de Deus. Um sonho sossegado e bondoso que nunca reclama, nunca foge de casa nem pergunta porque existe...
Os mundos dividem-se mas convergem depois... Devagar, em silêncio. Separam-se para se fundirem em milhares de outros mundos preciosos, de quase nada e quase tudo, pérolas respiratórias, sulcos oxigenados, pacientes e lentos... Um poço de virtudes; vulcões nos olhos, ávidos e curiosos, segurança de aguas mornas, fecundas...
Mãe, como te misturas em sangue, carne e sal neste apogeu de amor simbólico; como te transformas para mim, Mãe, à espera de gratidão. Olhas-me, falas-me, repetes-te em incertezas obscuras e enraizadas no desconhecido... Sinto o medo de não poder voltar atrás, colher o fruto em madrugada, implorando rendição, afastando a dor... Está-te na alma, no vicio de simplesmente ser... Mãe... Quando sair, em dia frio, será para te sentir até ao peito, sugar-te, alimentar-me de presenças e corpos, chorar a rir de tanta frivolidade, fragilidade contida nos escombros da memória, nas luzes ignorantes, no quotidiano amolecido pelo hábito. Não chores, Mãe, temos a vida eterna para recordar esta passagem... Temos as estrelas por contar até voltar às estrelas, as cabeças por decapitar de ódio, as facas por espetar em danças de línguas, experiências sórdidas e emocionantes por contar aos filhos... Ajuda-me Mãe! Ajuda-me Mãe... A nascer...
Claudine Rodrigues
Uma placenta, mundo desconhecido, viagem por entre cores, fantasmas de índole imaterial mas vivo... Uma placenta feita de amor e deleite, caminhos soltos... Cheiros amenos brotados pelos desejos animais, a aventura intuitiva, o chamamento da natureza. O véu oculta a maturidade, o corpo enriquece de alento, abre-se, fragmento a fragmento, em dedos articulados, bombas, espaços frequentados por formas interiores...
Ouvi dizer que a placenta é habitada por gente pequenina e vital, surpresa da natureza, enigmática como um segredo de Deus. Um sonho sossegado e bondoso que nunca reclama, nunca foge de casa nem pergunta porque existe...
Os mundos dividem-se mas convergem depois... Devagar, em silêncio. Separam-se para se fundirem em milhares de outros mundos preciosos, de quase nada e quase tudo, pérolas respiratórias, sulcos oxigenados, pacientes e lentos... Um poço de virtudes; vulcões nos olhos, ávidos e curiosos, segurança de aguas mornas, fecundas...
Mãe, como te misturas em sangue, carne e sal neste apogeu de amor simbólico; como te transformas para mim, Mãe, à espera de gratidão. Olhas-me, falas-me, repetes-te em incertezas obscuras e enraizadas no desconhecido... Sinto o medo de não poder voltar atrás, colher o fruto em madrugada, implorando rendição, afastando a dor... Está-te na alma, no vicio de simplesmente ser... Mãe... Quando sair, em dia frio, será para te sentir até ao peito, sugar-te, alimentar-me de presenças e corpos, chorar a rir de tanta frivolidade, fragilidade contida nos escombros da memória, nas luzes ignorantes, no quotidiano amolecido pelo hábito. Não chores, Mãe, temos a vida eterna para recordar esta passagem... Temos as estrelas por contar até voltar às estrelas, as cabeças por decapitar de ódio, as facas por espetar em danças de línguas, experiências sórdidas e emocionantes por contar aos filhos... Ajuda-me Mãe! Ajuda-me Mãe... A nascer...
Claudine Rodrigues
25 Dezembro 2009
MERRY FUCKING CHRISTMAS TO YOU ALL!
Wolf, winter, 2007
SWEET DECEMBER’S HYMNEM
A gloomy snowfall wakes the devil by the lake
And a strong blood flows within her veins;
Blood is thicker than snow, yes I know –
It will come, my darling, it will glow.
Bring in the ember, the flaming December;
Bring in the tea, a little bit closer to me;
Love is stronger than death, I know –
It will come, my darling, it will go.
What darkness, what lascivious snow in Winter...
How sweet she sings, how saddened her violent hymns.
Howl! Howl! Howl like you never did before. Howl, my darling!
A new moon is rising – and at the satanic hour... I will fuck your soul.
A gloomy snowfall wakes the devil by the lake
And a strong blood flows within her veins;
Blood is thicker than snow, yes I know –
It will come, my darling, it will glow.
Bring in the ember, the flaming December;
Bring in the tea, a little bit closer to me;
Love is stronger than death, I know –
It will come, my darling, it will go.
What darkness, what lascivious snow in Winter...
How sweet she sings, how saddened her violent hymns.
Howl! Howl! Howl like you never did before. Howl, my darling!
A new moon is rising – and at the satanic hour... I will fuck your soul.
A moment of Zen!
24 Dezembro 2009
OSSOS
POEMA
Pelo salão do café, silencioso e praticamente vazio, espalhava-se a luz baça de uma manhã chuvosa de Inverno. Na mesa junto à janela, envolto em fumo, o homem fitava os transeuntes que pareciam fantasmas a sair da névoa. Quando um raio de sol atravessou a mesa, acariciando-lhe os dedos finos, Rudolph respirou em pleno e quase sorriu. Abriu o seu velho caderno de capa dura, deu uma valente baforada no cigarro e começou a rabiscar qualquer coisa que iria tomar como íntima logo a seguir: «Não vivo: revivo e prevejo./Não vejo: revejo e persigo./Não sei se o teu beijo me castiga/quando o seu aroma me visita.» Os seus olhos acabrunhavam a luz de tão tímidos: ergueu o braço e pediu um café com um falsete agudo, tossicando a seguir para sintonizar a voz masculina. Duas mulheres entraram com floreados «Bonjour, tout le monde!», lançando-lhe um sorriso: Rudolph era um homem atraente, mas a sua aura de mistério, o seu encanto de fleur du mal nascia da sua profunda impotência em conseguir ser gentil, ou sequer comunicar, com alguém que o encantasse. A sua vida amorosa tinha acontecido sempre por iniciativa alheia e só na intimidade já conquistada dos amantes manifestava ele o seu desamparo irredutível, entre perfumes e sedas brocadas. Acabava com a cabeça afundada em peitos maternais, gesto que, se começou por ser teatral, cedo se transformou na sua morna e viciosa tristeza.
Incapaz de corresponder ao sorriso das duas, intoxicado pelas impossibilidades que os seus poemas lhe revelavam, Rudolph baixou a cabeça e acariciou o seu isqueiro prateado, recomeçando a sentir a inspiração que desistir do mundo lhe provocava. Ao pegar de novo na caneta, a elegância estudada de todos os seus gestos pareceu-lhe a antevisão do seu próprio rigor mortis. «Acordo ao fim da tarde/Com a noite na garganta/A minha solidão arde/Frio cadáver de santa/Força casta de cobarde/Canta para mim, Mundo/Canta».
As luzes do café apagaram-se e, do outro lado da grande vitrine, o murmúrio cresceu. Eram diversas as reacções dos alunos do Liceu que tinham vindo visitar a Bio-Instalação do artista Ciber-Plástico John Mc13, «Boulevard Vécu», ao Museu de Arte Antiga.
