15 Novembro 2009

TO THE MOTHERS WHO CAME BEFORE


Hieronymus Bosch,
The Tree Man,
1470



EARTHROAT

Nasci. A voz da Serpente. Resina
Escorre pela folhagem. Chuva cai.
Ouço a tua voz ao longe, melopeia
Telúrica a inebriar a minha canção.
Na garganta, nevoeiro e abandono,
Difunde suave o odor da paisagem,
E uma fresca aragem enleva a alma.
Sou a noite primeira, um luar imenso
E lânguido a cobrir a dura ramagem.
Vindo do segredo dos sonhos, erro
A ressurreição da claridade simples,
Luz que ondeia pelo ermo arvoredo.
Cai chuva. E escorre pela folhagem
A resina. Na garganta seca. Nasce.


The Poisonous I

BROTHERS IN HARMS

Para o Wolf



Wolf, The Tree Son, 2008


MELOPEARBOREA

Chove tédio por dentro. Empalidece a dor. Alaúde-se.
As palavras, ataúdes, são instrumentos, e sob os dedos.
Fogo-fátuo. All fatum est. O fagote a cinza da memória
Sopra e pulsa sombria a percussão. Abismos ecoam-se.

Violino-me de ausência. Sou o acorde de um panteísta!
Meus braços violam o pacto: são raízes. Cantam lentos,
Os voluptuosos violoncelos. Sinfonia acordada. Volve!
Dança, filho da terra! A flamma, a vida. A palavra daqui

Para aqui, transladada, um murmúrio de lira que assombra
Porque transcende, não carne e lixo, a árvore dos deuses.

Abismos ecoam-se quando me violino. Chove tédio. Sol.


The Poisonous I



14 Novembro 2009

MATERIA


Marc Adamus,
The Tree God,
2007



VOZ

Eu que à matéria divina dou corpo, minha Mãe, porque a voz, Grande Serpente, é a minha provocação, Palavra e Sonho, eu vos invoco, vós que sois a morte e a vida, a imensa fome de eternidade e a monstruosa monstruosidade do mundo, o pulsar que pulsa sem idade, pulsar das águas e das marés, semente a germinar sob a terra, o pulsar fecundo e abundante, a perseverança, o pulsar que pulsa porque é movimento, porque tudo é vibração e o corpo é a voz, quando a minha dor isolo e sulco, quando a minha vida na tua se esvanece, vem, ourobórica Mãe, desde o teu inexorável berço oceânico, ouve a minha súplica, e que o teu canto ecoe na minha voz.


The Poisonous I

13 Novembro 2009

LEST WE ARE DUST


Virgo de Los,
the night he died,
2009



PASSAGEM

Chegará o tempo, Mariana,
De nos despedirmos. Hoje,
Como ontem, abismos entre
Nós se param, e cruzam. Só
O Signo sondará o Sonho.
Porque a vida é da escuridão
E perdemo-nos, nada. Tudo
Passagens. Versos, Mariana,
Da imensa despedida. Sorri.



William Blake, Lear and Cordelia in Prison, circa 1779


CORDELIA COMPLEX

I plead you come before us, o desperate father, tell us
What lies beyond the vast great principle of betrayal?
Bring forth the crucial lie, the one I lost my dignity for.
For there you wandered, in lunacy, poor ol' dying man,
Wandered among the storms, through the silent forest,
Wandered alone, you source of overwhelming sadness.
I beseech you, misguided demon, come teach us to dare
And not to care, that nothing is but an effortless word,
And everything shall prove meaning out of nothingness.
Come, anguished father, protect us from the falsehood
Of others! Upon us be thy mask, thy brave enlightened
Mask, mask monstrous enough to hide the hideous face
Of my kind from their foolish, innocent lives. Would you
Come before us, Mr. Nothing, on this my endless night?



John William Waterhouse,
The Soul of The Rose,
1908



IMAGO

As relíquias, os apontamentos mórbidos, tudo emparedado, Mariana, quando acorda a manhã o deslumbramento da minha pobreza e eu indago, Is there a star out there for me?, um reino escondido ao fundo de ruas desertas, o poema de uma criança, o sal fino que se me escorre pelos dedos e a fome das mães a rasgar os meus versos rasos d'água, a fome, a fraternidade das marés, o esplendor da eternidade e a vacuidade de toda a arte, tudo sei a gravitar na minha língua grave e feroz, Mariana, a tua Voz, alma da rosa, A storm to call my own?, este engravidar as noites com a embriaguez infantil dos meus passos sem volta, pequeno deus extasiado a tactear o breu de um quarto vazio, o vinho quente estimulando a vontade e o insolente grito de Íris esmagando célere a visão, e o sangue, Mariana, o rubor fresco das uvas, A fresh new start?, a tua Voz e esta exaltada versão de viver escravo da cacofonia verbal, miasmática transladação de um beijo que, sei, não mereço mas que tanto fiz por querer.

Transladado d'Os Funerários.



Virgo de Los,
the earth is my witness,
2009



NOCTÂMBULO

A morte, a tua morte,
Na minha mão telúrica,
Tempestade de avelãs,
Amoras, lírios, romãs.

Os versos, os teus versos,
Nos meus dedos sumarentos,
Pomos de segredos e mentiras,
Laranja, açucena, limão.

Os frutos e os furtos,
Os cadernos diários,
Os poemas que anunciam
Auroras fulgurantes
Nos teus lábios cerrados.

A noite em que inumaste o corpo da tua voz...

Colherei eu as vítimas da tua sorte?



Virgo de Los, carved in stone, 2007


A UM CONDENADO

Tu, que tergiversas, ó sentinela
Sagaz, de vigília ao universal
Ventre da progenitura ancestral,
Como um filho que a Mãe oculta vela,

Descansa, é noite! A lua, já alva e pura,
De ouro cobre as ânsias crepusculares...
Para do sono humano despertares
Uma luz imensa por ti procura.

Incansável... cede a voz às paixões...
São olhos, são preces... as sensações
Da mágica terra que o sonho lavra.

Enclausurado em ti, ó poeta obscuro,
Respira um segredo de nylon duro:
«Filho, faze laço desta palavra!»


A moment of Zen!





12 Novembro 2009

BLESS YE AUTUMN PEOPLE!


Wolf, autumn, 2007


Autumnatic

Hark! Autumn Hearts! Gather thyselves
Avidly, harvesters of the winds! O sister,
Come and guide us to the end of the road!

A thousand ghosts on the street, numb lights
A flash before my eyes... Yet I know
How vague, eternal is our sleep.

I cough and turn – Are you there?

Regretful, weeping, mothers wave their smiles
At me, all brief, subtle gestures – saddening
Gently, I believe, and assume, alone.

I hail ye autumnatic people, ye who sleep
Out in the cold, Hearts of Snow! O sister,
Come admire us at the end of the road!

I turn and cough – No one there.




02 Novembro 2009

A VISITA




01 Novembro 2009

OUTONALMA


Virgo de Los,
the earth is good,
2006



Este é só mais um dia, diz o poeta e ignora a necrofonia matinal, há que apertar, não, estrangular o apertado músculo da memória e organizar o tumulto em que entulhamos a existência, celebrar a nossa prisão ardilosa e astutamente, quais pacientes suicidas a estudar o medo e a gargalhar o imenso hospital que é o mundo, convictos de que é inútil fugir e que mais vale fingir a voz com timbres sepulcrais e eternizar a nossa morridinha de vez em quando, enfim, há que refrear os fôlegos arrebatados e aprender a regressar, aceitar os juncos que se amontoam estilhaçados junto ao coração, fumar muitos cigarros, febril, inconsolavelmente, adverbiar a matéria lenta e sofregamente, corroer a caveira e alumiar o espírito, fantasiar os braços com candelabros góticos e amortalhar a carcaça com tapeçarias chinesas, porque a vontade e a displicência são ambas disciplinadas e as mãos são todo o espaço que a poesia requer, porque morremos a vida artisticamente completa e contemplamos a saudade com o escárnio carinhoso da sabedoria, e porque o tempo serve somente para ficcionar a liberdade e escrevê-la com tédios de absinto, há pois que conversar sonhos e plátanos à cabeceira, ler livros antigos, rejuvenescê-los, sabê-los virados do avesso, saber também que um travesseiro aconchegado pelo abandono das borboletas receberá o meu sono como uma espécie de punição por não poder respeitar os pedidos de quem me ama, que o sofrimento passa e pensando bem a nossa dor será talvez com certeza injustificadamente imensurável, que a nossa alma exulta-se dentro dos pijamas e dos poemas quando não ousamos cantar o que a noite nos acende nos dedos e adiamos a promessa de lírios para o dia a manhã ontem, porque isto agora único no meu espelho é demasiado violento e requer a sobriedade de quem não passa o tempo a fotografar jardins e sombras de sombras, e eu não posso, e não sei, porque eu penso a fealdade e insisto, abro feridas e deixo-as soletrar as ansiedades de um espectro diurno e apocalíptico, porque, enfim, há que cumprir o acordo umbilical e vilipendiar aquelas que se comprazem, valha-me deus, com morridinhas tão sumárias.

Transladado d’Os Funerários.



Virgo de Los,
every bone is sacred,
2009

31 Outubro 2009

FROM THE DEPTHS OF HEAVEN TO A HIGHER HELL


Oleg Paschenko,
Skeleton Lord,
2004



It was a grave, gruesome night, the night
He took Death for his bride. Her glance,
You see, graceful and bright, soon caught
Amazed the grieving heart of Jonas Blaze.

He was blessed, all right, though at times
He found himself asking, "Oh why, oh why
Am I to wander alone under a low perpetual
Twilight?" Great curse, indeed, never to regard
The light of day again, nightchild he was born to be.

An anguished crow, then, he is. Hush, baby, hush! Listen to this...

From the realms of darkness to a deeper night, I am a fucking angel on a ghost ride... Demonspeed! I wanna fight for love, I gotta free my pain. Heaven is a true hell on earth... and I have looked all over the place for you, got along with all kinds of scum for you, a fucking death dealer at heart, for centuries alone... The world is such a monstrous dungeon! The southern decay, the northern demise... I have seen it all, The Grand Collapse... I have learnt from Life in a damned, desolate ground.
From the depths of heaven to a higher hell, riding night after night, stunned by your horrid beauty, alas my mournful, solitary quest. For every face I meet holds a pungent memory of you, my love, my one and only... we are always and never... an endless crime. I am a ghost rushing to blast, a godless celebration of thee... Who will gather my poems for the very last seraphic call...? Help me to find my way home, a place that smells like thunder, a six feet under haven for me to call my own.

So whatever woeful your verse might be,
O noble reader, remember this his ghastly fate.
Tenderly drop your song upon his grief-stricken heart,
Thicker than blood, harder than rain, a blend of love and pain.

For his name was Blaze, Jonas Blaze. His curse to bear
The weight of eternity under a dimmed, perpetual twilight.


Happy Halloween!


15 Outubro 2009

"Choose life, choose poetry... Fuck it, I'll sleep on the floor!"




A moment of Zen!