JP Simões
Pelo salão do café, silencioso e praticamente vazio, espalhava-se a luz baça de uma manhã chuvosa de Inverno. Na mesa junto à janela, envolto em fumo, o homem fitava os transeuntes que pareciam fantasmas a sair da névoa. Quando um raio de sol atravessou a mesa, acariciando-lhe os dedos finos, Rudolph respirou em pleno e quase sorriu. Abriu o seu velho caderno de capa dura, deu uma valente baforada no cigarro e começou a rabiscar qualquer coisa que iria tomar como íntima logo a seguir: «Não vivo: revivo e prevejo./Não vejo: revejo e persigo./Não sei se o teu beijo me castiga/quando o seu aroma me visita.» Os seus olhos acabrunhavam a luz de tão tímidos: ergueu o braço e pediu um café com um falsete agudo, tossicando a seguir para sintonizar a voz masculina. Duas mulheres entraram com floreados «Bonjour, tout le monde!», lançando-lhe um sorriso: Rudolph era um homem atraente, mas a sua aura de mistério, o seu encanto de fleur du mal nascia da sua profunda impotência em conseguir ser gentil, ou sequer comunicar, com alguém que o encantasse. A sua vida amorosa tinha acontecido sempre por iniciativa alheia e só na intimidade já conquistada dos amantes manifestava ele o seu desamparo irredutível, entre perfumes e sedas brocadas. Acabava com a cabeça afundada em peitos maternais, gesto que, se começou por ser teatral, cedo se transformou na sua morna e viciosa tristeza.
Incapaz de corresponder ao sorriso das duas, intoxicado pelas impossibilidades que os seus poemas lhe revelavam, Rudolph baixou a cabeça e acariciou o seu isqueiro prateado, recomeçando a sentir a inspiração que desistir do mundo lhe provocava. Ao pegar de novo na caneta, a elegância estudada de todos os seus gestos pareceu-lhe a antevisão do seu próprio rigor mortis. «Acordo ao fim da tarde/Com a noite na garganta/A minha solidão arde/Frio cadáver de santa/Força casta de cobarde/Canta para mim, Mundo/Canta».
As luzes do café apagaram-se e, do outro lado da grande vitrine, o murmúrio cresceu. Eram diversas as reacções dos alunos do Liceu que tinham vindo visitar a Bio-Instalação do artista Ciber-Plástico John Mc13, «Boulevard Vécu», ao Museu de Arte Antiga.
JP Simões
A moment of Zen!
23 Dezembro 2009
O Código da Serpente (-4)
Because I know that time is always time
And place is always and only place
And what is actual is actual only for one time
And only for one place
I rejoice that things are as they are and
I renounce the blessed face
And renounce the voice
Because I cannot hope to turn again
Consequently I rejoice, having to construct something
Upon which to rejoice
T. S. Eliot, Ash-Wednesday
And place is always and only place
And what is actual is actual only for one time
And only for one place
I rejoice that things are as they are and
I renounce the blessed face
And renounce the voice
Because I cannot hope to turn again
Consequently I rejoice, having to construct something
Upon which to rejoice
T. S. Eliot, Ash-Wednesday
Wolf, grace, 2007
A DOR INVENTA(RIA)DA
§. Um sonho demasiado real
§. Uma lua de papel insone
§. A sublimação do Amor
§. O suicídio verbal e a metafórica asfixia
§. O grito que já foi canção
§. A lâmina, o sangue e a ferrugem
§. A corda no pescoço ao acordar
§. A Nódoa Gótica
§. Aquela noute
§. Os teus inúmeros nomes – impronunciáveis, inesquecíveis
§. As tuas lágrimas e a minha sede
§. A escuridão e a neve
§. O Paraíso Invertido
§. As Mortes e os Dias
§. O predador frustrado
§. A presa orgulhosa
§. A devoção a tudo o que me assiste
§. O tédio irremediável
§. A nossa distância ------------------
§. O sorriso da criança envelhecida
§. O sacrifício das mães
§. Choque, negação, raiva, depressão... aceitemos a ferida aberta
§. Púrpura, veludo e cetim
§. As intermitências do Belo
§. Cordelia Blue
§. Martim Xanax
§. Virgo de Los
§. The Poisonous I
§. Nodula de Nomada
§. Um sonho demasiado real
§. Uma lua de papel insone
§. A sublimação do Amor
§. O suicídio verbal e a metafórica asfixia
§. O grito que já foi canção
§. A lâmina, o sangue e a ferrugem
§. A corda no pescoço ao acordar
§. A Nódoa Gótica
§. Aquela noute
§. Os teus inúmeros nomes – impronunciáveis, inesquecíveis
§. As tuas lágrimas e a minha sede
§. A escuridão e a neve
§. O Paraíso Invertido
§. As Mortes e os Dias
§. O predador frustrado
§. A presa orgulhosa
§. A devoção a tudo o que me assiste
§. O tédio irremediável
§. A nossa distância ------------------
§. O sorriso da criança envelhecida
§. O sacrifício das mães
§. Choque, negação, raiva, depressão... aceitemos a ferida aberta
§. Púrpura, veludo e cetim
§. As intermitências do Belo
§. Cordelia Blue
§. Martim Xanax
§. Virgo de Los
§. The Poisonous I
§. Nodula de Nomada
22 Dezembro 2009
OSSOS
Para a Frankie, fraternalmente
Isobel White, Raven, 2005
NOCTURNA
Tilintação. Riscada. A música
De pratos, tachos e talheres –
Tupperwares, tupperwares. Não,
Não jantarei. I'll wear myself black!
Que tudo é um espelho, fusos horários
E disciplina. A poesia é a minha autoridade.
Lá fora a cidade repousa. Ah, a cidade!
Da função pública aos tribunais... As tabernas
Rejubilam. Dulcissima est. A vita funebris.
Em breve a bolorenta cidade dormirá.
Entre paredes também ela dorme, alguém, –
Casas de pedra e granito, um cinzento ígneo.
São tempos difíceis, estes, quase dickenianos;
Mostrengos que na escuridão ressonam ébrios
E ferozes, ou corvos que se fixam hieráticos
No umbral da porta e perturbam a minha paz.
Têm um olhar astuto. Sorrio. Em silêncio,
Pé ante pé, fecho a pesada porta de mármore.
No andar de cima, ouve-se triste um piano –
Pianissimo, fading out, my aurea mediocritas;
Suspensa como uma pluma, a minha sombra
Tem o ledo vagar das nuvens. E tilinta. Tlim.
Tudo é um espelho – a poesia, o meu método.
Neva incessantemente. E chove. Chove muito.
Da minha janela, depois da hora de não jantar,
Vislumbro a cidade que dorme. Locus amoenus.
Os céus pintam-se agora de bruma escarlate.
E a minha rosa, a minha rosa há-de ser vermelha.
Sim, vou regá-la. Não me perturbes, peço-te.
A minha solidão? A minha solidão é alta e lunar.
Tilintação. Riscada. A música
De pratos, tachos e talheres –
Tupperwares, tupperwares. Não,
Não jantarei. I'll wear myself black!
Que tudo é um espelho, fusos horários
E disciplina. A poesia é a minha autoridade.
Lá fora a cidade repousa. Ah, a cidade!
Da função pública aos tribunais... As tabernas
Rejubilam. Dulcissima est. A vita funebris.
Em breve a bolorenta cidade dormirá.
Entre paredes também ela dorme, alguém, –
Casas de pedra e granito, um cinzento ígneo.
São tempos difíceis, estes, quase dickenianos;
Mostrengos que na escuridão ressonam ébrios
E ferozes, ou corvos que se fixam hieráticos
No umbral da porta e perturbam a minha paz.
Têm um olhar astuto. Sorrio. Em silêncio,
Pé ante pé, fecho a pesada porta de mármore.
No andar de cima, ouve-se triste um piano –
Pianissimo, fading out, my aurea mediocritas;
Suspensa como uma pluma, a minha sombra
Tem o ledo vagar das nuvens. E tilinta. Tlim.