08 Outubro 2009

OCTOBER SET FOR NONE




Acontecem revoluções e revelações no esfarrapado guarda-trapos que é a arca onde jazem por sepultar os meus ledos poemas suicidas. Soporíferos e fel. São os intervalos da chuva, quando a beleza encontro desfigurada no sorriso de uma criança, fotografias e bruma, e atenua-se-me esta náusea que é a febre de viver, coisa naftalina perturbante a penumbrear a minha divindade, evangelho demoníaco nas mãos abertas, a velhice antes de a escrever. Sou viciado nos precipícios da poesia, agrada-me o humor sepulcral, as águas que o Verbo soube revoltar e reunir. Tradução tramada, esta, a de agrilhoar a gárgula que treme de tanto rir a morrer, o seu dobrar subtil de sinos e a garganta, os grotescos requintes com que sopramos as velas dos dias. Tudo em movimento, assim a treva de ser pela clareza de espírito. A candura faz-se lúcida na voz a incandescer – e eu desço, desço sobre mim acima, estudo os limites da fealdade, apraz-me saber a falsidade tão verdadeira. Escrevo um lugar-comum: vivo de uivante esmiuçar a palavra obsessão e escrevo a beleza. É um enunciado. A criança chora. Mas o quê? Quem? Onde está a transitividade?! Sabeis porventura o que é um enunciado, o horror de enunciar em vão? Sim. Sem preocupações. Tudo é aleatório na sua transitoriedade. Assoma-se à janela; deleitamo-nos com o perfil ardente de uma pomba morta, já está, as nossas penas enfim transferidas, denotativas as lágrimas que soímos esconder. Simples, não? Então deitamo-nos, os abismos brotando e rompendo verticais, é uma questão de postura, saber morrer de pé; deitamo-nos e súbita sentimos a vertigem, a sóbria perplexidade, o absurdo junto à mesa-de-cabeceira e a tinta do vício. Toda a queda resulta em elevada matéria de poesia. Conseguinte, erguemo-nos; afrontamos no espelho a nossa face horrenda, a cruel e feminina intimidade, a intuição, dizemos: Eu quero-me a tua alma. E querer é poder. E poder é saber dizer. Ora diz ela que eu lapido firme a caveira muy fermosa, um cinzeiro de búzios esmeralda, que os meus beijos lembram formol, sanitas, sanitas, ó borboleta espampanante! A minha amada regurgita-me de ausência, o Mestre Geppetto passa as noites a vomitar; é tenebroso, não conseguir dormir... ansiolítico, ansiolítico... fracasso, versos, fracasso. Um terço da vida dedicado à mandrágora e ao talentoso punhal: sou um Pinocchio verdadeiramente desanimado. Help us, Miss Volt Dismay; put a quick electric smile on me! Imagine-se um nómada, alguém que errou sem jamais abandonar o desconforto do seu habitat. É um guerreiro, seguro, e alto. Assim os espectros, no serviço pós-operatório, the aftertrash they sleep. Só a chuva subsiste. Ah, mas na pluviosa passagem das horas, vislumbrando o horror no horizonte inflamado de beleza, as noites e o fim, o sémen e a lama, o niilismo de um cipreste, ó melancolia, quando ousares a chama ferir-te com extrema sensibilidade, verás, violenta a criança dormirá. Que todas as palavras são água, devir e trovão, os nervosos rumores de eternidade.
Acontecem revelações e revoluções no esfarrapado guarda-trapos que é a arca onde jazem hilariantes os humores de um suicida. Soporíferos e mel. São os intervalos da chuva: a pureza cuspida na face de uma criança, a treva de ser pela clareza de espírito. E como esta folha turva o verso que soube resistir ao entediante malogro de viver, eis-me febril na convalescença de lugar-nenhum. Todo o poema é túmulo, belo e guardado no coração.


Transladado d’Os Funerários.






06 Outubro 2009

PHANTASMORGORIA REVISITADA


Morticia Von Spinnweb,
Return of the Ghosts,
2007



Lâminas são,
Os olhos, Farol
Solitário que a janela
Oculta. O espelho não
Reconhece. Toda a bruma
Da História se esvai, quando
Ela emerge, Alva e Alma, ofício
Fúnebre e sacrificial da minha lira,
Dalyre,
Delírio e devoção.

Ouvi, mortais, a Voz do Mensageiro Cadáver...
É Fraternidade o que Ela canta! Ouvi, jamais,
A sua linguagem. Inconcebível. Mortificada, vómito
E verde, a Esperança é calamidades que a longa noite
Olvida ao morrer e renascer, perpetuamente, (Ouvi, ouvi!)
Na Face da oposição primeira,
Meu significante, meu significado:
Meu Amor.
Ah, debalde se esforçaram
Por violentar a funda pureza
Do nosso coração, «São fantasmas!
É fantasmas!» – gritavam. Prodigioso!

Como a humanidade bafeja famélica.
Tudo é fetidamente miraculoso,
A felicidade postiça, o céu,
A vacuidade de abismos...
Fantasma, eu? Não,
Jamais acreditariam
No meu olhar, Farol
Solitário que a tua face
Janela,
Canção
Devocional.

01 Outubro 2009

ROSA, ROSAE


Octavio Ocampo,
Mouth of Flower,
2008



Pétala
_____A pétala,
____________É desconcertante
_____O seu labor, um borboletear tonitruante
_____Sobre as faces, a beleza horrível, o devir
Num promontório rúbeo. Selvática e louca,
_____A boca aproxima-se, pétala a pétala,
_____Sobre a haste que treme. Sou a luz
Fulminante que repousa em seus lábios. Gota
A gota,
_____Esvoaça e cai.
_______________O artista regozija,
Excitado. Que fulgor baço, que fino traço
Teu pestanejar, borboleta rosa. O Horror.
Pétala
_____A pétala,
____________Assim o artista definha.
Jamais o Amor. Porque é desconcertante
O seu labor, um sublevar ágil e delicado,
Quando sobre a terra ascende, Rosa,
Rosae, a promessa de vosso Beijo.



30 Setembro 2009

GOSPEL


Aphariel,
Future Sound of Gospel,
2007



Damn!
'Tis that 03:30 thing
Again!

"Then some will disappear
So that you might grow"

I cannot stand
The burden of Time
Blurring my verse,
The vapid eternal
Deathlike manoeuvre
Faith demands.

A fucking prince through life,
Still a wealthy beggar at heart;
Tell us this illusion is over soon
So that no more shall we part.

For all is violence,
Virulent and vast...

Yet for all I strongly believe,
Brothers and sisters of pride,
A new gospel is at hand – alas!

Silence is a strange thing mystifying.

28 Setembro 2009

THY ULTIMATE DISEASE


Wolf, diabolus diabolum cogitat, 2009


Hast thou ever felt such wisdom of deceit?
When everything inside thee ceaseth to exist...
Yet thou betrayest thyself, ol' Mr. Cunnings, let alone
To learn from The Skull of Life how to devour thy soul.
Cold-blooded, creative and calm, cometh and assemble
Tribes of the endless dark, Legions of the ever-frost,
Saying: "All for one, and none for all!"
For we, the sombre dying merry-few; aye we,
The ones ought to prevail, amongst ruins, and lucid...
We art thy uttermost adversary.

(Know that Satan is mine host,
And I... I hate it too.)

25 Setembro 2009

AETERNA


09 Setembro 2009

Scared & Sacred

Para a Telmíssima



Wolf, my scarifice, her sacred vice, 2006



07 Setembro 2009

REMEMBER ME!

IN DOOM WE TRUST!




It's a great cold journey towards the heart of summer...
Frostbitten, a dagger dances down my spine – I shiver.
Yes I have played the Fool, a vast shadow has eyed me;
Whatever, this is perfect, rough and tight, an end to all
Hope – Shall I keep the ghosts hanged inside? Unforgiven.

For I will never know why some are driven like snow,
For I will never be the ones you have meant for me.

And though it looks like summer, you know
E. T.'s cold... Solitary souls never grow old.

They say between the lines one might behold
The symbol of life, signs from an after suicide.
I say there is a time to pray and a time to fear:

Ever asked why it perseveres,
A light at the end of the cold?

For I will never be the ones you have meant for me,
For I will never know why some are driven like snow.

It's a great cold journey towards the heart of summer.
Frostbitten, a dagger dances down my spine – I shiver.
Yes I have played the Fool, a blind shadow has eyed me;
Whatever, it's perfect, rough and tight, the end of all...

And though it looks like summer, you know
E. T.'s cold... Solitary souls never grow old!




O Anátema


Virgo de Los, the golden age, 2006

Como cantar a primavera, os silêncios de lírios,
se na garganta subsiste um pesado cilício outonal
que a queda convoca quando invoco a leveza do ar?
Falo angustiado e exangue o ventre aberto na palavra
pretérita, uma insígnia virgem, útero fértil, inocente.
Na ampla voz do estéril, fecundo húmus, renascerás
corpórea, vertiginosa e ascendente, com o teu signo
mais-que-perfeito, na minha poesia anatematizada.

O Código da Serpente (-6)

Because I do not hope to turn again
Because I do not hope
Because I do not hope to turn
Desiring this man's gift and that man's scope
I no longer strive to strive towards such things
(Why should the agèd eagle stretch its wings?)
Why should I mourn
The vanished power of the usual reign?


T. S. Eliot, Ash-Wednesday


Elsie Russell, Prometheus, 1994


Prometheus – True Liver Never Dies

Da Grande Noite, do Caos primordial, ensinaste-nos a prestar culto à liberdade e à rebelião. Vieste lamento na forja dos sonhos entregar-nos o Fogo, a vasta flamma, tão antiga como elementar. E foi assim que, da tua voz suplicantes, sapientes e flamejantes, nos fizemos Arte. Organizámos tumultos, negámos a autoridade e saqueámos todos os territórios que a mente permitiu; atravessámos a ponte em chamas e decifrámos os segredos escondidos nas labaredas das palavras; e escapámos à lava, só para mergulhar lá, mais à frente, onde a poesia nunca cessa, na lama. Sonhámos, mundos e mundos, destruímos. O teu fígado regenera-se, não por seres imortal, mas porque a tribo cresceu, sendo agora imensa a sua necessidade de sobrevivência. Venha a chuva, venha o sol, venha a lavoura e a colheita, agradecemos-te, Pai, a devoção e a crença no conhecimento. Admira-me apenas que, nas frias madrugadas cumpridas no monte Cáucaso, Tu, que significas a previdência, não tenhas sido capaz de antecipar a insolência de Zeus no bico solene da águia. Eu, encarcerado num rudimentar apartamento pós-salazarista de Coimbra, estrangulei um abutre com as minhas próprias garras. Os poetas, tal como os necrófagos, nunca dormem.


06 Setembro 2009

OUTRORA UM MADRIGAL

Se pudesse rasgar esta penumbra
que apaga a minha consciência, crescer e surgir
do esquecimento derrubando as cinzas,
desenterrando o pó que me cobre,
recuperando o brilho dos meus olhos,
seguiria os passos que me levassem
ao feitiço ignoto da vida,
lá onde a terra ainda resplandece
e o tacto nasce puro de novo,
para enterrar a condenação e esta dor selvagem
que uiva no meu silêncio com a sua voz condenada.

Justo Jorge Padrón




Para a Nave-Mãe, com infinito amor


Se esta lágrima que debalde nimba de azul
alta a janela na cave da minha funda solidão
fosse a reminiscência daquela primordial
aurora outonal e não esta núbia primaveril
cova em que deposito ao acaso a rosa
cruzada no alvor de um vertiginoso ocaso,
acaso compreenderia essa vespertina queda
uma terapia para o sono, um acordar de novo
a leveza que me permitisse cantar de profundis
o abandono do gás pela chama, essa fugaz e
perene dança que clama – às vezes, ao chorar,
inflama – a alma no crónico vício da lama?

Talvez porque a noite a vista dispa de ilusões,
sinto a neblina dissipar-se no fulgor da penumbra.
Como um escravo, vislumbro as vagas, vagarosas
impressões do crepúsculo; tacteio e escavo, rosas,
várias janelas dentro de uma só – a cega e funda,
aquela que dá para a cave da minha alta solidão.
Se as abrisse agora, em simultâneo, sei que jamais
dormiria ao relento, monarca subitamente súbdito.

Ah! Não me tivesse eu esquecido de vós – suave benzina,
doce benzodiazepina – no minúsculo guarda-almas da vida,
ainda hoje o meu canto tornaria, tornado raro trovão na voz,
a libertar mais do que um grito amorfo neste outrora radiante
madrigal onde, por ora, ora inaudita a súplica de um condenado.



02 Setembro 2009

2 a.m. oceans lover

Misha Gordin,
The Liquid Shadow,
s/d

Para a Cláudia, my lil siztah


in the still of the night, when daily motions grow
wild and deep, the grave-eyed maelstrom rises
half-awakened, half-asleep, a tumult of shadows
in a room by the sea. dare i witness, rather than see,
the proud oceans weep, all at once, over lost unity?

on secure streams, this illusion i hold...
the breaking sounds of millennia flow.

o profane howl, come swallow the earth again!
let the thunders sing haunted, in tenses hollow,
unique, the forgotten tunes of ancient birth magic:
may the waters breathe still, asleep profound, under
will, binding the future towards a far long distant past.

on lucid dreams, this closure i blow...
the eternal waves at my heart and soul.

blinded by beauty, 'tis oddly tragic to a emotions lover
to depict such clarity through the eyes of maelstrom;
but in the still of the night, when daily motions roar
wild and deep, some stay half-awakened, half-asleep,
writing their very own darkness in a room by the sea.

on desert springs, this grace i heed...
the vast oceans are flirting with me.


01 Setembro 2009

SMALL DEATH LINKS

IV.

Sabiá de setembro tem orvalho na voz.
De manhã ele recita o sol.

Manoel de Barros, Concerto a céu aberto para solos de ave




TRANSFEARHENCE

Tudo jaz sentido na pacatez das nossas vidas, as apressadas prelecções junto à paragem de autocarro, os eternos breviários de esplanada, a indisciplinada descarga horária. Significa-se mais do que aquilo que se compreende, palavreia-se bucolicamente o bulício da vida, o que fazer depois de findo o comício de verão, debates televisivos e futebol, corpos e copos – a massiva selecção. Amortalhada pelo défice, pela gripe negra e pela política do medo, a populaça lá vai acomodando a digníssima ausência de sonhos à vagabundagem rã: saltita-se, de ficheiro em ficheiro, pelas metáforas da moda, pois o que são as transferências chãs quando se programa digressivamente vertical o sonambulismo, sondando hipotética a hipnose das nuvens, buscando o consolo e o entendimento divinos, os quais, como é sabido, não acontecem. Com a idade, porém, tornamo-nos mais constantes e sagazes, quase felinos na nossa intuição vigilante. Lemo-nos e relemo-nos sem grandes esforços, conhecemos a transitoriedade de trás para a frente; escrevemo-nos nas horas. Sabemos a passagem sem preocupações, todos os momentos áureos e de infinita tristeza; falo da morte, a morte repetida, a morte que, todavia, se evidencia nos mais ínfimos e terrenos pormenores, nas pequenas despedidas. Os fazedores pressentem-na quase involuntariamente: um tremor na espinha, o torso dobrado, a língua revolta e a garganta seca. Daí que não raro os encontremos estarrecidos, ao final da tarde ou pela manhã bem cedo, num qualquer passeio mental, anotando a passagem dos dias. Eu chamo-lhe «o estado de ligação», aquele período em que a poesia precede o tempo, remetendo para o olvido toda e qualquer definição de liberdade ou de esperança. O mundo é uma prisão – mas existem males piores.
Da minha janela, avisto o Astaroth, um gato de rua que já por diversas vezes alimentei. É diabólico, o mefistofélico, sempre de um lado para o outro, um autêntico black dealer, seguido por um sem-fim de acólitos quadrúpedes; tem muito sangue na guelra. Naturalmente, como líder nato que é, corajoso e sábio, o Astaroth é objecto de admiração não só por parte dos gatos cá do burgo mas também de certas felinas que por aqui se passeiam, as quais, reconhecendo-lhe carisma e poder de sedução, não o largam, não sendo por isso de estranhar que volta e meia apareçam uns demoniozinhos que em tudo se lhe assemelham. Como calcularás, quem não acha de todo piada alguma a este agatamento são as minhas vizinhas, que é isto, um fora-da-lei a emprenhar as nossas aristogatas… De modo que, depois de ouvir falar de certas sevícias contra o bichano cometidas, nem por acaso dou com ele há uns dias estendido na sombra de um passeio. A primeira reacção foi de surpresa (julguei que dormia, ou que repousava de uma de suas incessantes caçadas...), ao que se seguiu o inevitável reconhecimento. Senti-me triste. Mas isto, como diria a vizinhança, é uma pequena morte, sim, mais uma pequena, inofensiva morte, uma que eu, muito pós-modernisticamente, arquivo na fria lápide de um ficheiro, com requintes de jazigo. Enfim, se não for eu, quem o fará? Adiante. A alma, antes de tudo: óbulo-poema na testa ferida, miau amigo, e aí vai ela, egípcia e ciciante, ao encontro das que a esperam, ronronantemente, no kittiegarden dos deuses felinos. Quanto ao corpo... bem, o quintal da vizinha daria um esplêndido local para a passagem. Também eu, de facto, já lá mi'ei. De passagem, como é evidente.


Transladado d'Os Funerários.




XLV.

Fui convidado pelas aves para ser árvore.
Eu sofro preferência para pedras.

Manoel de Barros, idem




ODE TO A PASSING BIRD

There is a lot of talking on how to save the world.
There is the great old oak position, firm and stern,
Then the human perspective: bricks and stones.
Hear me, everybody: do we need more stones?

I want to see the world painted white. Yes, I do!

So I paid a visit to the great city, absorbed of all,
Wanderer, crossing the ultimate, unlimited desert.

Perhaps to sing a rock,
An ode to the core.

"O how lovely, the birds are speaking
Their minds about the road engineering;
And the grasshoppers, and the crickets,
How sweetly rough is their singing..."

We are here today, in this hard covered Moleskine, to celebrate the passing of the most beautiful word to the other side. Quite an exhibition! Tell us, beauteous dove, how do you feel to see your skin trampled by human feet? Your holy gruuail eaten by all kinds of flies, your song muted, a landfill outdoors, the vast sepulchre of the city.

"O how lovely, the birds are speaking
Their minds about the road engineering;
And the grasshoppers, and the crickets,
How sweetly rough is their singing..."

There is a lot of talking on how to save the world,
There is the great old oak position, firm and stern,
Then the human perspective: bricks and stones.
Come on, everybody: we do need more stones.

Who wants to see the world all painted black?

Back on the road,
Farewell my friend!
I will hold my tears.
This is not the palace,
This is not the time.
I will hold my breath,
For my destiny is set...
Got some tar on my wings,
I swear it is not mine.
I am just an asphalt keeper,
A poet passing by a passing bird.

Roadkills!
Odekills?

Would I be a gardener...?


30 Agosto 2009

Poema suicidário


George Frederic Watts,
Hope,
1885


Para o Black Rider


E se deixássemos antes O Talentoso Jogador
rasgar, enfim, os olhos ao Poema – o livre arbítrio
encenado... A Sr.ª Dona Vida, mui voluntariosa,
decerto sucumbiria à mestria do Punhal.

E se deixássemos nas trevas, na clandestinidade
ampla, a voz que consignamos à consanguinidade;
no Poema ouvir mergulhar-se – em queda atípica
profunda – a nossa Ferida com ânsias de sangue.

E se deixássemos antes, Íntimo Poema,
intimada a súplica deste que ora passa –
breve e rasteiro, como um ligeiro bocejo,
este que não mais quer senti-lo Solidão.




28 Agosto 2009

O Deuteragonista


Virgo de Los, one of these days, 2007


Não sei se estás a ver, infante perdido, a minha luta foi uma vida pela Liberdade e pela Justiça. Fracassei, dirás, que era empresa demasiado arriscada. Que tudo é vão. Digo-te que não. A palavra-chave é dialéctica. Pois sim, assaltaram-me a casa dos sonhos uma porrada de vozes, sim, as minhas convicções mil vezes violentadas pelas perniciosas superstições dos catedráticos e dos imbecis; mas nunca desisti. Cedo na adolescência lançado à lama citadina, não esqueci contudo as minhas raízes beirãs, a infância pobre e maculada de Lamosa, a sua inocência deslumbrante e a minha insaciável fome de conhecimento; lembrei-me sempre, nos momentos de maior aperto e desespero (e tu conheceste alguns, criança arguta e expedita que eras...), dizia-te, lembrei-me sempre da pureza das víboras e da prudência das mães, e que a casa havia de regressar um dia, derrotado mas nunca vencido. À hora a que te escrevo, não sei se cheguei a voltar, se não. Porém, aprendi contigo, creio no poder mágico das palavras.
Tenho pena de nunca ter compreendido o quão fundamental era para ti o estudo das alterações climatéricas da alma humana. Como entenderás, tal foi labirinto que não soí percorrer, posto que a militância política, o marxismo-leninismo e o materialismo dialéctico sempre exigiram que me mantivesse fiel a um só caminho. Limitei o meu saber, reconheço, ao fechar as janelas aos mortos, mas a urgência de no hospital dos vivos sobreviver privou-me dos prazeres do espírito. Todavia, convirás, olvidando os melindrosos meandros da alma, safei-me de desgostos maiores, para não dizer «de pior sorte», expressão que tanto te encanta.
Dito isto, abro neste parágrafo algumas luzes que, julgo, poderão servir-te de utilidade no futuro: os geniais cadernos de Lénine que te deixo, lê-os (começa pelo sexto tomo, que privilegia aspectos de reflexão literária... atenta na profundidade de raciocínio do homem); aventura-te no Vaneigem, o Lefebvre... recupera aquele livrinho,
Le Crépuscule des Philosophes... descobre igualmente os nossos filósofos e pensadores, o Sampaio Bruno, o Agostinho e o Aquilino (estes são essenciais)... Não condenes a tua vida unicamente à poesia e aos clássicos. Vai ouvir Ravel; bolera-te e larga o bolor, rapaz!
Lego-te este breve apontamento póstumo para que saibas que fui apenas um de muitos justicidas que indagam a Verdade nos confins da ignominiosa mentira da humanidade. E como eu lutei pela Fraternidade e perseverei, também tu, perdido infante, hás-de encontrar um cárcere por que combater.
Vero, ass, assevero-te que sim! Lembra-te tão-só da minha lição, um dia destes, no rascunho do teu poema, eco de trovão universal.