Tudo é um espelho – a poesia, o meu método.
Neva incessantemente. E chove. Chove muito.
Da minha janela, depois da hora de não jantar,
Vislumbro a cidade que dorme. Locus amoenus.
Os céus pintam-se agora de bruma escarlate.
E a minha rosa, a minha rosa há-de ser vermelha.
Sim, vou regá-la. Não me perturbes, peço-te.
A minha solidão? A minha solidão é alta e lunar.
A moment of Zen!
OSSOS
The world is woven all of dream and error
And but one sureness in our truth may lie –
That when we hold to aught our thinking's mirror
We know it not by knowing it thereby.
For but one side of things the mirror knows,
And knows it colded from its solidness.
A double lie its truth is; what it shows
By true show's false and nowhere by true place.
Thought clouds our life's day-sense with strangeness, yet
Never from strangeness more than that it's strange
Doth buy our perplexed thinking, for we get
But the words' sense from words – knowledge, truth, change.
___We know the world is false, not what is true.
___Yet we think on, knowing we ne'er shall know.
Fernando Pessoa, 35 Sonnets
And but one sureness in our truth may lie –
That when we hold to aught our thinking's mirror
We know it not by knowing it thereby.
For but one side of things the mirror knows,
And knows it colded from its solidness.
A double lie its truth is; what it shows
By true show's false and nowhere by true place.
Thought clouds our life's day-sense with strangeness, yet
Never from strangeness more than that it's strange
Doth buy our perplexed thinking, for we get
But the words' sense from words – knowledge, truth, change.
___We know the world is false, not what is true.
___Yet we think on, knowing we ne'er shall know.
Fernando Pessoa, 35 Sonnets
O mundo é do sonho e do erro teia imensa
E uma só certeza nossa verdade sói esconder –
Que quando inquirimos o espelho que nos pensa
Dele nada sabemos, por ali o entrever.
Porque o espelho sabe apenas uma só face das coisas,
E sabe-o gélido em sua solidez.
A sua verdade é duplamente falsa; o que evidencia
Como verdadeiro revela-se falso e encontra-se em nenhures.
O pensamento enubla de estranheza o sentido da nossa vida,
Porém de estranheza não mais do que aquilo que, por ser estranho,
Se apossa do nosso pensar perplexo; pois que somente
Extraímos das palavras o seu sentido – saber, verdade, mudança.
___Sabemos que o mundo é falso, não que verdade é.
___Ainda assim pensamos, sabendo que jamais saberemos.
Tradução de The Poisonous I
E uma só certeza nossa verdade sói esconder –
Que quando inquirimos o espelho que nos pensa
Dele nada sabemos, por ali o entrever.
Porque o espelho sabe apenas uma só face das coisas,
E sabe-o gélido em sua solidez.
A sua verdade é duplamente falsa; o que evidencia
Como verdadeiro revela-se falso e encontra-se em nenhures.
O pensamento enubla de estranheza o sentido da nossa vida,
Porém de estranheza não mais do que aquilo que, por ser estranho,
Se apossa do nosso pensar perplexo; pois que somente
Extraímos das palavras o seu sentido – saber, verdade, mudança.
___Sabemos que o mundo é falso, não que verdade é.
___Ainda assim pensamos, sabendo que jamais saberemos.
Tradução de The Poisonous I
OSSOS
Pei-Pei Ketron, Heceta Head, 2005
Kairos
Esta será a noite de todas as decisões, for I married my wife on the day of the eclipse and our friends awarded her courage with gifts... Foda-se! Vivo com este pedaço de merda vai para oito anos e vai daí não consigo ainda perceber como sou eu capaz de o amar. Depois ela acorda, e como é belo o seu despertar. Calafrios. Perigo e medo. É o frio e este medo de lhe mentir se souber que a amo. Se é uma convicção? Não, talvez uma crença. Sabes, enamorei-me de um fantasma, não sei nada que a ele diga respeito, apenas que se odeia mortalmente, pois passa os dias a mortificar-se de tédio e de poesia alheia, diz que é uma mutilação necessária. Tem tanto rancor dentro dele que chega a ser genuinamente belo. Ora eu acho que ele devia partilhar contigo a experiência desse sono. Sim, a devoção a tudo o que fenece. Alguma vez lhe pediste que te sorrisse? Mas ele é incapaz de partilhar o que quer que seja, está demasiado obcecado com a sua auto-destruição, diz que é um ofício, que deixou-se de merdas e fidelizou-se às tenebrosas musas da tempestade insone, que vive um sonho, um sonho catalisador de... Bem, diz ele que nesse sonho é perseguido por uma criatura assustadora... E ela, não sorri? Não, ela chora, chora uma violentação interminável, um dilúvio infinito. Então e nesse sonho, ele é feliz? Ele diz que não sabe, mas provavelmente não, que em todo o caso desconhece semelhante emoção, isso é próprio da humana condição e o estado dele é regido pela Necessidade. Às vezes, porém, acontece dizer-me que, intervalando esse sonho, surge um outro, também recorrente, onde assiste, com insolente passividade, à encenação de uma morte. Pois passa-se que isto dura horas e horas, são cartas e poemas a monte, nada a perder, toda a palavra encerra em si um espectáculo pungente... Mas e ele? Ora, ele diz que uma espessa névoa lhe não permite garantir quem é o protagonista do dito sonho, em todo o caso, lembro agora, talvez seja um suicídio, diz que talvez seja ele, sim, trata-se de um sonho recorrente. Um dia perguntei-lhe, então e não te aterroriza a mera menção de beleza à noitinha, um chá quente e umas bolachinhas? Ele diz que não, que a fealdade do mundo o devorou por inteiro, que desconhece a essência do Belo... Ah, mas isso ninguém conhece! Pois, vai lá dizer-lhe isso, dir-te-á que toda a recordação de Si é vaga e distante. Cansa-se de viver, tudo o aborrece imenso. Já sei! Diz-lhe que a tua fala é áurea, uma arca onde jaz o sabor da maresia e que o que é preciso é louvar o punhal que nos aproxima do mar; depois acorda-o, se o sentires asfixiar. Resultou? Ah, náufrago querido, bebe um pouco mais de vinho. Condenado, condenado! Ouve-me bem! Não obstante tudo o que é mundano e frívolo, é urgente aprender de uma vez por todas a viver sem a corda ao pescoço. Oh, meu amor! Sim, beija-me agora, sela o meu óbito de sorrisos! Não chores, meu querido. Sim, eu perdoo-te. Não bebas mais e eu amar-te-ei com os braços muito abertos. Que esta seja a noite de todas as decisões. Ah, eu morrer alto num silêncio islandês. Bloggadáver? I was a fool, baby!
Transladado d'Os Funerários.