18 Agosto 2009

VIOLETLY



Descending violet from violent skies,
A girl gleams in horror, holding
A purple, dismal light.
Throughout the landscape did I sense
Her cool essence, nocturnal breeze;
A withered flower scent, one sent
From the purest bough.

Messenger of perennial twilight,
Come haunt our foes on this
Great dreadful hour; yearn
For their souls tonight,
Their little
Bitter
Mistletoes.

Come violent upon the world's abattoir;
Sing the slaughter of the stars on this
Our darkest night; for when you cross
This gloomy, insipid land, (O sick girl!)
A scent of violet on a white red bough,
Chanting the angel's wrath – I know
You carry a light from below,
Like the blade above my cold wrists
Playing as though a hopeless violin
From deep within ascending...

The grand sad bewilderment of God.


13 Agosto 2009

AND AUGUST FOUND ITS WAY HOME


These are the seasons of emotion
And like the winds they rise and fall
This is the wonder of devotion –
I see the torch we all must hold.


Led Zeppelin, "The Rain Song"


Fotografia de Virgo de Los


Parecia um dia razoavelmente rendido. Entretivera a minha tristeza a catalogar caixotes e mais caixotes de livros, separando e folheando alguns ao sabor do acaso, organizando-os por temas, redigindo as minhas devotas fichas de autor... enfim, diletava-me com os talentos que fundamentam a minha neofitidade. Tudo decorria conforme o tédio teorizara e eis que de súbito ouço lacrimejar lá fora. Será chuva? A minha querida chuva de Agosto? Tomado de assombro, como uma criança que depreende o medo à custa da beleza, desato a correr para a varanda e vejo-me assim, prostrado sobre a fria laje, a chorar. Chovia. Abundantemente, chovia. E como ela vinha!... Sorridente como um trovão na displicência das horas, silenciosa como uma maré rompendo a complacência dos sentidos. O cheiro a terra molhada, o bosque que avisto do meu quarto, fresco e húmido... Poucas coisas nesta vida me fazem ainda parar e acreditar. A chuva é uma delas. Lembro-me de, em criança, passar horas à janela a vê-la cair; inundava-se-me a alma de poesia, a mesma que gostaria de saber contigo partilhar. Mas o talento troquei-o pela vida outonal, e os filhos de Setembro são como um dilúvio por sobre a terra a cobrir, sigilosos em seu dissídio abissal, são algo que ruirá se pronunciado. E a chuva, neste dia que julgara irremediavelmente estéril, deprimido – trouxe-me um poema, Agosto plúmbeo, e motivo.


Photo by Virgo de Los


A SUMMER CAROL

Sparkling sorrow at my windowpane,
A widow's curse, the ol' forgotten names
Of Silence and Pain, hence She came,

In a black Sumerian dress, sweet Caroline...
Languid and depressed, muttering long gone
Lullabies, speculating about the end, the Fall...

Announcing the upcoming death of Spring,
Covering Her bruised utmost temple in vain.
'Tis the seasons misfit, the dark mystic ways,

She said. This is nature's downfall, you see?
The crimson heating night they all deny. In
Sorrow, some of us will die – let alone those

Who ghastly survive. Desolate and bitter,
'Tis a widow's curse, to writhe and name
The seasons turning in a lost dead world...

So throughout the graves, a last odyssey,
Sparkling gracefully at my windowpane,
I have found a way home. Cthulhu calls!


THE PHANTOM POSTS

10 Agosto 2009

A Ceifa




09 Agosto 2009

THE PHANTOM POSTS

08 Agosto 2009

DIES IRAE


«Nada roçará mais o maravilhoso do que ler uma paisagem com grão de areia enquanto se arreia o calhau.»

The Nihillusionary Project




A SUM OV SEVERANCE

Às vezes «Olá!», quase sempre «Bom dia!»; chegada a estação da febril ironia: «Como tem passado?». Brindo assim os atónitos transeuntes que as minhas feridas estancaram entre as dez e as onze da manhã. Salvo erro, que, como se verá, pequeno não há-de ser. Trinta e três graus à sombra. É de enlouquecer, diz alguém que por aqui desfalece. Enfim, o que é preciso é usar a imaginação, penso eu. Eu que, já agora, bebia vinho, um vinho barato, por certo, uma autêntica purga mas nem por isso menos fresquinha. Eu, uma esplanada deserta. Há muita reciprocidade entre dois ou três copos vazios, se ao tédio e aos mistérios da existência nos entregamos. Eis como, porque sondasse o suor dos anjos, um sujeito, soube-me cabo-verdiano, Amílcar do Céu, caiu sobre mim. Não te assustes, peço-te. Digo: «Caíste-me do céu, ó Amílcar!», ao que ele responde: «Sim, e descubro-me em ti alguma pureza.» «Isto? Isto é vinho, homem! E do mais surrado que pode haver!», opino eu. Veja-se, pois, como os anjos, antecipando o verão, vêm visitar a bela merda. A porcaria invoca sempre porcaria, já o dizia a vozinha.
São engraçados, os retalhos humanos: desgraça atrás de desgraça, aquilo que desejam à noitinha afugentam pela manhã. É o susto e o espanto, a comédia ridícula de suas tristes alegrias. Passam lentamente apressados. Porém, nem tudo é falso, se nas veias flui um álcool verdadeiro. O indivíduo rude e grotesco que se agiganta por detrás do balcão – uns tratam-no por Sr. de Deus, outros dizem ser «o filho do patrão»; eu aceno-lhe, nunca fomos apresentados – está farto de me ouvir. Pago-lhe o que devo, apago todos os detalhes; o tipo é um idiota e eu, bem, eu sou um poeta – incomodam-me pouco as deferências, respeito as diferenças e os credos. Cospem imenso, vomitam bastante sobre a minha humana fixação. Penso na redenção... Ora aí está um problema fodido. Adiante. Mas – que é isto! – eis que cai no meu colo uma folha amarelecida, no meu colo figurativo, cesariano, repleto de palavras bem maduras. E este poema, tão terreno, aqui no meu colo, tão in loco, também ele há-de ser eterno – assim eu o sou. Não sei se me aborreço com um pé para a cova, se ainda movo um braço no útero. Será líquido amniótico o que eu imagino beber quando estrago o corpo com cocktails mal conseguidos? De que cor serão os sonhos que vestem de negro os dias? Vem para dentro, meu amor! Apelo d'Aurora, quem lhe pode resistir? Temos bolinho de bolacha e batido de morango, que tal? Yuppie! Time to wake; some would say a bad dream, not me.


Transladado d'Os Funerários.


A TOMB TO DAY


A Raul Solnado (19.10.1929-08.08.2009), com funda admiração


Fotografia de Virgo de Los


Epitáfio

Abrindo o espelho, o velho sonhador
Sorriu. Era de um sono azul a sua vida,
Um dolo de mágoas universais tornado
Conceito de comédias, dramas e sonhos.
A humanidade ergue equívocos em redor
Da sua divindade – é o pesadelo milenar...
Assim lenta se decompõe, jamais a palavra
Do sonhador. Porque o artista espelha
O riso que a endeusa. Vita brevis est.


Fotografia de Virgo de Los


Cenotáfio

Autofagia – eis a questão essencial. Nem a Senhora Dona Vida, nem a sua consorte lasciva, colocam qualquer outro dilema. Tenho reflectido, leviana e preguiçosamente, o entretenimento da minha morte. Em cada funerário, noto agora, um túmulo vazio. Daqui resulta que não presto atenção alguma às que me amam – não presto, ponto. O Little Miss Merry-All! Would you marry me? O plúmbeo deserto nupcial, a lança nos dedos gretados, concomitantes, os poemas no altar depostos. Vivo a traído o caprichoso desconcerto de mim; acordo em desacordo comigo e, por consequência, contigo. Ela diz que vá ao psiquiatra, que substitua os termos da vida mortiça, que ponha termo ao sofrimento obtuso e abrace uma felicidade postiça. Tudo é uma questão de crença, diz ela. Crença!? Eu, que desejo simplesmente devorar-me através da escrita. Crença… Foda-se, apraz-me exclamar, anda para aqui um gajo há quase duas décadas a inflamar a alma de beleza, a possível – e depois ouve isto! Eu, que em cada funerário, notei há pouco, erijo um túmulo vazio. Enfim, isto é preciso é viver com uma lata de conservas no lugar do coração. Um 'peacemaker', alguém diria.
As criaturas que me são menos afastadas, têm imensa piada – diz que quer morrer, tudo um suicídio de esplanada que dura enquanto o fino engrossa, gente com o equinócio no cio. Mas eu, que julgo nutrir por elas um afecto não desprovido de alguma admiração, não estou compreendido: acostumei-me às pequenas mortes, à subtileza de sonhos fracassados, à desesperada perdição na palavra proscrita. Distancio-me, depuro-me com requintes de sofreguidão. A minha vida, nada, nem um funerário que me valha – tudo um tumulto insípido. Já não te tenho como te tinha, diz uma fotografia que me vem envelhecer as mãos. As mágoas alucinogéneas, as águas gémeas, negras e pesarosas, o álcool e a solidão, o ciclo vicioso da infância eterna nas minhas rugas repetidas. Como eu desejei poder escudar-me num poema, imaginar-me dotado de profundidade... compor algo que realmente doesse. Talvez devorar-me e doar o meu abandono ao lixo que cobre a terra. Sim! É isso! Despojar-me da tralha multa, reciclar os esboços, o entulho literário, a memorabilia de perpetua vigília, o absolute nonsense, os crimes pretéritos e por perpetrar, os lugares-nenhuns, os bolores e as dores, as enfermeridades várias, as infindáveis listas de riscos perdidos, os traços e as traças, as coisas inúteis, enfim, os desapontamentos, os lamentos @ al one leaves behind. Porque eu sonhei-me nómada para ter um nome, um destino – e em cada funerário, nota de nódoa, jaz um túmulo vazio.


Transladado d'Os Funerários.


A moment of Zen!



A ouvir Camané, Sempre de Mim.

A Vésper


This ain't no universal mastermind
This ain't no projection of one of a kind
This ain't no religious highway
No, this is just another Sunday


Tiamat, "Via Dolorosa"




REVOLUÇÃO DOMINICAL

(anseolicticus pro defuncti)


«Rebela-te!», gorgoleja o Grande Pavor do Mundo.
E o meu coração, despertador sem bateria. O Medo.
É tarde! É tarde! É muito tarde! Vão, ouço arrastar,
Do outro lado do espelho, sinal dos tempos ao fundo,
O admirável Templo da Ressaca Sabática. Contemplo.

(A etilização cultural que acusa o digníssimo Reino de Nosso Senhor Dom Portugal, exponenciou a embriaguez em que escondo, esgoto, o meu desgosto.)

A procissão que ora prossegue, nunca avistou o adro; fogo-fátuo
Que arde baixinho e solene, sobre cinzas remotamente encobertas,
Caminham lentos os cadáveres a sua lenta travessia no deserto...
A indiferença, a impotência... Ó cio de sofrer! Mas eis que se chove,
Se troveja e sobretudo se o não trazem, o consolo pouco, chamam-lhe

Vida. «Rebela-te!», dizem dela:

Que a Mãe Natureza é bela e generosa e que morreram milhares e milhares de espermatozóides para que tu pudesses estar aqui; que fluem milhões e milhões de glóbulos e cancros nos teus dilemas arteriais, tudo parcimoniosamente predestinado e geneticamente estudado. Ah, universal filho de Deus! É o mundo globalizante, leio no semanário rasgado; «É a crise! É a crise!», lança um desempregado, mais um fora do mercado... «É a vida», suspira o suicida. Três crianças por educar, tristes hipotecas várias.

A VIDA! A VIDA! A VIDA!

Ainda hoje, pela madrugada, uma cinderela aflita afiava as lâminas de escrever
Na roca de um fuso. Oh, incauta donzela! Que malévolas intenções as das putas!...
E o teu coração? Despertador a pilhas... A sociedade, o consumo. Felicidade, pois.

Mas agora é tarde, muito tarde. O fogo-fátuo dos passantes soergueu-se; aqui vão,
Amortalhados neste fim de tarde ébrio, almas sujas. Ardem, os veraneantes felizes.

Ah, Soledade!

Poder engolir-me num belo dia de Agosto, um daqueles cálidos de morrer...
O Almada Negreiros rodopiaria mil piões nos balões dos seus calções, e etc.

PIM-PATAPA-PATAPAM-PUM-SPLASH!
(Chovia.)

O Sá-Carneiro derrotaria a Sombra, sorriria e faria um belo pinote introspectivo.
O Pessoa diria que não, que não pode ser, que não há coerência e que somos carne para tubarão (a menina Ophélia fê-lo jurar que não mais diria que não somos nada).
E eu, e nós, e eles que não sabem de nós, sobrevivendo em um Setembro tão distante...

Ah, Saudade!

O meu coração ameaça despertar. Não pode. Não hoje. Hoje é dia de morrer.
Não gorgoleja mais o Grande Pavor do Mundo; estrangulei-o. É dia de morrer.

A VIDA! A VIDA! A VIDA! A VIDA! A VIDA!

Que seja pois O Dia de um grande clássico:
Um Rei Édipo, talvez, um Rei Lear...
Um Benfica-Sporting, porque não?

HOJE É DIA DE MORRER!!!

Assim que se te imaginares, irmão d'esgoto, no meu desgosto outro,
Pária foragido à travessia no deserto e solando a neve no horizonte,
Então tu, insatisfeito inimigo, morrerás junto a mim, isolados enfim.

Do outro lado do espelho, humpty dumpties clarecidos, solipsismemo-nos alicemente, brincando aos castelos de cartas viciadas, aos chás e às cartolas loucas, ao ilusionismo felino e ao contorcionismo verbal, quais ostras de Deus que somos. Deixemo-los tragados por sua ressaca mundana; o embrutecimento da turbamulta ocidental, para quem tudo é acidental – o acaso, o destino, as benzodiazepinas, e até a crença num oriente próximo.

É tarde! É tarde! É tarde!

A VIDA! A VIDA! A VIDA!

PIM-PATAPA-PATAPAM-PUM-SPLASH!

(Silêncio)

O Domingo é um dia magistral.
Residência de novidades e repetições,
Repositório de infernos e outros lamentos.
Mas amanhã...

Amanhã voltaremos à escola; ao trabalho, camaradas... à vidinha, suplicantes!
Que todos os nossos problemas se resolverão, conquanto saibamos enfeitar a carcaça com os adereços mais subtil-o-imbecis e sair para a rua de revólver na mão.

A Vida é Bela! A Vida é Bela! A Vida é Bela! A Vida é Bela! A Vida é Bela!

(Ruído)

PIM-PATAPUM-SPLASH!!!

O meu coração inaugurou-se. Espesso como a cegueira, puro como a noite primeira.

E no início era a Neve.


Marc Adamus, Chosen One, 2008

07 Agosto 2009

THE PHANTOM POSTS

31 Julho 2009

A DOOM TO CALL YOUR OWN ('POST IN PROGRESS')


«Evidenciar-se-ão assim, sagazes, as fecundas raízes do nosso berço babilónico.»

The Nihillusionary Project

Live by the Word, die by the Word!

Dead Poet’s Sobriety




Dark Psychosis, The Beholder, 2007


THEE K OBLIGE

«O mito é o nada que é tudo», escreveu Fernando Pessoa, provavelmente num dia em que o ensopado de borrego lhe caiu mal. São assim, os génios. Quanto a mim, não te sei dizer por que carga de sangue a Grande Mãe me arregaçou a vida com o ofício da poesia, o labor da palavra e do sonho; sei, contudo, que o meu primeiro contacto com esta arte se deu quando, ao folhear ao acaso um dos milhares de livros que a minha preciosa ascendência me legou – na circunstância, a Mensagem – me deparei com aquele verso grandíloquo e sublime que dá o mote à obra. Ora, quando um puto, ainda mal iniciado na impiedosa adolescência, mas já imberbido da ameaça de estupidificação que paira em redor de si, começa a interessar-se pelo «fazer» verbal e apanha logo de chapa com uma sentença daquelas, compreenderás que dificilmente volta a dormir sossegado. Seguro. Encontrara ali, pois, o verso que serviria na perfeição a minha concepção de poesia. Ponto. Dois: algo que então desconhecia era o abismo imenso que iria certo encontrar: espaço de pesadelo e maginação, veneno e cura, o que é facto é que não é impunemente que alguém se dedica a fazer da sua morte um poema. Em todo o caso, misticismos à parte, sou um gajo que, ainda assim, se rege pelas leis do livre-arbítrio, o que, como é natural, já me custou uma avalanche de problemas, fora os dilemas, que, como se sabe... Mas adiante, que não era este o desígnio das palavras que queria hoje deixar-te. Dizia eu há pouco, portanto divagar, que a minha incursão primeira nos terríveis meandros da poesia passou por Fernando Pessoa e por esse pequeno grande livro que, ainda hoje, considero o mais singular fio de Ariadne a envolver o glorioso manto de retalhos dourados que é a Literatura Portuguesa. Porém, foi com a Ode Marítima primeiro, e com Ricardo Reis e Bernardo Soares depois (o Livro do Desassossego, aliás, inspirou a escrita d'Os Funerários), que concluí: «Ok, isto há-de ser a morte de mim.» Fiquei, como calcularás, extasiado. Comecei a ler toda a poesia que apanhava lá em casa – o Cesário, o Cesariny, Sá-Carneiro, Lisboa, o Gomes Ferreira, a Natália Correia, Gomes Leal, o Antero, o Al Berto, o Herberto, o Herbert, o Wordsworth, Eliot, Yeats, William Blake, Emily Dickinson, Verlaine e demais franceses chanfrados, o Rimbaud, Baudelaire, eu sei lá, Homero, Safo... até a desgraçada da Florbela Espanca li, vê lá! – era uma loucura; dispus-me, depois, a estudar diversas gramáticas (algumas bem chatas, por sinal) do ofício; e desatei, por fim, quiçá inadvertidamente, também eu a escrever qualquer coisinha. Passou-se que, certo dia, bêbado que nem um ataúde (quando me movia já como um batráquio num pântano de cerveja, diria o Herberto), peguei no meu entulho literário, já uma quantidade considerável, e não fiz mais nada: queimada púdica. Arrependo-me vivamente, claro está, mas, enfim, sou um tipo ensandecido e bastante impulsivo. Já em 2005, depois de meses e meses de estímulo por parte de um amigo e companheiro da palavra, o Black Rider, para que escrevesse um blogue, que talvez houvesse gente interessada, súbito passeou-se-me uma nefasta apreensão pela bruma encefálica: «Isto é que ele vai para aí uma cambada de necrófagos esfomeados, hein?» Pois bem, conceito para aqui, conversas wolferinas ali, e eis que nascia este meu apertado covil. Não sem antes, como quem me conhece o corroborará (corroborará?!... a língua portuguesa é muito... pois), ter estado um par de meses a ponderar se devia, se não devia prosseguir. Receios de um espírito macambúzio, julgo eu. Todavia, parece-me que terei deixado aqui o melhor (melhor, o melhor possível) da minha poesia de adolescência, mais ou menos trabalhada, claro-escuro, mas nem por isso pouco ingénua.
Paragrafeando, para certas alminhas não virem acusar mim de não saber o que é um parágrafo. Pouco tempo depois de ter criado este blogue, que nunca consegui gerir como deveria ser, já andava a pensar em erguer um outro, mais interessante, desejava eu, sobre algo que sempre quis escrever mas para o qual ainda não me sentia devidamente preparado. Sou um amante fervoroso de poesia medieval galaico-portuguesa; daqui resulta que foi criado, em Junho ou Julho passado (há um ano, portanto; repito, capitalmente: HÁ UM ANO!!! Pena capital, sim, mas com adoçante, por favor...), um blogue assim baptizado: TROVAS/TREVAS. (Aliás, se consultares o perfil do The Poisonous I, verás que não sou assim tão mentiroso. Dissimulado, sim; mentiroso... olha, whatever.) Dizia-te que havia criado outro blogue, leia-se antes, criou-o o Wolf, tal como este, que eu não percebo nada destas modernices, templates e merdas do género. (Eu é mais escrever, lembrando o outro.) Ora acontece que em Outubro último apareceu para aí um blogue – se sentires dificuldades umbilicais, o blogue chama-se O BAR DO OSSIAN – que me anda a tirar o sono e a desejar nunca ter abandonado o fórum da «auto-estima deplorável». É que quando leio textos com a qualidade, por exemplo, dos de um Jesus Carlos ou de um Vítor Mácula (já para não falar na classe da Antígona, ou da Bia); quando me delicio com os assombrosos trabalhos do Ruela ou com o supremo bom gosto da She... enfim, toda uma galeria de vultos ilustres –, dou por mim a questionar-me sobre a pertinência e a validade do TROVAS. Mais, tenho uma dívida tremenda para com o Klatuu, que não só é um notável escritor que me pôs (finalmente!) a ler Fialho de Almeida, como me tem incentivado sobremaneira a não deixar de publicar em blogues. É que já nem sei quantas vezes me terá ele convidado a publicar no Bar, e eu, que tanto quero ir para lá morar, junto de outras almas oceânicas, nada. Simplesmente, o que havia pensado por lá fazer já está a ser feito, pelo Horned Wolf, e para mais, sendo ele bem mais talentoso, tudo resulta lindíssimo. Refiro-me, como se entenderá, ao trabalho sobre as lendas portuguesas que ele tão devotamente tem erguido na sua rubrica LENDAS E FOLCLORE LUSITANOS. De modo que é assim, aquela gente vira-me do avesso com a sua arte – e eu não sei que faça. Ainda por cima eu, que tanto sonhei este encontro. Quanto ao blogue da Serpente, basta de irresponsabilidade e de preguiça editorial. É que se visses o estado em que tenho esta merda... tudo drafteado, pá. (Tenho mesmo de quitar o álcool e os drunfos, não se vá dar o descaso de quinar antes de obrar o que estrago em mim.) Isto posto, vampiro, vampira amiga, se te apetecer sugar qualquer coisita aqui do nómada, caso precises de algum plasma verbal e na eventualidade de ainda não teres recebido o teu – o sangue está caro, diz que é a crise –, deixo-te respeitosamente algum do meu labor funéreo. Nele encontrarás a escrita barroca (e bacoca) do costume, bem como o humor depressivo que tanto me apraz salutar. Chamemos-lhe «bolor fresquinho». Não te agrada a formulação? Buh! Ghosts não se discutem! Por conseguinte, e na impossibilidade de partilhar contigo palavras mais enlevadas, resta-me deixar-te um abraço ossudo e, pronto, despedir-me não já sem alguma saudade. Gostava de te poder ofertar uma fotografia do meu admirável focinho. Acontece que em todas elas surjo a fazer corninhos a mim próprio, e depois de há uns tempos ter assistido a mais um irrepreensível capítulo de Cenas da Vida Política Portuguesa, episódio 666 (como diria o Nuno Artur Silva), protagonizado por um digníssimo representante da escumalha que por aí prolifera, envergonhei-me de tal performance que fui ao ponto de deitar fora algumas fotografias minhas, guardando somente aquelas em que estou mais feio, para me lembrar de que a literatura salvou a minha vida. Mas, enfim, dou uns ares ao simpático amigo aqui de baixo. HUHUHUHUHUHUHU!!! Stay negative, brothers and sisters of pride. Galoremente vosso,