Esta será a noite de todas as decisões, for I married my wife on the day of the eclipse and our friends awarded her courage with gifts... Foda-se! Vivo com este pedaço de merda vai para oito anos e vai daí não consigo ainda perceber como sou eu capaz de o amar. Depois ela acorda, e como é belo o seu despertar. Calafrios. Perigo e medo. É o frio e este medo de lhe mentir se souber que a amo. Se é uma convicção? Não, talvez uma crença. Sabes, enamorei-me de um fantasma, não sei nada que a ele diga respeito, apenas que se odeia mortalmente, pois passa os dias a mortificar-se de tédio e de poesia alheia, diz que é uma mutilação necessária. Tem tanto rancor dentro dele que chega a ser genuinamente belo. Ora eu acho que ele devia partilhar contigo a experiência desse sono. Sim, a devoção a tudo o que fenece. Alguma vez lhe pediste que te sorrisse? Mas ele é incapaz de partilhar o que quer que seja, está demasiado obcecado com a sua auto-destruição, diz que é um ofício, que deixou-se de merdas e fidelizou-se às tenebrosas musas da tempestade insone, que vive um sonho, um sonho catalisador de... Bem, diz ele que nesse sonho é perseguido por uma criatura assustadora... E ela, não sorri? Não, ela chora, chora uma violentação interminável, um dilúvio infinito. Então e nesse sonho, ele é feliz? Ele diz que não sabe, mas provavelmente não, que em todo o caso desconhece semelhante emoção, isso é próprio da humana condição e o estado dele é regido pela Necessidade. Às vezes, porém, acontece dizer-me que, intervalando esse sonho, surge um outro, também recorrente, onde assiste, com insolente passividade, à encenação de uma morte. Pois passa-se que isto dura horas e horas, são cartas e poemas a monte, nada a perder, toda a palavra encerra em si um espectáculo pungente... Mas e ele? Ora, ele diz que uma espessa névoa lhe não permite garantir quem é o protagonista do dito sonho, em todo o caso, lembro agora, talvez seja um suicídio, diz que talvez seja ele, sim, trata-se de um sonho recorrente. Um dia perguntei-lhe, então e não te aterroriza a mera menção de beleza à noitinha, um chá quente e umas bolachinhas? Ele diz que não, que a fealdade do mundo o devorou por inteiro, que desconhece a essência do Belo... Ah, mas isso ninguém conhece! Pois, vai lá dizer-lhe isso, dir-te-á que toda a recordação de Si é vaga e distante. Cansa-se de viver, tudo o aborrece imenso. Já sei! Diz-lhe que a tua fala é áurea, uma arca onde jaz o sabor da maresia e que o que é preciso é louvar o punhal que nos aproxima do mar; depois acorda-o, se o sentires asfixiar. Resultou? Ah, náufrago querido, bebe um pouco mais de vinho. Condenado, condenado! Ouve-me bem! Não obstante tudo o que é mundano e frívolo, é urgente aprender de uma vez por todas a viver sem a corda ao pescoço. Oh, meu amor! Sim, beija-me agora, sela o meu óbito de sorrisos! Não chores, meu querido. Sim, eu perdoo-te. Não bebas mais e eu amar-te-ei com os braços muito abertos. Que esta seja a noite de todas as decisões. Ah, eu morrer alto num silêncio islandês. Bloggadáver? I was a fool, baby!
Transladado d'Os Funerários.
A moment of Zen!
1 a.m. all am you late fragments of light
Misha Gordin, Mole, s/d
'tis when morality’s gone
home, gown of the ordinary
blind, – the poet becomes
possessed, and in lunacy,
standing all alone before
humanity's lack of hope.
scratching, frantic – a mole
searching for the pearl of life
at the shining toilet of the world.
alas, the city screams – all a dead
end – and silent the poet hungers
for her night. for all emulates
fragments and shades of light.
'tis when all poetry turns
gold, mask of the everlasting
beauty – watch how the lunatic
comes around, the gathering bond.
home, gown of the ordinary
blind, – the poet becomes
possessed, and in lunacy,
standing all alone before
humanity's lack of hope.
scratching, frantic – a mole
searching for the pearl of life
at the shining toilet of the world.
alas, the city screams – all a dead
end – and silent the poet hungers
for her night. for all emulates
fragments and shades of light.
'tis when all poetry turns
gold, mask of the everlasting
beauty – watch how the lunatic
comes around, the gathering bond.
O Código da Serpente (-5)
Because I do not hope to know again
The infirm glory of the positive hour
Because I do not think
Because I know I shall not know
The one veritable transitory power
Because I cannot drink
There, where trees flower, and springs flow, for there is nothing again
T. S. Eliot, Ash-Wednesday
The infirm glory of the positive hour
Because I do not think
Because I know I shall not know
The one veritable transitory power
Because I cannot drink
There, where trees flower, and springs flow, for there is nothing again
T. S. Eliot, Ash-Wednesday
John William Waterhouse,
Pandora,
1896
Pandora,
1896
Pandora – To Dare And Not To Care
É a minha oficina de afinidades literárias. Imagino uma tribo. Uma tribo grandiosa e universal. Os deuses abençoam e tudo é a graça das mães. Uma tribo e começar de novo, ex nihilo. Ah, quão solitária me tornei! Será a minha família, a qual guardarei num poema, com medo de que invada o mundo com o meu fado ébrio de eternidade, ardente como o mar. Permitirei que se revolva e abra a terra – solenemente reconheço: ela não se encontra hermeticamente fechada. Primeiro, são as raízes lusitanas, céleres e famintas, profanas; depois, as faces guerreiras e antigas, atlânticas. A minha família luzirá lugubremente a lúbrica serenidade dos oceanos. Ei-la dilatada pela ânsia que o meu labor soube reunir! Mas algo em mim tem a maresia do ainda não conquistado: interrompo as palavras, abro as portas da memória e aí vou eu, com erótica intempestividade, vestir de temperança a falta de crença no tesouro da humanidade. Quem me dera que a tribo não desaparecesse de seguida, deixando na minha oficina este cheiro a saudade e no poema a sobriedade do delírio.
21 Dezembro 2009
15 Dezembro 2009
OSSOS
Liiga Smilshkalne, Night Elf, 2008
À MORTE
Terribil a terribilina.
Vinmur esconde-se e recupera forças.
A outra solta-se do ramo, depois volta em ricochete.
E gnu, e glu e gruhuhu.
Peitos, braços, pernas e crânios, narizes e dentes.
Ei-los a entrar na liça.
E hú! Vú! Huvuvú!
Entretanto desprende-se o sangue;
Desprendem-se a pouco e pouco os sentimentos,
A vida também,
E destacam-se, por fim, dois cadáveres no caminho ensopado,
Num dia de grande chuva, em Setembro.
Henri Michaux
Terribil a terribilina.
Vinmur esconde-se e recupera forças.
A outra solta-se do ramo, depois volta em ricochete.
E gnu, e glu e gruhuhu.
Peitos, braços, pernas e crânios, narizes e dentes.
Ei-los a entrar na liça.
E hú! Vú! Huvuvú!
Entretanto desprende-se o sangue;
Desprendem-se a pouco e pouco os sentimentos,
A vida também,
E destacam-se, por fim, dois cadáveres no caminho ensopado,
Num dia de grande chuva, em Setembro.
Henri Michaux
A moment of Zen!
GRAND FINALE
Para mim
KATATONIA - "Departer" (2009)
The blinding white
So far behind i am
Running
Over idle ground
This evening
I kept my word
Did you
I'm turning around
Wait for your sound
Only so far
According to who
Departer
The journey of our lives
I'm slow (when did you first say)
Compared to you
Departer (i swear it's the truth)
It's the month of july
Brother
In your eyes I was the stronger
So how am I to cover you now
Without shadowing your path
This time
I watch from the sidelines
Your ghost in the limelight
Face your fears
And pierce the night
So close
If only you knew
Defender
The story of our lives
I'm so rash (why would I swear)
Compared to you
Surrender (you know it's the truth)
It's the path of our lives
Music by Jonas Renkse
Lyrics by Jonas Renkse and Krister Linder
The blinding white
So far behind i am
Running
Over idle ground
This evening
I kept my word
Did you
I'm turning around
Wait for your sound
Only so far
According to who
Departer
The journey of our lives
I'm slow (when did you first say)
Compared to you
Departer (i swear it's the truth)
It's the month of july
Brother
In your eyes I was the stronger
So how am I to cover you now
Without shadowing your path
This time
I watch from the sidelines
Your ghost in the limelight
Face your fears
And pierce the night
So close
If only you knew
Defender
The story of our lives
I'm so rash (why would I swear)
Compared to you
Surrender (you know it's the truth)
It's the path of our lives
Music by Jonas Renkse
Lyrics by Jonas Renkse and Krister Linder
14 Dezembro 2009
OSSOS
John William Waterhouse,
Odysseus and the Sirens,
1891
Odysseus and the Sirens,
1891
DOPAMINA, MEU AMOR
Cianeto, estricnina, a mim
O vosso alento, ancestral
Penicilina, dopamina,
Meu amor. A visão turva,
Sublime, a terra vulva-se,
Rejubila, esperma e sangue.