Nodula de Nomada





VIDA E OBRA DE UM POETA

Não descuido a minha obra. Deve-se velar por aquilo que conseguiu ascender, entre riscos e ameaças, às condições da realidade. Mas serão os meus poemas uma realidade concreta no meio das paisagens interiores e exteriores? Não possuo um só dos papéis que enchi; interessa-me a forma acabada das minhas experiências, e suas significações, mantida numa espécie de memória tensa e límpida. Os papéis, esses, estão em França (Paris ou Marselha), na Holanda, na África do Sul. Encontram-se nas mãos de conhecidos, desconhecidos, amigos, inimigos – e cada qual saberá usar deles de modo particular e, suponho, exemplar. Tirarão daí indeclináveis razões para a moralidade dos seus pensamentos com relação a mim e a eles mesmos. Não, não sei de cor as pequenas composições de palavras. Retenho a fantasia, a objectividade delas – ponto onde me apoio para saber que sou sólido, e tenho (ou sou) uma obra. Avancei muito no conhecimento da divindade, desde o dia em que escrevi um dístico na parede de um urinol de Lisboa até à minha obra-prima (um poema dramático), oferecida com maliciosa ingenuidade a uma prostituta nas docas de Amesterdão (ela não sabia português). Um poema desesperadamente religioso que falava do corpo e da sua magnificência e perenidade.
Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) – e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.
Foi assim que me pus a escrever – enquanto esperava a oportunidade de entrar numa casa (numa retrete, digo) ou quando, já nela, começava a pensar, a investigar, a decifrar, entregue e defendido na retrete, na profundidade que eu mesmo transportara ao longo dos anos, mal aflorada por instantes e agora enfim oferecida. O mundo não me tocara e fecundara em vão. Eu apurara a experiência, encontrara os meus centros. Levava tudo para a retrete: o amor, o terror, a grande cidade, o anjo da guarda com quem atravessara o bairro atulhado de putas. A minha obra nascia. Às vezes, no meio dos perigos, medos e vertigens destas experiências, olhava a cara num pequeno espelho de bolso, para ver se eu próprio me transformava por fora, ao sabor do sensível movimento do espírito, este conhecimento que ia ganhando da vida e da poesia. Vi que sim. O rosto anunciava com antecedência a chegada súbita de um sentimento muito agudo e quase doloroso das coisas, sua concordância e relações, a chegada da iluminação. Num dos poemas que deixei em Paris falo disto explicitamente, falo do homem vendo nos próprios olhos a nascente e brilhante imagem do mundo. É um bom poema em que trabalhei quinze noites seguidas, sempre sentado numa retrete da rue des Abbesses.
Outro princípio fulcral da minha poesia – o da Fêmea-Mãe – foi descoberto, imaginado, organizado e assumido na mesma retrete. Devo muito a essa retrete. Certas noites dava uma volta por Pigalle e estudava miudamente os cartazes nas casas de strip-tease. Absorvia a nudez retratada das actrizes como se absorve um plasma forte. Elas eram intérpretes de Deus. Via nesses corpos uma declaração divina, e o jogo espectacular do que chamam vícios era uma espécie de escrita manifesta, uma alusiva visibilização de Deus. E tudo isso me era dado como um caminho de conhecimento, uma complexa viabilidade. Todas as putas de Pigalle eram minhas mães; a carne fotografada, tornada viva em mim pelo enredo da comoção, era a carne-mãe, a matéria fundamental da terra. Deus instigava-me e amparava-me na descoberta e, posteriormente, na magnificação e glorificação do mundo.
Hoje, nada sei de quem me amou ou ama. Nada me reparte no tempo. Abro-me à unidade da vida – e amo o passado e o futuro com um só fervor: completo. A geografia não existe. Quem está em Joanesburgo e me ama ou possui um breve poema rabiscado nas costas de um envelope, ou quem me odeia em Roterdão e apenas tem algumas palavras sem destinatário, nada poderá supor da minha lenta maturidade. Esses papéis pouco valem, e esses sentimentos (de amor e ódio). Vale quem sou. Ultrapasso as palavras escritas aos trinta anos. O poema que agora escrevesse diria como estou pronto para morrer, referiria enfim a excelência do meu corpo urdido nas aventuras da solidão e da comunhão, e falaria de tudo quanto auxilia um homem no seu ofício – a ferocidade dos outros, o apartamento, ou o seu amor que, ferido pela ignorância, se inclina para ele, para o seu trabalho, o desejo, a expectativa. Morrerei como se fosse numa retrete de Paris – só, com a minha visão, o pressentido segredo das coisas.
E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.

Herberto Helder




Georg Friedrich Kersting,
Man Reading by Lamplight,
1814



Pergunta-me se os seus versos são bons. Pergunta-me a mim. Já antes perguntou a outros. Envia-os a revistas. Compara-os com outros poemas, apoquenta-se quando algumas redacções rejeitam os seus esforços. Pois bem, e já que me permite aconselhá-lo, peço-lhe que desista de tudo isso. Está a olhar para fora de si, e é sobretudo isso que não deve fazer agora. Ninguém o pode aconselhar, ninguém o pode ajudar, ninguém. Há uma única via. Entre dentro de si. Investigue a razão que o leva a escrever, veja se ela lançou raízes no lugar mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade; a sua vida, mesmo nas horas mais indiferentes e pequenas, terá de ser um sinal e um testemunho deste ímpeto. Aproxime-se então da Natureza. Tente então dizer, como o primeiro homem, o que vê e o que vive e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite por ora as formas mais comuns e correntes: são elas as mais difíceis, pois só uma grande força, já amadurecida, conseguirá criar uma coisa própria por entre a abundância de boas e por vezes brilhantes prestações. Evite por isso os motivos gerais e prefira aqueles que o seu quotidiano lhe oferece; descreva as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a fé numa qualquer beleza – descreva tudo isso com sinceridade íntima, tranquila, modesta, e para lhes dar expressão sirva-se das coisas que o rodeiam, das imagens dos seus sonhos e dos objectos das suas recordações. Se o seu dia-a-dia lhe parecer pobre, não o acuse de pobreza; acuse-se a si próprio, reconheça que não é ainda poeta o bastante para conseguir invocar as suas riquezas; pois para um criador não há pobreza e nenhum lugar é indiferente e pobre. E mesmo que estivesse numa prisão, cujas paredes separassem os ruídos do mundo dos seus sentidos, teria ainda e sempre a sua infância, essa riqueza preciosa e imperial, a câmara do tesouro da lembrança. Dirija a ela a sua atenção. Tente levantar as sensações submersas desse passado longínquo; a sua personalidade fortalecer-se-á, a sua solidão estender-se-á até se tornar uma casa à luz do cair da tarde ou do amanhecer, por onde o ruído dos outros passa à distância. E se, depois deste movimento de introspecção, depois deste mergulho no seu próprio mundo, se depois nascerem versos, já não lhe ocorrerá perguntar a alguém se eles são bons. Também não tentará despertar o interesse das revistas por estes trabalhos, pois vê-los-á como propriedade sua, natural e preciosa, como uma parte e uma voz da sua vida. A boa obra de arte nasce da necessidade. É esta origem, e nada mais, que determina o juízo do seu valor. Por esta razão, caro Senhor, não posso dar-lhe outro conselho para além deste: entre dentro de si e sonde as profundezas donde brota a sua vida; é nesta fonte que encontrará a resposta à pergunta: tenho de criar? Admita a resposta, qualquer que ela seja, sem a interpretar. Talvez venha a descobrir que nasceu para ser artista. Nesse caso, aceite o seu destino, carregue o seu peso e grandeza, sem perguntar por proveitos que possam vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo, tem de encontrar tudo dentro de si e na Natureza a que se uniu.
Talvez aconteça que, depois desta descida dentro de si e da sua solidão, tenha que renunciar a ser poeta; (como disse, basta sentir que se consegue viver sem escrever para não dever sequer tentá-lo). Mas mesmo então este exame de consciência que o insto a fazer não terá sido em vão. A sua vida encontrará em todo o caso os seus próprios caminhos, e que eles sejam bons, ricos e longos é o que eu lhe desejo mais do que consigo dizer.


Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta (Primeira Carta)





Há um cio vegetal na voz do artista.
Ele vai ter que envesgar seu idioma ao ponto de alcançar o murmúrio das águas nas folhas das árvores.
Não terá mais o condão de refletir sobre as coisas.
Mas terá o condão de sê-las.
Não terá mais idéias: terá chuvas, tardes, ventos, passarinhos…
Nos restos de comida onde as moscas governam ele achará solidão.
Será arrancado de dentro dele pelas palavras a torquês.
Sairá entorpecido de haver-se.
Sairá entorpecido e escuro.
Ver sambixuga entorpecida gorda pregada na barriga do cavalo –
Vai o menino e fura de canivete a sambixuga:
Escorre sangue escuro do cavalo.
Palavra de um artista tem que escorrer substantivo escuro dele.
Tem que chegar enferma de suas dores, de seus limites, de suas derrotas.
Ele terá que envesgar seu idioma ao ponto de enxergar no olho de uma garça os perfumes do sol.

Manoel de Barros, Retrato do Artista Quando Coisa




Marc Adamus,
The Shadow Realm,
2007



Ours is the will of midnight shadows...

Enter usurper to the phantom throne! Alas!
Behold how broke 'n' lone you have become,
So far, so dead, so cold, the bottomless hole
Of the earth, the throat of life. Swallowed in,
A deep ray of light lurks mad amidst the dark,
As tribes of vitreous 'n' ghastly eyes lead you
Into the shadows' trance. So then you dance,
Mute and wanderer, the week is over, no way
You are sober... 'Tis Friday the 13th, a night
So cool, so old. To remember the dawn of the
Earth and tomorrow the throne will be yours!

Ars is the veil of mist-like shadows...

Dance!



The Hangar 80's Movement, "Anthem"




Leonardo da Vinci,
Vitruvian Man,
c. 1487



Ao Klatuu e ao Erewhon, a crença


«A figura mais admirável é aquela que, pelas suas acções, melhor expressa a paixão que a anima.»

Leonardo da Vinci



THE VIPERUVIAN CAN

Encher o bandulho e defecar – eis a minha aliança com a vida, raison d'être de sentar o cu na retrete e obrar qualquer coisita, às vezes poesia... Poemas à insuficiência do espírito e à escassez de carne, odes à fealdade do corpo humano. Mens sana in corpore sano, my fucking ass! Eis a síntese do meu síndrome tumular. Morrer intensa e lentamente, escatologicamente; sobreviver como um parasita apátrida, dedicado apenas à grande casa fúnebre, ao mundo imundo, eterno vagabundo – violentamente insignificante nos seus atropelos sorumbáticos. Tudo é perdição: a náusea do tempo, o imperfeito e gemebundo universo... Abandonai toda a esperança, pois, se escrever quereis o paraíso invertido. Acometido de cogitações sombrias, também o poema nasce tonitruante – um acto selvático contínuo da putrefacção rarefeita e tensa, o belo e o sublime, (fatídico mas promissor,) o perpetuum continuum da merda e do sonho. Súmula do fingimento, agrada-me a metafísica simples da contemplação das fezes; saber-me doente, saber que da obsessão pela tristeza e da comédia compulsiva são feitos os verdadeiros filhos da Vida. Ah, quão sinistra é a chamada da Natureza. Sei, enfim, tudo é matéria de Poesia. Sim, deifiquei-me pérfido e vicioso na renascença de um verso desmedido, deixei-me de comedições trágico-românticas; generosamente cago alguma beleza literária, deixo qualquer coisa entupida de vitalidade, very anal, três magnifique, o uno indivisível: nada se perde, tudo se transtorna. Criatura essencialmente desprovida de espiritualidade, não se encontram em mim os mais leves vestígios de harmonia e proporção – ardi nos indícios de qualquer coisa; fui um suicida exemplar. Corrompido, habitei uma crença na profanação de preces e desejos, habituei-me à fantasmagoria das sensações, teorizei a premonição das cores, a pintura do negro deserto que é a minha alma. Comovido, adaptei o sofrimento à vã ternura de uma paisagem de poente; e lamento imenso toda a representação sofrível, a cegueira da manhã que assoma à janela e a escuridão vislumbra, a expressão acromática, o rosto taciturno, etc., etc. Eternal twilight rains upon my soul... Here I live again. Here I something. Leave us a Reign for the Broken, My Crimson Queen! A outra face do signo monocromático, o significante sem significado. A Escuridão. A devoção a tudo o que me assiste morrer. Saber que «isto» não é somente aquilo que nunca poderia ser, que a beleza existe e que o tempo tudo se permitirá destruir. Que o veneno cura, implacável. O texto da memória, purpúreo e ruminante, torna a casa e estrangula o apertado músculo da alma, a divindade lida e decorada, o nascimento sem morte, o poema essencial, o regressar ao jogo do sempre errar, nódoas de nómadas a riscar o monopólio perdido, o tribalismo original, a sinonímia antorísmica, o on and on and on... Hail to The Whatever People, Neanderthals of the mind, for centuries graced with death... May you enter The Great Alone – all for one, the way they fall. Já na infância me sentia outroramente envelhecido; cria na transmigração das almas, que todo um manancial de recordações se apossava de mim, justificando assim a minha solidão precoce. E a noite era espessa, e eu tinha muita pressa de saber quão graciosa me invadia. Não, não me arrependo de ter desenvolvido o laço, solenemente reconheço. Cresci, mais em espaço que em reconhecimento; estranhei-me; sentia como se alimentasse a alma uma corrente eléctrica – entre ti e eu, tive-me. Sei que nunca soube escolher, qui-lo todo e tudo levou-me a 21 gramas fundamentais. Desgostoso, entretive-me. Hoje, não há poema que possa reivindicar de todo; chamei belo ao que nunca compreendi. Abusei de Ti, minha musa. Vivo desamussado. Mea culpa ou má sorte? Acho que sim, talvez dormir. Também o Sol se há-de voltar a erguer. Lights out, vipers in... I know You can.


Transladado d'Os Funerários.





Gottfried Helnwein,
The Song I,
1981



I. PSICOTRAMA

Pour ye black souls of nay... Que o vómito universal flui ad infinitum magnânimo, ininterrupto, permiti, anjos d'esgoto, que vos interrompa e contribua, também eu, orgulhoso e gotista, para a vossa respiração graciosa e suja cumprir, no circo litúrgico da humanidade, a comunhão do negro Amor petrificado. Basta de bosta fiada! Suguei todo o sofrimento que pude e soube, em choldra alheia, entrever os perigos e as ameaças que semelhantes representavam. Saciei todos os meus desejos; imaginei-me mil deuses, classicamente sorrindo, brincando às sumérias olímpicas; per caritat, caramba, que eu hospedei a diversidade mais maligna e infiel que se possa conceber! Vagueei sempre in cognito; cedo preferi a sombra às gritantes e plásticas luzes dos ecrãs humanos, yet random’s never enough, is it? So in hunger, sehnsuchtado de todo e qualquer consolo, fiz-me à Palavra – ruí.
Quero, assim, na vossa conspiração conspurcada de pureza tomar parte, o imenso pó da eternidade reunir, incinerar o sedentário segredo do silêncio. That the sorrowful one lives on – and I will stress Her verse. Perdi-me de mim; renunciava a minha obscuridade aos paúis mais cristalinos, claro falava às águas escuras, estudava-lhes as vozes, a sua solidão entardecida, a sua linguagem encardida. Abandonei a demanda de mim, evadi-me algures pelo caminho; aborrecia-me o tédio, a vida light: a minha alma travessa não se coaduna com a rígida travessia da vida.
Hoje, definho; porfio a infância partida e o cordão perdido, o paraíso umbilical à distância de um nó; contrariando a criança que aprende a esticar o nylon dos sons e a pendurar no estendal das sílabas as suas palavras dilectas, coso os meus vocábulos desanimado, grão a grão, linho a linho, adivinho-me definhado, enfim. Escravo do Tempo, não amo, escavo ainda qualquer coisa intangível, uma preciosidade quiçá, a pérola da felicidade. Ela diz que eu ardo qualquer luzinha... que no fogo enfarto, bruxuleante. Ai, minha amiga, se tudo é belo e impreciso, improviso: deixa-me entrar dentro de ti, esconder-me de ti, deles, de mim. Avestruz? Truz! Truz! Can I come in? Manda-me, meu amor, que cante docemente o meu, o nosso tormento... Chega-te a mim, minha tão certa enfermeira das doenças que ando escondendo... Porque eu tive um sonho, meu bom velho ressentimento. Eu tive um sonho – e sem rancores, entretive-me a despedaçá-lo... for some fucking clarity, aye! Nas margens do erro da Liberdade, sangrei a minha palavra ansiosa. Porque eu fui Aquele que ousou mergulhar no silêncio alto do Vesúvio.




Virgo de Los, psyche, 2009


«O dia mais infeliz da minha vida foi quando ela, vendo-me chorar copiosamente, disse assim: 'Não chores, meu filho, tens toda uma vida à tua frente.'»


II. PSICOTRAMPA (Umbra et Cancro)

Nasci em 18 de Setembro de 1980, contavam-me três horas e trinta minutos da manhã. Foi um parto normal, anormal apenas porque moroso, duas horas de esforços hercúleos para ver se me arrancavam do útero original. Fodido. Note-se, ao menos, a determinação com que quis não partir, indeciso, para outra, prenunciando já as desilusões e os fracassos que aí vinham. A noite fez-me destro, a madrasta. Sei-o pois, assim que vim ao mundo, fiz questão de me masturbar, ainda agarrado ao nylon umbilical. O obstetra que fez o obséquio de me retirar da Nave tinha os modos de uma besta, o bruto. Tratou o leito que me embalava com o mesmo decoro com que devia tratar o cu da sua desprezável concubina. Foi assim que, recebida a ordem de despejo, indignado e ainda aquoso, a minha primeira atitude foi a de ejacular a meita simbólica para cima do magrefe. Toma lá disto, seu filho de um cristo! Ri-me desalmadamente. Depois chorei; choro sempre, principalmente quando recordo o momento em que uma imbecil criatura me violentou pela primeira vez. Tinha apenas um mês de morte. A hipocrática lição, essa, não mais a esqueci: aversão à humana condição. Era um juramento selado na escuridão, em segredo, evidente, que eu era ingénuo, não estúpido. Sabia que isto da vida mais não seria senão um predatório esquema ardiloso.
Passei, pois, a infância a problematizar o riso. Diletava-me com os filmes dos Marx, do Charlie Chaplin, elaborava listas de aforismos com muitas das apreensões desse genial boneco desanimado que é o Homer Simpson, lia as aventuras do Mark Twain (lembro-me de me sonhar um Huckleberry Finn...), depois o Cesariny, o Henrique-Leiria, depois o Faulkner e o Michaux, enfim, cedo compreendi que a palavra escrita seria o meio para, também eu, me tornar um comediante. Faltava-me apenas possuir aquilo que melhor os caracterizava: os vícios, as mulheres, a sabedoria e um imenso amor à vida e à arte. Procurei adquirir tudo isso, excepto a sabedoria, que não se procura – procura-nos. Conclusão: tive uma infância excessivamente feliz, poema esse que, porque sublime, me não permito macular.
A estúpida adolescência dediquei-a às leituras e aos desapontamentos; à inventariação de palavras, também, sobretudo as proparoxítonas (vide energúmeno, acéfalo, etc.), que me deixavam os tímpanos em pantanas. Deu no que deu, o meu humor «gallowso». Comecei assim a escrita d’Os Funerários. O projecto era simples: num texto denso, prolixo e tendencialmente compacto (quer isto dizer que o recurso ao parágrafo seria raro), tentar descer o mais humanamente possível à comiseração ridícula, ao melodrama, ao patético. Em suma, recuperar o método dos grandes mestres: Ésquilo, Sófocles, Anaximandro e Eurípides, entre outros, que agora não me ocorrem. A estes adicionem-se duas outras influências inegáveis: por um lado, O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa (de onde provém a minha naturalidade) e proto-heterónimo de Fernando Pessoa – o melhor dos melhores livros escritos em Língua Portuguesa (a par de alguns do Eça, do Raul Brandão, e do Fialho de Almeida, que descobri recentemente); por outro lado, já mais tardiamente – e decisivo para voltar a escrever estes textos, depois de vários anos de hiato –, o meu contacto com Os Cantos de Maldoror, de Isidore Ducasse, um ilustre desconhecido.
De resto, chegado à idade adulta, pouco há a dizer. Vivo, sobrevivo, redivivo, convivo, revivo, sou amado, sou obsessivo-compulsivo, sou alcoólico (de momento, sob penitência), uso entorpecedores vários: anfetaminas, benzodiazepinas, antidepressores e antipsicóticos; gosto de literatura, de música e de fotografias velhas, e tenho uma vida simples e pouco interessante. O que, aliás, me agrada, já que tenho muito que escrever.
Deixo-te um poema, composto há pouco, um bocado em cima da almofada, bem sei, mas enfim. No caso, em Inglês, pois ultimamente ando muito ansioso, e só escrevo textos na minha língua materna quando na «plena» posse das minhas faculdades encefálicas. Rock on!