A vida, ah vitupério vil,
A vida é breve,
Esconde-se e espreita.
O sonho, perdi-o; suas vísceras
Pendiam, solar, aquela noute.
Ei-las parindo:
Sglugh! Sglugh! Sglugh!
Ei-las, dopamina, meu amor.
Cianeto, estricnina, a mim
O vosso alento, ancestral
Penicilina, dopamina,
Meu amor. A visão turva,
Sublime, a terra vulva-se,
Rejubila, esperma e sangue.
A vida, ah vitupério vil,
A vida é breve,
Esconde-se e espreita.
O sonho, perdi-o; suas vísceras
Pendiam, solar, aquela noute.
Ei-las parindo:
Sglugh! Sglugh! Sglugh!
Ei-las, dopamina, meu amor.
(Com o tempo o nosso herói receberia o sol, aprenderia a subsistir com pouco, a comer pouco e a ceder audaz a punhais os sentimentos poucos que o nutriam. A pouco e pouco, também a vida se revelaria uma tosca dicotomia entre a fortuna e a miséria. Nada mais falso. Em verdade, ele sonhou um abismo, eclodiu-se simples, essencial: que a terra se abria e o acolhia como a um verso querido e há muito esquecido, a última sentinela enfim entregue.)
Sglugh!
Dopamina,
Meu amor.
The Poisonous I
Dopamina,
Meu amor.
The Poisonous I
OSSOS
Para a Telma, que mim não saber amar
Kay Sage,
Le Passage,
1956
Le Passage,
1956
SETE ANOS NO DESERTO
É uma casa apertada, a nossa, o corpo que escolhemos reconhecer. Aqui cabe a doença, a fome e a miséria. A Peste revigora-nos, e o mundo inteiro rejubila a nossa traição. A casa, o corpo. E nós só queríamos a cura. O Verbo. O por nomear. O Poema. Abres as janelas, idiossincraticamente, abre-las todas, é um encantamento teu. Eu peço-te que as feches, digo que não estou preparado, vivo desamussado. Tu, hipocrática poeta, janelas abertas. Sinto-me pateta. Os céus vestiram-se de vermelho, não sei, os céus, o teu vestido vermelho, o estilo precário com que escrevo a palavra amor e adoeço. Vivo aprisionado o equívoco de um crime que não cometi. Pois sim, ousei sonhar-me um deus, vivia a Arte Maior. Era Nocturna. Tínhamos um pacto: tu deixavas a morte entrar, enfermeira Lilith lábios cor de esmeralda, e eu recebia-a, grato, estudava-a, o meu ofício de poeta forense. Qual humanidade, qual quê. Era, em verdade, um pacto fértil e verdadeiro, verdadeiramente nosso e flamejava. Era Infera. A humanidade era lá contigo, esse imenso hospital onde tantas vezes me perdi e de novo te encontrava. Não, a minha devoção era aos crânios das crianças, a matéria quase poética e ainda eterna, era a Palavra que me chamava, era o abismo que em mim se agigantava, e eu sabia, eu sabia, eu seria a sua Voz. Tornei-me fantasma, não adolesci. Hoje reanimo os dias da tua ausência com uma mesma imagem: a da tua palidez de menina a despedir-se de mim e a distância. Hoje somos miragem. Dois mundos que colidiram e, quais abismos, se devoraram. As janelas fecharam-se e ficaram apenas as palavras com que legitimei a nossa solidão imensa. O teu encantamento, o meu poema. O nosso amor enfim nomeado. O nosso amor. A promessa de haver a cura, o encontro. Porque a casa existe, e é o corpo. Que o mundo inteiro sempre rejubilará a nossa traição. A Peste revigora-nos, dá-nos trabalho e saúde. Aqui cabe a doença, a fome e a miséria. É uma casa apertada, a nossa. Mas nós somos felizes. A Queda Feliz. E eu diria, sim, eu diria que te amo.
É uma casa apertada, a nossa, o corpo que escolhemos reconhecer. Aqui cabe a doença, a fome e a miséria. A Peste revigora-nos, e o mundo inteiro rejubila a nossa traição. A casa, o corpo. E nós só queríamos a cura. O Verbo. O por nomear. O Poema. Abres as janelas, idiossincraticamente, abre-las todas, é um encantamento teu. Eu peço-te que as feches, digo que não estou preparado, vivo desamussado. Tu, hipocrática poeta, janelas abertas. Sinto-me pateta. Os céus vestiram-se de vermelho, não sei, os céus, o teu vestido vermelho, o estilo precário com que escrevo a palavra amor e adoeço. Vivo aprisionado o equívoco de um crime que não cometi. Pois sim, ousei sonhar-me um deus, vivia a Arte Maior. Era Nocturna. Tínhamos um pacto: tu deixavas a morte entrar, enfermeira Lilith lábios cor de esmeralda, e eu recebia-a, grato, estudava-a, o meu ofício de poeta forense. Qual humanidade, qual quê. Era, em verdade, um pacto fértil e verdadeiro, verdadeiramente nosso e flamejava. Era Infera. A humanidade era lá contigo, esse imenso hospital onde tantas vezes me perdi e de novo te encontrava. Não, a minha devoção era aos crânios das crianças, a matéria quase poética e ainda eterna, era a Palavra que me chamava, era o abismo que em mim se agigantava, e eu sabia, eu sabia, eu seria a sua Voz. Tornei-me fantasma, não adolesci. Hoje reanimo os dias da tua ausência com uma mesma imagem: a da tua palidez de menina a despedir-se de mim e a distância. Hoje somos miragem. Dois mundos que colidiram e, quais abismos, se devoraram. As janelas fecharam-se e ficaram apenas as palavras com que legitimei a nossa solidão imensa. O teu encantamento, o meu poema. O nosso amor enfim nomeado. O nosso amor. A promessa de haver a cura, o encontro. Porque a casa existe, e é o corpo. Que o mundo inteiro sempre rejubilará a nossa traição. A Peste revigora-nos, dá-nos trabalho e saúde. Aqui cabe a doença, a fome e a miséria. É uma casa apertada, a nossa. Mas nós somos felizes. A Queda Feliz. E eu diria, sim, eu diria que te amo.
Babooshka Zens!