DREAM SORROW (WITH YOU ALL)

There is a gloomy scent of sorrow
In the eyes of the Morning Son, –
A morbid sense of beauty, the Call...
And I am at the end of the cemetery.

The world is a grey, dark hollow... Swallow
The days, the killing sun, follow not in fear.
You ought to be playing a funeral song, –
And I am waiting for you at the cemetery.

There is a time to dream, o sorrow,
And there is a great light at the end
Of the world's never ending hollow.
And I am waiting for the night to come
At the gates of a glittering cemetery, –
Dreaming of life, I am with you all.





Transladado d'Os Funerários.



Fotografia gentilmente cedida por Eye of Horus


Aos mestres Tom Jobim e Vinicius de Moraes.


ALMA ROTA DE AÇUCENA

Olha que alma mais rota
Mais cheia de traça
É ela sibila na sombra da praça
Seu rosto aquilino
Caminho do mal
Psique de espectro, farrapo
Trapo de açucena
O seu mau-olhado é mais que um enfisema
É a alma mais baça que eu já vi praçar
Ah, dá-me um pouco de vinho
Sim, talvez antes um whisky
Que penso, logo desisto
E a beleza é uma quimera, um quisto
Dilata toda a merda que existe
Ah, se ela soubesse
Que quando ela praça
Coimbra inteirinha se enche de traça
Há lá coisa pública sem seu bolor





JULIGHT (AFTER DARK)

«Is there a living soul out there?»
Slowly they rot. Rapidly. I know
You lie to me. For Julight I see.
A subtle, sudden corpse sweats
In dismay; and some flowers too,
Fall in a dried, dully web of decay.
The Fall... O how I yearn for thee.
«There is no living soul out there.»
I know you lie to me when you say
The day is done, the heat is gone,
Night will soon be here. Lovely be.
Six hours of darkness! Hardly can
We call that a night. I smell its scent,
The sweating corpses, their putrid
Flesh. Softly we rot. True, you see?
It is Julight. Indeed, quite a cemetery.




Vincent van Gogh,
Old Man in Sorrow
(On the Threshold of Eternity)
,
1890



LITANIA

Amo-te, imperfeita e original,
Com tuas canduras douradas,
Com tuas auroras cruzadas
Fantasiando mandrágoras
Num crepúsculo de magnólias.
Princípio e fim, a espera dual.
Amo-te, no alvor dos dias
E na ressurreição das noites;
Nas manhãs frias de Verão
E nas ardentes noites de Inverno.
Meu sopro de trigo hiemal...
Meu girassol de luas...

Dona das minhas dunas desertas.

Vem, epifania de eternidade!
Vem, sofredora sem idade!
Nos teus românticos afãs matinais,
Na vacuidade dos teus véus vespertinos,
Vem e leva-me, inelutável Mãe!
Por entre a bruma brilhante, o nada
E o distante. Quero-te, Vida. Amor-te.




Wolf, blueargh, 2006


Para a Sandra, que tem uma alma azul.


(YOU BLUE US ALL) THE WAY

Tonight we are lonely
By the sea, divided only
By an argh length away:
Deepest tides of thee.

May storm still ye calm
Our troubled dreams;
Come make us drown
Thy schismatic streams.

For there is a void –
And that is the light;
For there is a dark –
And that we call home.


Yet some feel so nude
(The bluest lonely few),
Their desperate dreams –
Come make them drown.

For all this could have been
As blank as a notions' spleen...

(We are but a vomit written in blue)

For all could this have been
As silent as an ocean's scream...

(They are but a written vomit of blue)

Aye, tonight we are lovely
By the sea, the blue loners,
Asking each other: "How come are we
So far from the deepest tides of thee?"



"An Ocean Song" was mistaken from The Serpent Songs. Love it or Hate it!







Full Moon Madness
We are as one and congregate
Full Moon Madness
We rise again to procreate


Moonspell, "Full Moon Madness"


The poet's eye, in a fine frenzy rolling,
Doth glance from heaven to earth, from earth to heaven;
And as imagination bodies forth
The forms of things unknown, the poet's pen
Turns them to shapes, and gives to airy nothing
A local habitation and a name.


William Shakespeare, A Midsummer Night's Dream (V, I, 12-17)




Wolf, the ever-seeing eye, 2006


Para o Fernando, Ricardo, Pedro e Mike, aka MOONSPELL


LUNARIS

É ferida já carcomida a nossa orfandade, lunares, se rendemos o tempo à cicatrização da eternidade.
É a cálida lama dos dias, a esquálida alma das noites. É a nossa cama sobre as lâminas do mundo. A terra prometida, para todo o sempre jamais abandonada. Porque a perenidade da beleza é dos mistérios mais horrorosos que a desilusão humana pode entrever, selámos o nosso destino, visionários, ao contemplar o olho lunar com a nossa solidão alta e terrena, esclarecida. Somos a diversidade na unidade. O multiforme poema noctâmbulo.
Compreendemos, então, os intervalos da magia, quando o espírito reclamava a sanidade dos instrumentos e nós, nómadas e loucos, ensaiávamos cânticos ao desconsolo da lira. A Lua geme nas alturas, matriarca sofredora, e no seu presídio de escuridão antevemos enfim a nossa fealdade. Ficamos assim, cadáveres boquiabertos, cobertos de salva e mirra, olhando a treva num torpor de espelhos que reflectem os nossos corpos embalsamados de remorso. Ante o vácuo da existência, a poesia afigura-se-nos, pois, a única salvação, a possibilidade de erguer uma casa celestial, um lar crepuscular, um que albergue, disforme e uno, o caos que sempre soímos perscrutar. Esperemos, sim, que se nos abra a Porta, a Palavra que nos importa na vida: a distância. A certeza de que existe o Encontro. E a Lua, lá no alto, alada e sombria, reminiscência da Vida que há-de ser vivida, tudo vê, o céu e a terra, o falcão e o cisne, o verme e o vírus, o divino e o humano. Ela é a guia de Gaia. E por Ela, e só por Ela, nós morreríamos, imortais.







Virgo de Los, manus vitae, 2008


Ao Camané e à Aquilária, com profunda admiração


Sweet Aurora Suite

É como um sopro sem ar
O órgão entorpecido
Na pauta pulmonar
Das minhas notas diárias

No caderno de música sempre
O desapontamento sujo

A Voz!

O fracasso lamento
Se te não sei cantar

(Um verso branco:

A escuridão.)

Que nascemos cegos
E falecemos febris

Mas no berço abismo
Cava a manhã tudo jaz
Iluminar

Aurora suite coroada
Na partitura coronária
De um caderno diário

Escrito no teu poema eterno
Eis alado o meu inferno
Se por ser d’Ar
O sopro...
Arde!




Fotografia de Virgo de Los


Janela

Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.

Adélia Prado





Bonjour Cyprès

Vive a sombra no meu coração
Um cipreste, a solidão gretada
E agreste. Todas as manhãs,
Cedinho, escuto o seu gemido
No grande festim verminal. Há
Parasitas de muito feitio: ele é
Os minúsculos, insignificantes;
Ele há mastodontes, tratantes.
É lama, é pus, é mijo e sémen,
É jarro de vinho, cerveja ao sol.

Vivo a cipreste no meu coração,
Gretada, agreste a solidão. Do
Mundo protegido, ali guardado.




Emma Florence Harrison,
The Ghost’s Petition,
circa 1910



O AMANTE DE EMILY DICKINSON

O meu primeiro poema, o jamais funéreo, lego-te
Em paz, eterna sonâmbula, e feneço ao despertar.
Nele, em ruínas, a solidão que soube uivar a Vida
Sempre alta, majestosa e bela: «Leva-me, Deusa!»

Ledas enfermeridades entregues, sei reconhecer,
Nas roídas mãos, quase familiares, desconhecida,
Alba 'inda a tua memória. Vinde breve, doce Mãe,
Sêde misericordiosa neste inexorável julgamento.



Last Zen for The Lost!







I sing your soul, you seal my coffin...

02 Setembro 2008

PERPETUA VIGILIA

O inquietante é a grande barriga azul, grávida e grave, que se embala vagarosa, que não vem nem vai nem ataca nem espreita.
O que vai nascer?, pergunta o homem à tranquilidade redonda. E a pouco e pouco vai-se embalando e adormecendo, metido uma vez mais no berço terrível.


Pablo Neruda, «O Mar»


Wolf,
my dramartist dreams,
2006







Virgo de Los,
no grave like home,
2007



Canta e bate o mar, não está de acordo. Não o amarrem. Não o encerrem. Está ainda a nascer. Rebenta a água na pedra e abrem-se pela primeira vez os seus infinitos olhos. Mas já de novo se fecham, não para morrer, mas para continuar a nascer.

Pablo Neruda, «O Mar»




A ouvir Madredeus, O Espírito da Paz.

01 Abril 2008

P[s]alm



There is a great role in Nothingness to play
Silently, a shadow alliance, a cryogenic soul
Crying an urge to sleep, to hurt and to sing.
Out of the Serpent’s lair (the hole of life…),
Her Light springs grace under earthen feet,
The Eternal Weep, for all grave secrets run
Dark and deep, unique, a handful of it I hold.
Gold and dusty, the verse of the blindfold’d
Old dying child. Yet de vacuum, awaken be!




01 Março 2008

A verse to Aurora

Wolf, o whorror, my love, 2007


Because there is this bleeding absence of will
Burning the rather absynthesized soul of mine
An endless void within, a crow-did desert song...
I scream: 'A doom to call my own! O my, O my!'
By the horrorside of Aurora, enlightened I see
How dark is the sight of beauty, for what is lost
Is never to be told. Thus I devote myself to you,
Blue Flame: cover the ways in which I darkened

My life!

Hear me, Mother of the morgue and silent skies!
Sear me, thy beloved, for great angst I dare foresee,
A plan to devour my soul, the one never averse to you,
My Aura, my sweet dreamscape horror: Never leave me!
For I am Orphan of Light, and eternal, as the memento mori at hand,
Your Poem cries, my daily Noose... 'Come, Odysseus, out of the Cold!'