02 Dezembro 2009
OSSOS
Virgo de Los,
between the cracks and hollows,
2008
between the cracks and hollows,
2008
FROM NIHIL WITH LOVE
Um músico que muito admiro disse-me um dia: «Isto o que é preciso é andar para a frente. Nada é eterno.» Não poderia concordar mais com este dito. É um chavão! Ele vale pelo que tem de espontaneidade, não pelo que é, pois trata-se de um enunciado. Os enunciados. Vivia uma personalidade vampira. Eis um, antológico, fruto da mais lógica moribundagem. Dizia eu, humana, tu que me lês, digo-te que não, não compreendo a tua noção de intimidade. Arrasta-se um cadáver junto ao computador. A primeira e última noite. Espelho, versos, espelho. A promessa de um grand finale. O calor de um serão hiemal. O fogo e a distância. O gelo da ausência. Pensava que compreendia as palavras e o seu jogo transladatório. A Poesia. Julgava que vos entendia. Que o deserto era plano e agreste. Que as agruras da beleza habitavam a minha alma distraída. Enganei-me. Fui atraído pela ignorância que me perturbava. Eu traí-vos, meu pai. A murder most foul. Esta noite, convosco do outro lado, assaz esclarecido, reconheço: encontro-vos na escuridão, tudo tão claro, saber-me procurado. Saber que a minha errância sucumbiu à sua substância. E eu amo-te. Diz à tua mãe que eu amo-vos. Ou amei-vos. Não sei. Eu nunca soube viver. Borrava-me sempre, enchia-me de dívidas, de subterfúgios e de enganos. Diz Antonin Artaud que o mundo é o abismo da alma. Papá! Paizinho! Where art... d'oh! I'm just passionate, like all us Greeks! Come hither, poor dear Nosferactor! Make haste! Nihil be thy Word! Entendam que esta era, foi, a minha noite.
Transladado d'Os Funerários.
Um músico que muito admiro disse-me um dia: «Isto o que é preciso é andar para a frente. Nada é eterno.» Não poderia concordar mais com este dito. É um chavão! Ele vale pelo que tem de espontaneidade, não pelo que é, pois trata-se de um enunciado. Os enunciados. Vivia uma personalidade vampira. Eis um, antológico, fruto da mais lógica moribundagem. Dizia eu, humana, tu que me lês, digo-te que não, não compreendo a tua noção de intimidade. Arrasta-se um cadáver junto ao computador. A primeira e última noite. Espelho, versos, espelho. A promessa de um grand finale. O calor de um serão hiemal. O fogo e a distância. O gelo da ausência. Pensava que compreendia as palavras e o seu jogo transladatório. A Poesia. Julgava que vos entendia. Que o deserto era plano e agreste. Que as agruras da beleza habitavam a minha alma distraída. Enganei-me. Fui atraído pela ignorância que me perturbava. Eu traí-vos, meu pai. A murder most foul. Esta noite, convosco do outro lado, assaz esclarecido, reconheço: encontro-vos na escuridão, tudo tão claro, saber-me procurado. Saber que a minha errância sucumbiu à sua substância. E eu amo-te. Diz à tua mãe que eu amo-vos. Ou amei-vos. Não sei. Eu nunca soube viver. Borrava-me sempre, enchia-me de dívidas, de subterfúgios e de enganos. Diz Antonin Artaud que o mundo é o abismo da alma. Papá! Paizinho! Where art... d'oh! I'm just passionate, like all us Greeks! Come hither, poor dear Nosferactor! Make haste! Nihil be thy Word! Entendam que esta era, foi, a minha noite.
Transladado d'Os Funerários.
A moment of Zen!
OSSOS
Virgo de Los,
my last good smile,
2008
my last good smile,
2008
FIRST DAY
A vague recollection of your memory
Still haunts my dreams, tormenting me
On this my very first breath. I sigh.
The moon is silent, a landscape
Which is, by the way, quite lyrical,
My love! Would you play the piano?
I live the great drunkyard, I lost my speech
And every word holds a grave, pungent world.
I sing the echoes of myself, and everything
Drains a light from below. Yes, I do believe.
There will come a day, you will see,
For a brave new dawn to rise,
And those tedious dogs
Will be left to die,
The hours of our fall behind.
How sad is the face in search of a mirror.
How said is the word we must never face.
So as I leave your house,
I regret nothing; I rather
Lay myself asleep, outdoors.
There was a cold, and the muttering
Waters were never still. As if falling.
Mind the earth, young boy!
And the elder smiled.
A vague recollection of your memory
Still haunts my dreams, tormenting me
On this my very first breath. I sigh.
The moon is silent, a landscape
Which is, by the way, quite lyrical,
My love! Would you play the piano?
I live the great drunkyard, I lost my speech
And every word holds a grave, pungent world.
I sing the echoes of myself, and everything
Drains a light from below. Yes, I do believe.
There will come a day, you will see,
For a brave new dawn to rise,
And those tedious dogs
Will be left to die,
The hours of our fall behind.
How sad is the face in search of a mirror.
How said is the word we must never face.
So as I leave your house,
I regret nothing; I rather
Lay myself asleep, outdoors.
There was a cold, and the muttering
Waters were never still. As if falling.
Mind the earth, young boy!
And the elder smiled.
A moment of Zen!
OSSOS
Ao Mário Cesariny, a minha gratidão
Wolf, sleepers, 2007
MORTES E DIAS
Cai neve sobre o semicerrado
Cemitério dos Sonhadores.
Passaram-se muitos anos,
As Mortes e os Dias;
O Modernismo jaz insepulto.
Tudo é decadência: a sobrevivência,
A ausência, a sujidade nos dedos,
A tinta negra ser e feroz a ocultar
Os desapontamentos e a memória,
Quando as tuas mãos frias se abrem,
Pétalas inocentes que voam e eternizam
A criança que habita o olhar do poeta.
Acto contínuo. Cai neve sobre o semicerrado
Cemitério dos Sonhadores. Silêncio. Cai neve.
A vida renova-se para lá da janela que é, vejo
Agora, não uma janela, antes a porta de outrora.
Quando o cosmos inteiro se reúne, à hora marcada,
Não esta, não aquela, a de sempre, porta entreaberta
A convidar a íntima fala da poeira na voz dos fazedores.
Mãos frias, chá ao lume, um pôr-do-sol veloz no horizonte,
Poema aberto, porta trancada, o telefone desligado. Solidão.
Eu sou um verso. Neve sobre a vala comum das linguagens.
Passaram-se muitos anos,
As Mortes e os Dias;
O Modernismo jaz insepulto.
E no Cemitério dos Sonhadores
Brilha agora o sol sobre a neve,
A neve que cobre o meu poema.
Cai neve sobre o semicerrado
Cemitério dos Sonhadores.
Passaram-se muitos anos,
As Mortes e os Dias;
O Modernismo jaz insepulto.
Tudo é decadência: a sobrevivência,
A ausência, a sujidade nos dedos,
A tinta negra ser e feroz a ocultar
Os desapontamentos e a memória,
Quando as tuas mãos frias se abrem,
Pétalas inocentes que voam e eternizam
A criança que habita o olhar do poeta.
Acto contínuo. Cai neve sobre o semicerrado
Cemitério dos Sonhadores. Silêncio. Cai neve.
A vida renova-se para lá da janela que é, vejo
Agora, não uma janela, antes a porta de outrora.
Quando o cosmos inteiro se reúne, à hora marcada,
Não esta, não aquela, a de sempre, porta entreaberta
A convidar a íntima fala da poeira na voz dos fazedores.
Mãos frias, chá ao lume, um pôr-do-sol veloz no horizonte,
Poema aberto, porta trancada, o telefone desligado. Solidão.
Eu sou um verso. Neve sobre a vala comum das linguagens.
Passaram-se muitos anos,
As Mortes e os Dias;
O Modernismo jaz insepulto.
E no Cemitério dos Sonhadores
Brilha agora o sol sobre a neve,
A neve que cobre o meu poema.
A moment of Zen!
15 Novembro 2009
TO THE MOTHERS WHO CAME BEFORE
Hieronymus Bosch,
The Tree Man,
1470
The Tree Man,
1470
EARTHROAT
Nasci. A voz da Serpente. Resina
Escorre pela folhagem. Chuva cai.
Ouço a tua voz ao longe, melopeia
Telúrica a inebriar a minha canção.
Na garganta, nevoeiro e abandono,
Difunde suave o odor da paisagem,
E uma fresca aragem enleva a alma.
Sou a noite primeira, um luar imenso
E lânguido a cobrir a dura ramagem.
Vindo do segredo dos sonhos, erro
A ressurreição da claridade simples,
Luz que ondeia pelo ermo arvoredo.
Cai chuva. E escorre pela folhagem
A resina. Na garganta seca. Nasce.
The Poisonous I
Nasci. A voz da Serpente. Resina
Escorre pela folhagem. Chuva cai.
Ouço a tua voz ao longe, melopeia
Telúrica a inebriar a minha canção.
Na garganta, nevoeiro e abandono,
Difunde suave o odor da paisagem,
E uma fresca aragem enleva a alma.
Sou a noite primeira, um luar imenso
E lânguido a cobrir a dura ramagem.
Vindo do segredo dos sonhos, erro
A ressurreição da claridade simples,
Luz que ondeia pelo ermo arvoredo.
Cai chuva. E escorre pela folhagem
A resina. Na garganta seca. Nasce.
The Poisonous I
BROTHERS IN HARMS
Para o Wolf
Wolf, The Tree Son, 2008
MELOPEARBOREA
Chove tédio por dentro. Empalidece a dor. Alaúde-se.
As palavras, ataúdes, são instrumentos, e sob os dedos.
Fogo-fátuo. All fatum est. O fagote a cinza da memória
Sopra e pulsa sombria a percussão. Abismos ecoam-se.
Violino-me de ausência. Sou o acorde de um panteísta!
Meus braços violam o pacto: são raízes. Cantam lentos,
Os voluptuosos violoncelos. Sinfonia acordada. Volve!
Dança, filho da terra! A flamma, a vida. A palavra daqui
Para aqui, transladada, um murmúrio de lira que assombra
Porque transcende, não carne e lixo, a árvore dos deuses.
Abismos ecoam-se quando me violino. Chove tédio. Sol.
The Poisonous I
Chove tédio por dentro. Empalidece a dor. Alaúde-se.
As palavras, ataúdes, são instrumentos, e sob os dedos.
Fogo-fátuo. All fatum est. O fagote a cinza da memória
Sopra e pulsa sombria a percussão. Abismos ecoam-se.
Violino-me de ausência. Sou o acorde de um panteísta!
Meus braços violam o pacto: são raízes. Cantam lentos,
Os voluptuosos violoncelos. Sinfonia acordada. Volve!
Dança, filho da terra! A flamma, a vida. A palavra daqui
Para aqui, transladada, um murmúrio de lira que assombra
Porque transcende, não carne e lixo, a árvore dos deuses.
Abismos ecoam-se quando me violino. Chove tédio. Sol.
The Poisonous I
14 Novembro 2009
MATERIA
Marc Adamus,
The Tree God,
2007
The Tree God,
2007
VOZ
Eu que à matéria divina dou corpo, minha Mãe, porque a voz, Grande Serpente, é a minha provocação, Palavra e Sonho, eu vos invoco, vós que sois a morte e a vida, a imensa fome de eternidade e a monstruosa monstruosidade do mundo, o pulsar que pulsa sem idade, pulsar das águas e das marés, semente a germinar sob a terra, o pulsar fecundo e abundante, a perseverança, o pulsar que pulsa porque é movimento, porque tudo é vibração e o corpo é a voz, quando a minha dor isolo e sulco, quando a minha vida na tua se esvanece, vem, ourobórica Mãe, desde o teu inexorável berço oceânico, ouve a minha súplica, e que o teu canto ecoe na minha voz.
The Poisonous I
Eu que à matéria divina dou corpo, minha Mãe, porque a voz, Grande Serpente, é a minha provocação, Palavra e Sonho, eu vos invoco, vós que sois a morte e a vida, a imensa fome de eternidade e a monstruosa monstruosidade do mundo, o pulsar que pulsa sem idade, pulsar das águas e das marés, semente a germinar sob a terra, o pulsar fecundo e abundante, a perseverança, o pulsar que pulsa porque é movimento, porque tudo é vibração e o corpo é a voz, quando a minha dor isolo e sulco, quando a minha vida na tua se esvanece, vem, ourobórica Mãe, desde o teu inexorável berço oceânico, ouve a minha súplica, e que o teu canto ecoe na minha voz.
The Poisonous I
13 Novembro 2009
LEST WE ARE DUST
Virgo de Los,
the night he died,
2009
the night he died,
2009
PASSAGEM
Chegará o tempo, Mariana,
De nos despedirmos. Hoje,
Como ontem, abismos entre
Nós se param, e cruzam. Só
O Signo sondará o Sonho.
Porque a vida é da escuridão
E perdemo-nos, nada. Tudo
Passagens. Versos, Mariana,
Da imensa despedida. Sorri.
Chegará o tempo, Mariana,
De nos despedirmos. Hoje,
Como ontem, abismos entre
Nós se param, e cruzam. Só
O Signo sondará o Sonho.
Porque a vida é da escuridão
E perdemo-nos, nada. Tudo
Passagens. Versos, Mariana,
Da imensa despedida. Sorri.
William Blake, Lear and Cordelia in Prison, circa 1779
CORDELIA COMPLEX
I plead you come before us, o desperate father, tell us
What lies beyond the vast great principle of betrayal?
Bring forth the crucial lie, the one I lost my dignity for.
For there you wandered, in lunacy, poor ol' dying man,
Wandered among the storms, through the silent forest,
Wandered alone, you source of overwhelming sadness.
I beseech you, misguided demon, come teach us to dare
And not to care, that nothing is but an effortless word,
And everything shall prove meaning out of nothingness.
Come, anguished father, protect us from the falsehood
Of others! Upon us be thy mask, thy brave enlightened
Mask, mask monstrous enough to hide the hideous face
Of my kind from their foolish, innocent lives. Would you
Come before us, Mr. Nothing, on this my endless night?
I plead you come before us, o desperate father, tell us
What lies beyond the vast great principle of betrayal?
Bring forth the crucial lie, the one I lost my dignity for.
For there you wandered, in lunacy, poor ol' dying man,
Wandered among the storms, through the silent forest,
Wandered alone, you source of overwhelming sadness.
I beseech you, misguided demon, come teach us to dare
And not to care, that nothing is but an effortless word,
And everything shall prove meaning out of nothingness.
Come, anguished father, protect us from the falsehood
Of others! Upon us be thy mask, thy brave enlightened
Mask, mask monstrous enough to hide the hideous face
Of my kind from their foolish, innocent lives. Would you
Come before us, Mr. Nothing, on this my endless night?
John William Waterhouse,
The Soul of The Rose,
1908
The Soul of The Rose,
1908
IMAGO
As relíquias, os apontamentos mórbidos, tudo emparedado, Mariana, quando acorda a manhã o deslumbramento da minha pobreza e eu indago, Is there a star out there for me?, um reino escondido ao fundo de ruas desertas, o poema de uma criança, o sal fino que se me escorre pelos dedos e a fome das mães a rasgar os meus versos rasos d'água, a fome, a fraternidade das marés, o esplendor da eternidade e a vacuidade de toda a arte, tudo sei a gravitar na minha língua grave e feroz, Mariana, a tua Voz, alma da rosa, A storm to call my own?, este engravidar as noites com a embriaguez infantil dos meus passos sem volta, pequeno deus extasiado a tactear o breu de um quarto vazio, o vinho quente estimulando a vontade e o insolente grito de Íris esmagando célere a visão, e o sangue, Mariana, o rubor fresco das uvas, A fresh new start?, a tua Voz e esta exaltada versão de viver escravo da cacofonia verbal, miasmática transladação de um beijo que, sei, não mereço mas que tanto fiz por querer.
Transladado d'Os Funerários.
As relíquias, os apontamentos mórbidos, tudo emparedado, Mariana, quando acorda a manhã o deslumbramento da minha pobreza e eu indago, Is there a star out there for me?, um reino escondido ao fundo de ruas desertas, o poema de uma criança, o sal fino que se me escorre pelos dedos e a fome das mães a rasgar os meus versos rasos d'água, a fome, a fraternidade das marés, o esplendor da eternidade e a vacuidade de toda a arte, tudo sei a gravitar na minha língua grave e feroz, Mariana, a tua Voz, alma da rosa, A storm to call my own?, este engravidar as noites com a embriaguez infantil dos meus passos sem volta, pequeno deus extasiado a tactear o breu de um quarto vazio, o vinho quente estimulando a vontade e o insolente grito de Íris esmagando célere a visão, e o sangue, Mariana, o rubor fresco das uvas, A fresh new start?, a tua Voz e esta exaltada versão de viver escravo da cacofonia verbal, miasmática transladação de um beijo que, sei, não mereço mas que tanto fiz por querer.
Transladado d'Os Funerários.
Virgo de Los,
the earth is my witness,
2009
the earth is my witness,
2009
NOCTÂMBULO
A morte, a tua morte,
Na minha mão telúrica,
Tempestade de avelãs,
Amoras, lírios, romãs.
Os versos, os teus versos,
Nos meus dedos sumarentos,
Pomos de segredos e mentiras,
Laranja, açucena, limão.
Os frutos e os furtos,
Os cadernos diários,
Os poemas que anunciam
Auroras fulgurantes
Nos teus lábios cerrados.
A noite em que inumaste o corpo da tua voz...
Colherei eu as vítimas da tua sorte?
A morte, a tua morte,
Na minha mão telúrica,
Tempestade de avelãs,
Amoras, lírios, romãs.
Os versos, os teus versos,
Nos meus dedos sumarentos,
Pomos de segredos e mentiras,
Laranja, açucena, limão.
Os frutos e os furtos,
Os cadernos diários,
Os poemas que anunciam
Auroras fulgurantes
Nos teus lábios cerrados.
A noite em que inumaste o corpo da tua voz...
Colherei eu as vítimas da tua sorte?
Virgo de Los, carved in stone, 2007
A UM CONDENADO
Tu, que tergiversas, ó sentinela
Sagaz, de vigília ao universal
Ventre da progenitura ancestral,
Como um filho que a Mãe oculta vela,
Descansa, é noite! A lua, já alva e pura,
De ouro cobre as ânsias crepusculares...
Para do sono humano despertares
Uma luz imensa por ti procura.
Incansável... cede a voz às paixões...
São olhos, são preces... as sensações
Da mágica terra que o sonho lavra.
Enclausurado em ti, ó poeta obscuro,
Respira um segredo de nylon duro:
«Filho, faze laço desta palavra!»
Tu, que tergiversas, ó sentinela
Sagaz, de vigília ao universal
Ventre da progenitura ancestral,
Como um filho que a Mãe oculta vela,
Descansa, é noite! A lua, já alva e pura,
De ouro cobre as ânsias crepusculares...
Para do sono humano despertares
Uma luz imensa por ti procura.
Incansável... cede a voz às paixões...
São olhos, são preces... as sensações
Da mágica terra que o sonho lavra.
Enclausurado em ti, ó poeta obscuro,
Respira um segredo de nylon duro:
«Filho, faze laço desta palavra!»
A moment of Zen!
12 Novembro 2009
BLESS YE AUTUMN PEOPLE!
Wolf, autumn, 2007
Autumnatic
Hark! Autumn Hearts! Gather thyselves
Avidly, harvesters of the winds! O sister,
Come and guide us to the end of the road!
A thousand ghosts on the street, numb lights
A flash before my eyes... Yet I know
How vague, eternal is our sleep.
I cough and turn – Are you there?
Regretful, weeping, mothers wave their smiles
At me, all brief, subtle gestures – saddening
Gently, I believe, and assume, alone.
I hail ye autumnatic people, ye who sleep
Out in the cold, Hearts of Snow! O sister,
Come admire us at the end of the road!
I turn and cough – No one there.
Hark! Autumn Hearts! Gather thyselves
Avidly, harvesters of the winds! O sister,
Come and guide us to the end of the road!
A thousand ghosts on the street, numb lights
A flash before my eyes... Yet I know
How vague, eternal is our sleep.
I cough and turn – Are you there?
Regretful, weeping, mothers wave their smiles
At me, all brief, subtle gestures – saddening
Gently, I believe, and assume, alone.
I hail ye autumnatic people, ye who sleep
Out in the cold, Hearts of Snow! O sister,
Come admire us at the end of the road!
I turn and cough – No one there.
02 Novembro 2009
01 Novembro 2009
OUTONALMA
Virgo de Los,
the earth is good,
2006
the earth is good,
2006
Este é só mais um dia, diz o poeta e ignora a necrofonia matinal, há que apertar, não, estrangular o apertado músculo da memória e organizar o tumulto em que entulhamos a existência, celebrar a nossa prisão ardilosa e astutamente, quais pacientes suicidas a estudar o medo e a gargalhar o imenso hospital que é o mundo, convictos de que é inútil fugir e que mais vale fingir a voz com timbres sepulcrais e eternizar a nossa morridinha de vez em quando, enfim, há que refrear os fôlegos arrebatados e aprender a regressar, aceitar os juncos que se amontoam estilhaçados junto ao coração, fumar muitos cigarros, febril, inconsolavelmente, adverbiar a matéria lenta e sofregamente, corroer a caveira e alumiar o espírito, fantasiar os braços com candelabros góticos e amortalhar a carcaça com tapeçarias chinesas, porque a vontade e a displicência são ambas disciplinadas e as mãos são todo o espaço que a poesia requer, porque morremos a vida artisticamente completa e contemplamos a saudade com o escárnio carinhoso da sabedoria, e porque o tempo serve somente para ficcionar a liberdade e escrevê-la com tédios de absinto, há pois que conversar sonhos e plátanos à cabeceira, ler livros antigos, rejuvenescê-los, sabê-los virados do avesso, saber também que um travesseiro aconchegado pelo abandono das borboletas receberá o meu sono como uma espécie de punição por não poder respeitar os pedidos de quem me ama, que o sofrimento passa e pensando bem a nossa dor será talvez com certeza injustificadamente imensurável, que a nossa alma exulta-se dentro dos pijamas e dos poemas quando não ousamos cantar o que a noite nos acende nos dedos e adiamos a promessa de lírios para o dia a manhã ontem, porque isto agora único no meu espelho é demasiado violento e requer a sobriedade de quem não passa o tempo a fotografar jardins e sombras de sombras, e eu não posso, e não sei, porque eu penso a fealdade e insisto, abro feridas e deixo-as soletrar as ansiedades de um espectro diurno e apocalíptico, porque, enfim, há que cumprir o acordo umbilical e vilipendiar aquelas que se comprazem, valha-me deus, com morridinhas tão sumárias.
Transladado d'Os Funerários.
Transladado d'Os Funerários.
Virgo de Los,
every bone is sacred,
2009
every bone is sacred,
2009


































































